Em Vassouras, capital sentimental do Vale do Café e lar de sobrados imperiais que assistiram do alto do camarote VIP boa parte da História do Brasil acontecer, um casarão do século XIX, a antiga Santa Casa de Misericórdia está voltando à vida. Onde outrora se tratavam partos difíceis ou casos de febre amarela à moda imperial, agora não haverá mais um hospital, mas um museu que se dedicará a tratar outro mal: a amnésia histórica. E não estamos falando de um equipamento qualquer, mas de algo tão imponente que segundo quem viu o projeto não ficaria deslocado em qualquer capital europeia”.
O prédio, que já salvou vidas e depois abrigou velhices esquecidas, sobreviveu a um incêndio e mais de uma década de ruína. Agora, passará a exibir, com recursos tecnológicos e narrativa crítica, as glórias e misérias do Vale do Café, que, no século XIX, respondia por até 75% do café consumido no planeta. Entre um holograma de Manuel Congo e um painel sobre Eufrásia Teixeira Leite, o visitante poderá se perguntar se está no interior fluminense ou num museu europeu.

Agora no fim de agosto será apresentado ao grande público o resultado das obras de restauro, financiadas sem um tostão de dinheiro público pelo Instituto Vassouras Cultural. A entidade, dedicada à preservação da memória do Vale do Café, foi fundada pelo empresário Ronaldo Cezar Coelho, que tirou o escorpião do bolso e bancou a recuperação em um investimento estimado até agora em mais de R$ 50 milhões. Já a inauguração “para valer”, com as exposições montadas, será só em novembro.
Entre os muitos convidados para a apresentação do novo museu, está o presidente do STF, Luiz Roberto Barroso, não como uma merecida deferência ao Supremo, mas como mostra a pujança de Vassouras na história. Uma cidade que mesmo sem ter uma única faculdade de Direito, emplacou quatro nomes ao longo da trajetória da Suprema Corte. A expectativa da cidade é grande. Afinal, não é todo dia que um hospital em ruínas renasce graças a um investimento maior até do que o número de registros de pacientes em seus prontuários centenários.

A história da Santa Casa
Fundada em 1853, a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras foi fruto da generosidade, com notas de conveniência política e social, de figuras como o Barão do Tinguá, que viam na caridade um complemento elegante para a fortuna do café. O hospital funcionou até 1910, quando cedeu lugar ao Asilo Barão do Amparo, abrigando idosos em um prédio que já fora símbolo de prestígio.
A decadência veio com tudo no século XX, acompanhando a queda da economia cafeeira. O imóvel foi interditado em 2007 e, para piorar, sofreu um incêndio curioso. Tudo porque não existe um consenso oficial sobre quando ele de fato aconteceu. Dependendo da fonte consultada, seja ela a imprensa local ou sites de órgãos públicos, uns dizem que foi em 2008, outros em 2011. Seja qual for a data, o resultado foi o mesmo: conseguiu piorar décadas de abandono e degradação visível.

Do que se trata o projeto?
O Museu Vassouras é, segundo o site oficial de turismo do município, uma “celebração das identidades que formaram o Vale do Café”. Traduzindo do jargão institucional: um espaço que vai misturar tecnologia de ponta com acervos e narrativas históricas sobre indígenas, africanos escravizados e colonizadores europeus.
A obra tem assinatura de Maurício Prochnik na arquitetura e foi precedida por um restauro emergencial feito pela Concrejato Engenharia em 2018, para evitar que o prédio desabasse antes de virar atração turística.
Diferentemente do que chegou a ser especulado, o novo museu não vai expor obras do acervo do seu mecenas, Ronaldo Cezar Coelho, dono de uma conhecida coleção que inclui Frans Posts, Portinaris, Lygia Clarks, e uma Tarsila do Amaral além de um conjunto de Aleijadinho e outro do Mestre Valentim. Não se trata, portanto, de “um museu de colecionador”, mas de uma curadoria voltada a resgatar vozes que, no século XIX, dificilmente pisariam as salas de visita das sedes das fazendas.

O que vai funcionar o no museu?
O Museu de Vassouras ainda não tem nem release oficial, mas o que se sabe é que o museu vai oferecer exposições permanentes sobre o ciclo do café e suas contradições sociais. A ideia é apresentar narrativas biográficas de personagens como Eufrásia Teixeira Leite, Marianna Crioula e Manuel Congo, com uso de tecnologia imersiva e recursos museográficos contemporâneos.
“Precisamos celebrar a cultura desta região, que no século 19 era a síntese do Brasil mestiço,” diz Ronaldo César Coelho. “O Vale do Café era a cara do Brasil: 70% da população aqui era preta, mas tinha também os fazendeiros que desceram de São João del Rey e os povos originários, que eram os índios puris e os coroados, que ganharam esse nome por causa do formato do seu corte de cabelo. O Brasil não conhece isso.”
A promessa, portanto, é de um espaço que não se limitará apenas a enfeitar o centro histórico, mas provoque reflexão. Resta ver se o visitante sairá pensando no legado histórico ou no valor do investimento.

Quem é Ronaldo César Coelho
Para os leitores mais jovens, Ronaldo César Coelho não é apenas o irmão do comentarista de arbitragem Arnaldo César Coelho. O ex-banqueiro fez fortuna ao vender o seu Multiplic ao Lloyds Bank nos anos 1990, em uma operação que segundo os jornais da época teria atingido cerca de US$ 600 milhões, dos quais Ronaldo teria ficado com quase metade.
Posteriormente ele construiu uma sólida carreira parlamentar com quatro mandatos consecutivos pelo PSDB, num tempo em que havia no país uma polarização de legendas com o campo da esquerda, liderado pelo PT, baseada em ideias e projetos concretos para melhorar o Brasil, não em golpes frustrados, patetadas e ideias medievais.
“Cheguei aqui há 40 anos num momento de virada na minha vida e adquiri um amor incondicional por esta cidade”, contou Ronaldo, hoje um acionista de peso em empresas como a Vibra, Light e Energisa. Foi quando o empresário comprou a Fazenda São Fernando, uma propriedade cafeeira fundada em 1813 e que ele converteu em seu infinito particular.
Nas últimas décadas, ele reconstituiu o bioma da região. Seguindo orientações técnicas da Embrapa, plantou 300.000 árvores nativas da Mata Atlântica na fazenda. E ainda mantém um plantio permanente de 20.000 por ano.
Assim, o que antes era uma terra arrasada pelas técnicas predatórias do ciclo do café, agora é o habitat de lobos-guarás, tucanos e jacus.
O que mais tem para ver lá?
No jardim do antigo casarão existe o Memorial Judaico de Vassouras, concebido por Roberto Burle Marx para preservar a memória de Benjamin Benatar e Morluf Levy, judeus enterrados ali no século XIX devido às restrições de sepultamento em cemitério católico. O memorial integra o conjunto e foi alvo de ações de recuperação associadas ao restauro do prédio principal.
Como chegar?
Saindo da Guanabara, o trajeto de carro é simples e leva cerca de 1h40min para cruzar uma distância de 115 km. Basta seguir pela Via Dutra (BR-116), entrar na RJ-127 em direção a Paracambi, passar por Engenheiro Paulo de Frontin e Mendes, até chegar a Vassouras.
Se preferir encarar o busão, há três saídas diárias, com duração média de 2h25min diretas entre o Terminal Rodoviário Novo Rio e a rodoviária de Vassouras. Os preços das passagens variam entre R$ 56,58 e R$ 73,67, dependendo do horário e do tipo de assento.


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