Ela não tenta competir com o calçadão de Ipanema, até porque o que por aqui tem de praia é no Rio Muriaé, e mesmo assim quando ele resolve se comportar. Em compensação, Laje do Muriaé entrega aquilo que cariocas e simpatizantes estressados buscam há décadas: tempo que passa devagar, gente que se conhece pelo nome e uma agenda cultural em que o grande evento da antepenúltima cidade do estado em termos populacionais são as panelas de arroz.
A “Laje” é noroeste fluminense raiz: nasceu de uma freguesia ribeirinha, virou palco de treta política no finzinho do Império e se emancipou só em 1962. Tem até um capítulo singular na história nacional, um episódio com garrafas voando e um futuro presidente correndo para salvar o pescoço — mas a gente chega lá.
E se você acha que agosto é sinônimo de frente fria, aqui ele tem cheiro de panela no fogo e palco montado na praça: é quando o Festival do Arroz reúne gente da região inteira atrás de shows, barracas e, claro, arroz em todas as cores e versões. Quem precisa de réveillon?
A história da cidade
Laje do Muriaé foi um povoado fundado no fim do século XIX com o nome de freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Laje por três sertanistas homônimos conhecidos como os “Três Josés”: José Ferreira César, José Bastos Pinto e José Garcia Pereira. Ela só se tornou cidade em 1962, mas o melhor episódio de sua história é talvez inédito em escala mundial.
No longínquo 16 de abril de 1889, o futuro presidente Nilo Peçanha, na época um ainda jovem tribuno de uma família humilde de Campos —, mas com uma carreira política em ascensão —, resolveu semear sabedoria entre os locais, discursando em uma conferência republicana. O primeiro presidente negro do Brasil amargaria para sempre essa ideia.
Mais de 400 homens, alguns deles negros libertos incitados por monarquistas com a fake news de que a República traria de volta a escravidão, e com apoio até da Força Pública, decidiram acabar com a conferência na marra. Ou melhor dizendo, com a maior chuva de garrafas de vidro que um político brasileiro já recebeu na história. Nilo Peçanha fugiu ligeiro não sofreu nada de grave. Mas cá entre nós, não é todo dia que uma cidade pequena entra para a história por literalmente expulsar a garrafadas um político golpista.

O festival do arroz
Se no Japão o que define um bom restaurante é a qualidade do arroz do niguiri, Laje levou essa ideia a outro patamar. No Festival do Arroz de Laje do Muriaé, que este ano completou 51 edições, o protagonista é….o arroz! Em todas as opções que você possa imaginar: com passas, sem passas, à grega, com frango, arroz carreteiro, farofa de arroz, arroz doce.
Junta gente de todo o noroeste do estado e além. Em outras palavras, não é aquele arroz que você acha na prateleira do supermercado da esquina, mas sim um grão com status local de celebridade gastronômica. O festival oferece várias preparações que fazem o arroz brilhar como o: “famoso arroz de Laje do Muriaé, reconhecido por sua qualidade e sabor inigualáveis”. Não é pouca coisa, não.
O mais tem para fazer por lá?
Um dos destaques da cidade é a Cachoeira do Paranhos: uma área de lazer a dois km do Centro, água amena e aquele barulhinho de queda d’água que substitui qualquer lista de reprodução “lo-fi”. O site oficial de turismo do Estado destaca o atrativo entre os cartões-postais locais — e não é à toa que os lajenses tratam a cachoeira como quintal coletivo.
Além da natureza, dá para visitar o Morro do Zé do Arrastado, com pelourinho e cruz que lembram o período escravista — um ponto de devoção e de memória. Some aí o carnaval de rua, a Festa do Peão e o próprio Festival do Arroz, e você tem um calendário que, em escala de cidade pequena, até que ocupa com distinção a agenda de quem chega.
Como chegar?
Do Centro da Guanabara até Laje do Muriaé, são cerca de 293 km de estrada ou quatro horinhas bem vividas de volante. A rota mais direta combina BR-101/BR-356 e acessos regionais. Não é logo ali, mas também não é uma epopeia: dá para sair depois do café e chegar a tempo do pastel na praça.
De ônibus, as passagens, saem a partir de R$ 87 e você provavelmente trocará de ônibus em Leopoldina (MG). Têm promoção de até 35% em determinados horários. Ou seja, dá para chegar relativamente barato — se você considerar que é uma viagem que atravessa metade do estado, com direito a todo tipo de paisagens.


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