Pela confirmação histórica, vai além da característica de lenda ou de mera coincidência o ditado segundo o qual candidato à presidência que vence a eleição em Minas Gerais, vence a eleição no país.
Foi o que sempre aconteceu: o vitorioso em Minas tornou-se presidente eleito.
A última exceção foi Getúlio Vargas, em 1950.
Se a regra não escrita se impuser mais um vez, este ano, Luiz Inácio Lula da Silva deve estar otimista, depois do resultado de ontem do Datafolha.
Lula tem 20 pontos percentuais de vantagem sobre Bolsonaro nas terras mineiras: 49% contra 29% de seu principal adversário, e 6% de Ciro Gomes, o terceiro colocado.
A vantagem de Lula, em números diferentes, se repete nos três estados da Região Sudeste do país e, neste caso, outra vantagem fundamental beneficia o petista.
O Sudeste tem 44% do eleitorado brasileiro e, depois desta região, vem o Nordeste, até aqui reduto muito forte de Lula, com 27% do eleitorado, e bem depois o Sul, região conservadora, mas com 15% do eleitorado e menor possibilidade de pesar no resultado geral.
Os resultados do Datafolha no Sudeste são:
SÃO PAULO:
Lula (PT) 44%
Bolsonaro (PL) 31%
Ciro (PDT) 9%
RIO DE JANEIRO:
Lula (PT) 41%
Bolsonaro (PL) 35%
Ciro (PDT) 7%
MINAS GERAIS:
Lula (PT) 49%
Bolsonaro (PL) 29%
Ciro (PDT) 6%
Dados da jstiça eleitoral corroboram a premissa de que o eleito dos mineiros é o eleito do Brasil.
Os dados a seguir são da BBC News.
Em 1989, Fernando Collor (PTB) foi eleito e teve 55% dos votos em Minas Gerais contra 44% de Lula. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi eleito vencendo em Minas Gerais com 64% dos votos contra 21,9% de Lula. Quatro anos depois, o tucano venceu novamente liderando em Minas Gerais com 55% dos votos contra 28% de Lula.
Em 2002, Lula venceu as eleições e reverteu as derrotas em Minas Gerais. Ele obteve 66,4% dos votos contra 33,55% de José Serra (PSDB). Quatro anos depois, ele voltou a vencer as eleições e liderar em Minas Gerais: 65% dos votos contra 34% do ex-governador de São Paulo e agora candidato a vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin (PSB).
O mesmo aconteceu com Dilma Rousseff (PT) em 2010 e em 2014 e com Jair Bolsonaro, em 2018. Naquele ano, Bolsonaro venceu no segundo turno com 58,19% dos votos em Minas Gerais e 41,81% dos votos de Fernando Haddad (PT).
O professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Cristiano Rodrigues diz que há uma correlação clara entre vencer em Minas Gerais e vencer as eleições presidenciais, o que não significa dizer que uma coisa causa a outra.
“Não parece ser uma mera coincidência. A política é dinâmica e a nossa capacidade de prever é limitada, mas o fato é que, até agora, se pegarmos os dados desde 1989, por exemplo, nenhum presidente se elegeu sem ser o mais votado em Minas Gerais. Há uma correlação clara que me parece refletir a importância do estado na política brasileira”, disse Rodrigues.
O professor elenca dois fatores que, na sua avaliação, ajudam a explicar o fenômeno. O primeiro deles é o tamanho do eleitorado mineiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Minas Gerais tem o segundo maior número de eleitores do Brasil, 16,2 milhões. Perde apenas para São Paulo, com 34 milhões.
“Minas Gerais é o segundo maior colégio e um eleitorado muito heterogêneo […] à medida que esse eleitorado se move em direção ou em outra, isso tem um peso muito grande e pode pender a balança das eleições”, disse o professor.
O cientista político e também professor da UFMG Leonardo Avritzer aponta a diversidade geográfica e sociodemográfica do estado como um dos motivos pelos quais a vitória em Minas Gerais pode levar à vitória em âmbito nacional.
Segundo ele, por ser um estado tão diverso, vencer em Minas Gerais indicaria uma boa “calibragem” das candidaturas para dialogar com as diferentes regiões do Brasil.
“Minas Gerais expressa características dos estados vizinhos. O norte do estado, por exemplo, é muito parecido com a Bahia. A Zona da Mata mineira é muito parecida com o interior do Rio de Janeiro. O Triângulo Mineiro (no oeste) e o sul de Minas expressam bastante o interior de São Paulo”, afirmou o professor.
“No norte de Minas Gerais, você vai ter um eleitor um pouco mais progressista. No sul e no oeste, vai ser um eleitor mais conservador. Não é fácil vencer dialogando com um eleitorado tão heterogêneo”, diz o professor.






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