As movimentações dos partidos do Rio para as eleições ao Senado indicam um consenso da esquerda em torno de Benedita da Silva (PT), Cláudio Castro (PL) inelegível e a direita ainda fragmentada em meio a um cenário de incerteza jurídica.

Um levantamento divulgado nesta sexta-feira (24) pelo Instituto Paraná Pesquisas, que indica empate técnico entre Benedita e Castro, revela nomes com potencial de crescimento na corrida eleitoral. Marcelo Crivella (Republicanos), Pedro Paulo (PSD) e Márcio Canella (União Brasil) têm fôlego para despontar durante suas campanhas. O pleito deste ano irá eleger dois novos senadores pelo Rio para mandato de oito anos. Eles irão se juntar a Romário (PSB), que foi eleito em 2022 e segue no cargo até 2030.

Castro recorre à decisão de inelegibilidade por abuso de poder político e econômico / Crédito: Divulgação

Especialistas ouvidos pela Agenda do Poder indicam que a inelegibilidade do ex-governador do Rio ainda não foi mapeada pelas pesquisas, e pode indicar a pulverização dos votos da direita, caso ele seja impedido de concorrer. A defesa de Castro pode apresentar recursos no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a decisão. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou nesta quinta-feira (23) o acórdão da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

O advogado e cientista social Victor Escobar David não descarta uma eventual reviravolta jurídica capaz de colocá-lo na disputa. Caso isso ocorra, o vê como favorito nas eleições. “Se o Castro puder ser candidato, ele talvez seja o grande favorito, porque conta com o apoio da máquina política por ter sido governador”.

Já o cientista político Geraldo Tadeu vê como remotas as chances de reversão desse cenário. “Os advogados estão entrando com todas as medidas possíveis para retardar o processo trânsito em julgado para que ele possa disputar com a liminar na mão. Mas a inelegibilidade de Castro é praticamente irreversível”, avalia.

Cientista político e colunista da Agenda do Poder, Paulo Baía diz que o grupo político ligado a Cláudio Castro já articula uma alternativa. “Mas não há definição. O Castro segue sendo um nome forte. Ele foi eleito governador do Rio com 67% dos votos válidos e ainda está nas pesquisas”.

A solidez de Benedita

Benedita desponta entre os favoritos em pesquisa / Crédito: Divulgação

Com a inelegibilidade de Castro, o nome mais forte é o de Benedita. Como credenciais para o pleito, conta com uma trajetória política consolidada e com a capacidade de dialogar com diversos setores da sociedade.

Religiosa, defensora da família e progressista, ela é vista como uma política capaz de romper com a ideia de que a fé evangélica é obrigatoriamente conservadora, indicam os especialistas. Reportagem de Agenda do Poder indica a força do voto evangélico nas eleições deste ano no Rio.

“É talvez o nome mais competitivo para o Senado por essa facilidade de dialogar com a esquerda e com os evangélicos. A Benedita consegue transcender. E, talvez, seja até maior do que a própria vaga ao Senado”, diz Victor Escobar David.

Paulo Baía destaca, ainda, a capacidade de alinhamento de Benedita em oposição ao voto do eleitor conservador. “As forças da esquerda e da centro-esquerda estão alinhadas em torno da candidatura da Benedita”, diz Paulo Baía.

Geraldo Tadeu vê a candidatura como um acerto do PT do Rio. “A primeira vaga será de centro-direita ou de direita. E, se a esquerda se unir em torno do nome da Benedita, ela tem boas chances de conquistar a segunda vaga. Estrategicamente, foi um acerto, porque é um nome forte. Ela já foi governadora, senadora, ministra e tem força política”.

Crivella e Canella, as alternativas a Castro

Marcelo Crivella aparece com destaque na pesquisa para o Senado / Crédito: Divulgação

O possível veto à candidatura de Cláudio Castro faz com que Crivella e Canella despontem como favoritos a uma das vagas ao Senado na avaliação de especialistas.

“O Crivella é uma liderança já tradicional. Foi prefeito, senador, candidato a governador e é uma figura conhecida pela ligação no meio evangélico. Mas o Canella também é um nome forte”.

Geraldo Tadeu, cientista político

Victor Escobar David também diz ver Crivella e Canella com boas possibilidades. Mas ainda projeta um outro nome diretamente ligado ao partido de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. “A direita pode apostar em uma dobradinha entre eles. Mas o PL vai ficar sem lançar um candidato próprio? Acho pouco provável”, avalia o sociólogo.

Márcio Canella tem potencial de crescimento, indicam especialistas / Crédito: Divulgação

Ele prevê Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio, como um dos nomes possíveis. “Ele consegue dialogar com o eleitorado da direita, com os evangélicos e com o campo bolsonarista. É um nome forte”, diz.

Mas há o entendimento de dificuldade para um nome de consenso na direita, em contraste com Benedita na esquerda.

A cientista política Mayra Goulart acredita que o cenário indefinido em relação a Castro ajuda a dividir o voto do eleitor de direita. “A campanha ainda não começou, mas é possível observar que a direita está fragmentada”, analisa.

Pedro Paulo pode crescer na ‘aba’ de Paes

Pedro Paulo pode crescer com o apoio de Paes / Crédito: Divulgação

Pedro Paulo (PSD) é apontado por especialistas como um candidato com potencial de crescimento se contar com o apoio de Eduardo Paes, com amplo favoritismo ao Governo do Rio com 53% das intenções de voto, segundo o Instituto Paraná Pesquisas. Douglas Ruas (PL) aparece em segundo lugar, com 13,2%.

“Ele corre por fora, mas pode despontar se Paes o colocar debaixo do braço e fizer campanha”, projeta o cientista político Geraldo Tadeu.

“A candidatura do Pedro Paulo pode crescer pelo favoritismo do Eduardo Paes”, concorda Victor Escobar David.

O cientista político Paulo Baía o define como “centrão clássico”, e diz que ele pode “tirar votos” de Crivella e Canella. “Ele está crescendo, e tem como trunfo o fato de ser vinculado ao Eduardo Paes”, diz.

Quais os desafios e a importância do Senado

Fachada do Congresso, com o Senado e a Câmara dos Deputados / Foto: Divulgação

Especialistas políticos ouvidos pela Agenda do Poder explicam a importância da composição do Senado. Segundo eles, a escolha de senadores é negligenciada pelos eleitores por desconhecimento da importância da função que exercem. “Normalmente, é uma eleição de pouco interesse. A maioria dos eleitores não sabe o que faz um senador”, diz o cientista político Geraldo Tadeu.

“As eleições para o Senado passam despercebidas pelo eleitorado comum, e acabam sendo eclipsadas, porque a escolha do presidente e do governador são mais mobilizadoras”.

Victor Escobar David, advogado e cientista social

O Senado divide com a Câmara dos Deputados a função do Poder Legislativo. Os deputados federais são apontados como representantes da população. Já os senadores representam os municípios e os Estados. Os especialistas também citam diferenças na forma de escolha de deputados federais e senadores.

“A Câmara dos Deputados escuta a população. Já o Senado escuta os territórios. Por isso, tem uma função mais madura e mais institucional. Quase todos os projetos de lei começam na Câmara dos Deputados e só depois vão para o Senado, responsável pelas revisões e alterações”, compara Victor Escobar David.

O advogado e cientista social explica, ainda, que a Câmara é mais fragmentada devido a um formato de divisão partidária em uma composição com mais de 500 deputados. Já os senadores possuem o status de serem lideranças mais consolidadas no panorama político.

“O Senado tem essa característica de ser o ‘peso-pesado’ da política institucional brasileira, como José Sarney e outros. A participação do Renan Calheiros no impeachment da Dilma mostra essa força com o Senado agindo como juiz natural”.

Victor Escobar David

Os deputados são eleitos de acordo com uma votação distribuída entre partidos e federações, levando em consideração o volume total de votos que cada legenda recebe. Já os senadores são eleitos pelos votos que recebem.

“Os candidatos ao cargo de deputado podem ter um discurso mais nichado nas eleições, algo impensável para os candidatos ao Senado, que precisam ter um discurso capaz de proporcionar uma votação maior”.

Mayra Goulart, cientista política

A cientista política Mayra Goulart diz que um dos principais desafios será a quantidade elevada de emendas parlamentares. “Isso é uma questão nova para observar essa proeminência do Senado”, diz.

A cientista política explica ainda que os senadores ganham ainda maior protagonismo por terem a responsabilidade de fazer a sabatina dos ministros do STF em um cenário de contestações ao Supremo. “Isso concede centralidade no contexto atual em que a extrema direita tem se organizado no Legislativo e no Executivo a partir da retórica de questionamentos, intensificados após a prisão de Jair Bolsonaro”, argumenta.

Renovação do Senado e renegociação de dívida

As eleições deste ano irão representar uma renovação de dois terços da composição do Senado, com mandato até 2034. “Essa renovação trará um impacto muito grande no Senado”, avalia o cientista político Paulo Baía.

Ele aponta a renegociação da dívida pública do Estado do Rio com a União como um dos principais desafios.

“Escolher bons senadores é escolher quem vai representar o Estado. E, nos próximos orçamentos, será necessário calibrar as verbas orçamentárias, independentemente das emendas parlamentares”.

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