Conheça os cinco cultos religiosos mais curiosos do Brasil

Muitas dessas denominações religiosas ou filosofias passam por baixo dos radares do IBGE e nem figuram no Censo

Zoroastristas, satanistas, jainistas, rastafaris, baha’i, caodaístas, cheondoístas, pastafarianistas, posadistas. No fantástico sincretismo religioso brasileiro sempre cabe mais um. Naturalmente, muitas dessas denominações religiosas ou filosofias possuem tão poucos adeptos que passam por baixo dos radares do IBGE e nem figuram no Censo. Uma coisa meio Deus da Polinésia.

Há casos e casos dentro da tradição judaico-cristã, que adotam diferentes abordagens. Enquanto a rapaziada que curte o chá do Santo Daime não se intimida e aparece nas estatísticas com quase 20 mil seguidores em suas diferentes ramificações, há um alarmante caso de subnotificação dos seguidores de religiões de matizes africanas — por receio de represálias das alas radicais do neopentecostalismo. Mesmo assim seguidores da Umbanda e Candomblé representam oficialmente 1,9 milhão de pessoas no Brasil. Mas algumas doutrinas, que você talvez nunca tenha ouvido falar, são tão…diferentes, que se não existissem ninguém as teria criado!

Igreja do Reino da Arte (‘A Noiva) – Rocinha, Rio de Janeiro

  • Origem

A Igreja do Reino da Arte, também conhecida como “A Noiva”, é um movimento artístico-espiritual fundado em 2017 na Rocinha por artistas como Maxwell Alexandre e Edu de Barros, que mistura arte contemporânea, liturgia cristã e ativismo cultural. É um grupo fechado, discreto e restrito à comunidade local, com algumas interações ocasionais com o mundo externo através de exposições ou performances públicas.

A Noiva é representante da Arte | Reprodução
  • Crenças

Inspirada por passagens bíblicas e pelo formato de igrejas neopentecostais, a igreja tem como figura simbólica central “A Noiva”, representante da Altíssima Arte, uma entidade divina. A Noiva é, portanto, uma representação mística da própria Arte, vista como meio de conexão com o sagrado. Seus rituais envolvem produção, contemplação e doação de obras artísticas como dízimo, em uma prática que sacraliza o ato criativo.

  • Práticas

Com templos instalados dentro da comunidade e ações performativas que invadem ruas e galerias, a igreja propõe uma reinvenção radical do espaço religioso e expositivo, valorizando a arte produzida por jovens periféricos. Não há estrutura hierárquica rígida, mas sim líderes carismáticos. Seus encontros funcionam como espaços de cura, incluindo batismos com água e ervas, confissões, e muita, mas muita crítica social, reunindo moradores da favela, artistas e simpatizantes em torno de uma vivência estética e espiritual inclusiva e libertadora. Como a base é que o ato de criar é um rito espiritual, as cerimônias são performáticas, com produções coletivas de arte como grafite, escultura, pintura e música.

Movimento da Gruta da Boa Esperança – Bahia

  • Origem

O Movimento da Gruta da Boa Esperança surgiu em 1966 no município de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina (BA). Foi liderado por Pedro Nunes da Silva, o Pedro Velho, que afirmava receber mensagens de santos católicos, como São Sebastião e Nossa Senhora do Parto. O ambiente remoto e de difícil acesso, com trilhas íngremes e vegetação da caatinga, reforçava a aura de isolamento e misticismo do grupo. 

Movimento surgiu em 1966 | Reprodução
  • Crenças

Sob comando de Pedro Velho, famílias de pequenos agricultores abandonaram suas casas para viverem dentro da gruta, que seria um portal sagrado e acreditando que lá estariam protegidos e ainda seriam capazes de “desencantar”, por meio de uma série de rituais, uma serpente mitológica, chamada Iracema, que os recompensaria com tesouros materiais e espirituais. Com o passar do tempo, os rituais cresceram em intensidade e o grupo adotou uma estrutura de comunismo primitivo.

  • Práticas

Foi aqui que o caldo entornou. As práticas religiosas envolviam sincretismo, messianismo e rituais de purificação com sacrifícios: inicialmente de animais (galinhas, cabras, ovelhas) e, segundo registros históricas, evoluíram para sacrifícios humanos, _ que, finalmente, seriam o “abracadabra” para libertar Iracema. Deu ruim. Em 1980, a Polícia Militar chegou com o pé na porta, desbaratou a comunidade e mandou Pedro Velho para um sanatório. O culto foi considerado oficialmente extinto, mas mesmo nos dias de hoje há relatos de encontros para discutir os segredos e tesouros ocultos por Iracema.

Cultura Racional – Brasil (principalmente Rio e São Paulo)

  • Origem

A Cultura Racional é um movimento filosófico-religioso brasileiro fundado nos anos 1930, no Rio de Janeiro, por Manoel Jacinto Coelho, que dizia receber ensinamentos de seres de um certo “Mundo Racional”. A Cultura Racional permaneceu relativamente obscura até atingir seu auge nos anos 1970, quando o cantor Tim Maia, então recém-convertido, lançou os álbuns “Tim Maia Racional” volumes 1 e 2, popularizando o movimento nacionalmente. No entanto, após seu afastamento e críticas públicas ao grupo, a visibilidade do culto diminuiu consideravelmente.

Tim Maia adotou a chamada Cultura Racional em um período da carreira | Reprodução
  • Crenças

A humanidade é originária deste mundo superior chamado Mundo Racional. Nosso estado atual é considerado “irracional” por estarmos afastados de nossa origem verdadeira. O caminho de retorno ocorre pela leitura dos livros “Universo em Desencanto”, que, segundo Manoel Jacinto foram transmitidos por seres do Mundo Racional, uma dimensão superior da qual a humanidade teria se originado.

  • Práticas

A humanidade é originária deste mundo superior chamado Mundo Racional. Nosso estado atual é considerado “irracional” por estarmos afastados de nossa origem verdadeira. O caminho de retorno ocorre pela leitura dos livros “Universo em Desencanto”, que, segundo Manoel Jacinto foram transmitidos por seres do Mundo Racional, uma dimensão superior da qual a humanidade teria se originado.

Solo Sagrado – Igreja Messiânica Mundial, São Paulo

  • Origem

Este é complexo. Não chega a ser uma doutrina própria, mas uma versão brasileira. O Solo Sagrado de Guarapiranga é o único complexo desse tipo construído pela Igreja Messiânica Mundial fora do Japão, inaugurado em novembro de 1995, no bairro de Parelheiros, em São Paulo, ocupando uma área de 327.500 m² à beira da represa de Guarapiranga. Mas origem da doutrina remonta ao Japão, em 1935, por Mokiti Okada (Meishu-Sama), que pregava a criação de um mundo ideal através da purificação espiritual, beleza e agricultura natural.

Solo Sagrado | Reprodução
  • Crenças

O Solo Sagrado de Guarapiranga, SP, é considerado um local de alta vibração espiritual, construído para refletir o Paraíso na Terra. Com infraestrutura que combina templo em formato de anel (com torre de 71 m e 16 pilares de 18 m), jardins, quedas d’água e museu, o design local foi idealizado por seu fundador, Mokiti Okada, acreditando-se que reflita a trilogia “Verdade, Bem e Belo”.

  • Práticas

Embora a igreja tenha dezenas de milhares de adeptos, o Solo Sagrado é utilizado apenas por uma fração deles, com eventos reservados e altamente cerimoniais. Só membros do Solo participam de algumas liturgias fechadas. Os rituais incluem erimônias de purificação espiritual, oferendas de flores, oração, Johrei (imposição de mãos para transmitir luz espiritual) e contemplação da natureza.

Irmandade da Boa Morte – Cachoeira, Bahia

  • Origem

A Irmandade da Boa Morte foi criada por mulheres negras — ex-escravizadas ou descendentes — entre o início e meados do século XIX, possivelmente já atuando em Salvador entre 1810 e 1840, antes de se fixar em Cachoeira por volta de 1820. Desde então, essas irmãs alforriadas organizaram não apenas celebrações religiosas, mas também ações de apoio mútuo, como assegurar funerais dignos, criar poupanças comunitárias e mesmo comprar alforrias para outros negros. A confraria possui uma estrutura interna hierárquica, liderada por cargos como Juíza Perpétua, Procuradora-Geral, Provedora, Tesoureira e Escrivã, escrupulosamente eleitos segundo tradições como contagem de grãos de milho e feijão.

Igreja da Boa Morte | Reprodução
  • Crenças

Mistura tradição católica e religiões de matriz africana. Suas integrantes são devotas de Nossa Senhora da Boa Morte, representação católica da Virgem Maria em seu momento de passagem da vida para a morte, mas também reverenciam os orixás, especialmente Oxum e Iansã, divindades femininas ligadas às águas e à transformação. Para as irmãs, a morte não é um fim, mas uma travessia espiritual sagrada, marcada por rituais de fé, silêncio e resistência. As cerimônias públicas, como as procissões e missas, são acompanhadas por rituais secretos dentro de sua sede, acessíveis apenas às irmãs.

  • Práticas

A cada agosto, entre os dias 13 e 17, a Irmandade promove a Festa da Boa Morte, declarada Patrimônio Imaterial da Bahia em 2010. Durante o evento, cerca de 30 irmãs vestidas de branco realizam cerimônias que combinam procissões (com andores e velas), missas, cortes de ceia branca (sem dendê ou carne na sexta-feira) e sambas de roda no Largo D’Ajuda, atraindo até 10.000 visitantes, incluindo turistas nacionais e estrangeiros. Esses rituais incluem cânticos em iorubá, oferendas e danças ancestrais.

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