No país que abandou suas linhas de trem, esta cidade guarda uma relíquia viva: uma locomotiva a diesel que parte de Saracuruna como quem não tem pressa de chegar, mas chega. Com mais de um século de história nos trilhos, Guapimirim é uma pequena porção do paraíso em Mata Atlântica, onde o tempo anda devagar e o trem anda mais devagar ainda.
Só para você ter uma ideia do talento cênico da região, Guapi tem cerca de 80% de seu território em área de proteção ambiental e é conhecida pelas cachoeiras e passeios de observação de botos-cinza e jacarés-de-papo-amarelo
A cidade abriga ainda o Museu Von Martius, instalado numa antiga fazenda do século XIX. E no embalo da revitalização cultural, a Fábrica da Cultura, uma iniciativa que reúne música, arte, dança e educação popular numa antiga área industrial reaproveitada _ uma espécie de “Sesc com sotaque da serra”.
No fim das contas, Guapimirim é um destino ideal para quem busca natureza exuberante, trilhas, cachoeiras e lagoas sensacionais e um trem que, apesar de tudo, ainda apita, mesmo que seja para avisar que vai atrasar.
História da cidade
Guapimirim, que significa “vale das águas pequenas” em tupi-guarani, foi oficialmente emancipada de Magé em 1990, mas sua história começa bem antes, com a ocupação dos temiminós e tupinambás — que como se vê, sabiam o que era bom. O desenvolvimento veio com a agricultura, sobretudo com o cultivo de banana e cana-de-açúcar. Mas o divisor de águas foi mesmo a chegada dos trilhos.
A Estrada de Ferro Therezópolis, inaugurada no trecho entre Piedade e Guapimirim em 1896, colocou a cidade nos mapas e tirou-a do isolamento. Depois da desativação do trecho até Teresópolis, Guapimirim se resignou como ponto final da linha. E assim permanece, heroicamente, resistindo ao sucateamento geral do transporte ferroviário.

Por que o trem tem tanta importância para a cidade?
O trem não é apenas transporte: é símbolo, história e identidade. Ele ajudou a fundar Guapimirim enquanto cidade, trouxe eletricidade (a rede ferroviária alimentava a iluminação pública até os anos 1960) e foi a principal ligação com o mundo exterior por décadas.
Hoje, serve tanto ao turismo de base comunitária quanto ao imaginário nostálgico dos moradores, sem falar que é também plano B para quem perdeu o ônibus.
Desde quando a linha opera?
A linha foi inaugurada em 1896, como parte da Estrada de Ferro Therezópolis. Em 1904 ela foi estendida até o alto da serra, em Teresópolis, mas o trecho foi desativado em 1957. Desde então, Guapimirim é a última parada.
O Ramal Guapimirim parte de Saracuruna (Duque de Caxias), passa por Magé e termina em Guapimirim. São cerca de 19 estações (nem todas ativas), com aproximadamente 30 km de trajeto. O detalhe é que o trem é movido a diesel, barulhento e simpático como aquele MP Lafer velho que seu tiozão se recusa a aposentar.
Desde fevereiro de 2023, a SuperVia suspendeu a cobrança da tarifa entre Saracuruna e Guapimirim. Ou seja, é gratuito. Um milagre logístico. Antes disso, a passagem custava R$ 3,70. Agora, o único custo é o tempo de espera.
O que tem para fazer por lá?
O município é um labirinto de manguezais, rios e cachoeiras que fazem do destino uma espécie de Pantanal Fluminense. O principal atrativo é o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, com nada menos do que 200 km (!) de trilhas.
Tem a que leva ao Dedo de Deus (que fica em Guapi e não em Terê, como muitos pensam); ao Poço Verde, com suas águas esmeralda; ao Vale da Lua, onde o Rio Soberbo e suas rochas naturalmente esculpidas dão lugar a poços e piscinas para banhos; aos Cânions do Iconha, uma trilha de dois quilômetros, com sete paradas em piscinas naturais de águas de tons sempre cristalinos e esverdeados; e até a Cachoeira da Neblina, simplesmente a maior queda d’agua do Brasil, descoberta apenas em 2018.
Há também o Museu Von Martius, que guarda parte da memória da botânica brasileira, apesar de, estranhamente, o naturalista e explorador alemão Karl Friedrich Philipp von Martius nunca ter pisado em Guapi durante os três anos nos quais se embrenhou nas matas brasileiras. Mal sabe o que perdeu!
Por sua vez, a Fábrica da Cultura de Guapimirim é um centro cultural multifuncional instalado numa antiga fábrica têxtil desativada. Ali se realizam oficinas gratuitas, eventos artísticos, peças teatrais, aulas de dança, saraus e exposições. A ideia é transformar ruína industrial em pulsação cultural.

Qual a melhor época para visitar e por que?
Dizem os crias e as nuvens que é no inverno, quando a chuva dá uma trégua, a neblina tira férias ocasionais e você consegue ver a Serra dos Órgãos inteira, sem precisar de fé ou do filtro da câmera do celular. O clima é ameno, os rios mais limpos, e a probabilidade de você escorregar numa trilha é ligeiramente menor.
Já no verão, a cidade entra no modo tropical completo: pancadas diárias, calor úmido de banho turco, mosquitos frenéticos e aquela adrenalina de pensar se a trilha vai ou não desabar.
Onde ficar?
Guapimirim oferece hospedagens simples, rústicas e cheias de charme, como o Bicho do Mato Suites, com vista para a Serra dos Órgãos ou o Sítio Recanto da Paz, ideal para quem quer dormir ao som de grilos e acordar com o canto dos pássaros (e eventualmente com o barulho distante de um trem).
O Cabana Paradise Hostel é a opção mais descolada para quem prefere um contato mais direto com a natureza e com outros mochileiros. As diárias oscilam na faixa dos R$ 200.
Como chegar?
De carro, são apenas 80 km do Rio até Guapimirim, pela BR-040 até Duque de Caxias e depois pela BR-116, sentido Teresópolis. Para os nostálgicos (e pacientes), o trem parte de Saracuruna, onde se faz baldeação a partir da Central do Brasil.
Dali, o trem a diesel percorre o Ramal Guapimirim, com paradas estratégicas, intervalos longos e cenários de tirar o fôlego, não pela velocidade, mas pela beleza da mata atlântica que beira os trilhos.


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