Datafolha: 59% apoiam classificar PCC e CV como terroristas; 74% rejeitam ação dos EUA no Brasil

Levantamento mostra apoio à classificação das facções como terroristas, mas maioria defende autonomia do Brasil e rejeita qualquer intervenção estrangeira sem autorização oficial

A maioria dos brasileiros concorda com a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. Ao mesmo tempo, uma parcela ainda maior da população rejeita qualquer possibilidade de atuação direta do governo norte-americano contra integrantes dessas facções em território nacional sem autorização das autoridades brasileiras.

Os dados são de uma pesquisa Datafolha. Segundo o levantamento, 59% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a classificação das duas maiores facções criminosas do país como grupos terroristas. Em contrapartida, 74% discordam da hipótese de os Estados Unidos realizarem operações contra membros dessas organizações no Brasil sem consentimento do governo federal.

O estudo ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais nos dias 17 e 18 de junho, em 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Segurança preocupa população

Os resultados refletem a relevância crescente da segurança pública entre as preocupações dos brasileiros. Pesquisas recentes apontam que a criminalidade figura entre os principais problemas do país, atrás apenas da saúde e à frente de questões econômicas.

Além disso, levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que uma parcela significativa da população afirma viver em regiões onde percebe influência do crime organizado. Esse cenário ajuda a explicar a receptividade à adoção de medidas mais rígidas contra facções criminosas.

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o apoio à classificação das organizações como terroristas representa uma reação da população diante do avanço da violência, informa a Folha de S.Paulo. Segundo ele, trata-se de um sentimento de que alguma resposta está sendo dada ao problema da criminalidade.

Polarização influencia percepção

A pesquisa também revelou forte influência das preferências políticas na interpretação da decisão americana. Metade dos entrevistados acredita que os Estados Unidos agem com o objetivo de ajudar a combater as facções e contribuir para a segurança dos brasileiros.

Por outro lado, 47% avaliam que a medida pode servir de justificativa para ampliar a influência de Washington sobre assuntos internos do Brasil. O entendimento varia conforme a identificação partidária e a preferência eleitoral dos entrevistados.

A cientista política Maria Hermínia Tavares, professora emérita da USP, avalia que o tema combina preocupações com segurança pública e sentimentos ligados à soberania nacional. Para ela, a população demonstra simultaneamente preocupação com o combate ao crime e resistência a interferências externas.

Debate deve ganhar força em 2026

Outro dado do levantamento mostra que 54% dos entrevistados acreditam que o senador Flávio Bolsonaro teve influência na decisão dos Estados Unidos. Entre aqueles que compartilham essa avaliação, a maioria considera que essa participação foi negativa para o país.

Especialistas ouvidos pela Folha destacam que o debate sobre terrorismo, crime organizado e soberania nacional tende a ocupar espaço relevante na disputa presidencial de 2026. A avaliação predominante é que o tema da segurança pública continuará sendo um dos principais desafios para candidatos e governos.

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