Cuba leva à ONU denúncia contra bloqueio energético dos EUA

Governo cubano afirma que sanções agravam crise humanitária e energética na ilha; documento revelado pela imprensa aponta pressão diplomática dos EUA sobre outros países para reduzirem seu apoio à Cuba

O governo de Cuba leva nesta terça-feira (7) à Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) uma denúncia contra o que classifica como cerco energético imposto pelos Estados Unidos. Em sessão urgente convocada pelo organismo internacional, Havana pretende denunciar os impactos das sanções econômicas e energéticas sobre a população cubana e acusar Washington de tentar impedir que o tema seja debatido no âmbito das Nações Unidas.

A delegação cubana é chefiada pelo ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, que representa o país na sessão convocada para formalizar a denúncia. Segundo a agência estatal Prensa Latina, o governo cubano sustenta que as medidas adotadas pelos Estados Unidos vão além do embargo econômico tradicional e incluem bloqueio energético, sanções financeiras e pressões diplomáticas destinadas a reduzir o apoio internacional à ilha.

A iniciativa ocorre em um momento de agravamento da crise energética cubana, marcada por apagões frequentes, escassez de combustíveis e dificuldades na geração de energia elétrica.

Cuba afirma que medidas afetam serviços essenciais

Segundo o governo cubano, as restrições impostas pelos Estados Unidos comprometem diretamente o funcionamento de setores considerados essenciais, como saúde pública, transporte, distribuição de alimentos e outras atividades econômicas.

Havana argumenta que o bloqueio energético dificulta a importação de combustíveis e limita a capacidade do país de manter o abastecimento de eletricidade, agravando os problemas enfrentados pela população.

Na avaliação das autoridades cubanas, os efeitos das sanções ultrapassam o campo econômico e produzem consequências humanitárias que justificam o debate na Assembleia Geral da ONU.

Embaixador classifica medidas como violação de direitos humanos

O embaixador de Cuba nas Nações Unidas, Jorge Luis Pedroso, afirmou que a situação enfrentada pelo país possui dimensões econômicas, políticas, comunicacionais e de segurança.

Em declarações à imprensa, ele afirmou que o bloqueio energético, associado ao endurecimento das demais sanções, constitui “um ato de genocídio, uma punição coletiva e uma violação maciça, flagrante e sistemática dos direitos humanos do povo cubano”.

Pedroso também afirmou que a denúncia apresentada por Havana se baseia em fatos já em andamento, e não em riscos futuros.

“Esta não é uma situação hipotética de agressão, não se baseia numa simples avaliação de risco. É uma agressão em curso, uma agressão multidimensional: económica, política, de comunicações, e contempla também uma eventual agressão militar”, declarou.

Telegrama divulgado pela imprensa amplia repercussão

A denúncia apresentada por Cuba ganhou novo destaque após a revista The Nation divulgar a existência de um telegrama atribuído ao Departamento de Estado dos Estados Unidos e assinado pelo secretário Marco Rubio.

Segundo a publicação, o documento orientaria embaixadores estadunidenses a atuar junto a governos estrangeiros para evitar que a Assembleia Geral da ONU discutisse os efeitos humanitários das sanções impostas pelos Estados Unidos contra Cuba.

De acordo com os jornalistas Peter Kornbluh e Ken Klippenstein, responsáveis pela reportagem, o telegrama determinava que diplomatas dos EUA trabalhassem para “impedir que as Nações Unidas abordem, nesta terça-feira, os efeitos da política econômica agressiva sobre o povo cubano”.

Ainda segundo a reportagem, o documento recomendava que países tradicionalmente favoráveis a Havana fossem “extremamente cautelosos” em suas manifestações, sob o argumento de que posições favoráveis ao governo cubano poderiam provocar “atritos” nas relações bilaterais com os Estados Unidos.

Para os autores da reportagem, o conteúdo reforça as acusações apresentadas pelo governo cubano.

“O telegrama confirma o que Cuba vem denunciando: Washington não só mantém o bloqueio, o embargo energético e as sanções financeiras, como também tenta silenciar o debate internacional sobre suas consequências humanitárias”, afirmaram Peter Kornbluh e Ken Klippenstein em artigo publicado pela revista.

Crise energética intensifica disputa diplomática

A ofensiva diplomática ocorre em meio ao agravamento da crise energética em Cuba. Nos últimos meses, o país enfrentou apagões nacionais, redução no fornecimento de combustível e dificuldades para manter a geração de energia elétrica.

Segundo o governo cubano, esse cenário foi agravado pelo endurecimento das sanções dos EUA e pelas restrições ao abastecimento energético.

Os Estados Unidos, por sua vez, sustentam que as medidas têm como objetivo atingir o governo cubano e setores considerados estratégicos pelo Departamento de Estado, e não a população da ilha.

Em junho, Washington ampliou a pressão sobre o setor energético cubano ao anunciar sanções contra a estatal União Cuba-Petróleo (CUPET).

Histórico de condenações na ONU

A Assembleia Geral da ONU aprovou, ao longo dos últimos anos, 31 resoluções consecutivas condenando o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos contra Cuba, sempre com ampla maioria de votos favoráveis à posição defendida por Havana.

Para o governo cubano, esse histórico demonstra o isolamento internacional da política estadunidense em relação à ilha.

Segundo a Prensa Latina, Havana considera que qualquer tentativa de impedir o debate desta terça-feira faz parte de uma estratégia para desestimular manifestações de apoio ao fim das sanções e reduzir a pressão internacional sobre Washington.

Com a realização da sessão na ONU, a expectativa do governo cubano é recolocar no centro da agenda diplomática os efeitos do bloqueio sobre a economia e as condições de vida da população, em um contexto marcado pela crise energética e pelo aumento das tensões entre Havana e Washington.

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