A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) provocou uma crise política de grandes proporções entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Considerada uma derrota histórica para o governo, a decisão do Senado expôs fissuras na base aliada e deve ter efeitos diretos na montagem dos palanques para as eleições de 2026.
Nos bastidores, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), é apontado como peça central no revés. Segundo o jornal O Globo, a leitura predominante entre lideranças políticas, tanto governistas quanto da oposição, é de que o episódio marcou uma reaproximação do senador com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje um dos principais adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial.
Impacto na base e nas alianças
A derrota de Messias também dificultou a tentativa do governo de estreitar relações com a cúpula da federação formada por União Brasil e PP. Dirigentes dessas siglas avaliam que o cenário atual pode levar os partidos a se alinharem com Flávio Bolsonaro, embora a hipótese de neutralidade ainda esteja em aberto diante da polarização eleitoral.
Desde a votação, Alcolumbre tem negado qualquer atuação para prejudicar o governo. O senador afirma que sua conduta se limitou ao exercício institucional do cargo de presidente do Senado.
Entre aliados de Lula, há a expectativa de que uma eventual recuperação da popularidade do presidente possa reverter o quadro e convencer partidos de centro de que a reeleição seria a opção mais segura. Ao mesmo tempo, integrantes do governo discutem formas de pressionar Alcolumbre, incluindo estratégias para desgastar sua imagem junto à opinião pública.
Disputa por espaço e memória política
Nos bastidores, pesa também a memória de alianças passadas. Em 2019, após a eleição de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro apoiou a vitória de Alcolumbre à presidência do Senado. Agora, aliados avaliam que uma eventual coligação entre o PL e a federação União-PP dependerá do espaço que essas legendas terão em um possível novo governo.
No fim do ano passado, o presidente do PP, Ciro Nogueira, chegou a ser apontado como interlocutor de uma tentativa de neutralidade da federação, em reunião com Lula na Granja do Torto — encontro que ele nega. Atualmente, porém, cresce entre dirigentes a percepção de que o apoio ao senador do PL é o cenário mais provável.
Reflexos em Minas Gerais
A reconfiguração política também deve impactar disputas regionais estratégicas, como a de Minas Gerais. Caso se confirme a aliança com União e PP, Flávio Bolsonaro poderá ter acesso a mais recursos do fundo eleitoral e maior tempo de propaganda em rádio e televisão do que Lula.
Dentro do governo, há ainda desconfiança em relação ao ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que era cotado para o STF. Parte dos governistas atribui a ele influência na derrota de Messias e questiona sua permanência como possível candidato ao governo mineiro com apoio do Planalto.
As tensões se intensificaram após divergências envolvendo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que rompeu com Pacheco e Alcolumbre em meio a disputas por cargos. O episódio também expôs conflitos dentro do PSD, especialmente com o apoio do partido ao governador Mateus Simões, aliado de Romeu Zema, adversário político de Pacheco.
Pressões regionais e disputas locais
No Amapá, reduto eleitoral de Alcolumbre, o cenário também é desafiador. O PSD lançou o ex-prefeito de Macapá Doutor Furlan como pré-candidato ao governo, ameaçando a reeleição de Clécio Luís (União), aliado do senador. Além disso, nomes como Lucas Barreto (PSD) e Rayssa Furlan (Podemos) despontam como possíveis adversários no cenário local.
Apesar das tensões, parte do PT defende cautela. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso e aliado de Alcolumbre, afirma que a relação com o Planalto segue inalterada. “continua a mesma, institucional”.
Cargos e influência no governo
Mesmo sob pressão, Alcolumbre mantém influência significativa na estrutura do governo federal. Indicações ligadas ao União Brasil e ao PP passaram por seu aval, incluindo cargos em ministérios estratégicos como Integração Nacional, Comunicações e Turismo.
O senador também tem influência em estatais e órgãos como Correios, Codevasf, agências reguladoras e Telebras. Para preservar essas indicações, foi adotada a estratégia de desvincular formalmente os apadrinhados das siglas partidárias.
Até o momento, o governo evita medidas mais drásticas, como a exoneração em massa de indicados ligados a Alcolumbre. A avaliação interna é de que uma ruptura imediata poderia intensificar ainda mais a crise e comprometer a governabilidade.





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