Se alguma vez na vida você já subiu a Estrada Rio-Petrópolis (BR-040) deve ter reparado em uma muralha com canhões que se destaca na paisagem. Mas antes que você bata no peito com orgulho pátrio da construção que provavelmente foi instalada ali para defender a Cidade Imperial, respire fundo. Na verdade, trata-se de um dos museus mais excêntricos e surpreendentes do Brasil: o Museu Histórico Ferreira da Cunha. Inspirado em fortalezas medievais portuguesas do século XII, sua história começa bem mais pertinho, no século XX e graças à paixão de um colecionador carioca.
Fundado em 1957, o museu nasceu da determinação de um médico e museólogo que, um dia, decidiu que a coleção de objetos históricos que ele começara a reunir na infância após ganhar uma herança do avô, merecia mais do que um museuzinho qualquer: merecia um castelo. O resultado disso é um acervo com mais de 3 000 itens históricos abrigados nessa construção de quase 15 000 m² em pedra e cantaria, tombada e reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
E esta história está prestes a ganhar um novo capítulo, com direito a menu degustação. O castelo que você via de relance vai virar um complexo cultural aberto ao público, com restaurante temático, café, loja e uma programação cultural que promete tirar a poeira medieval das pedras seculares (ou, melhor dizendo, das pedras dos anos 1950). A reabertura está marcada para o ano que vem, justamente quando o museu completa seus primeiros 70 anos de existência. Não é uma má recompensa para quem passou a vida inteira só olhando e imaginando o que afinal havia naquele castelo.

Qual é a história do Museu Histórico Ferreira da Cunha?
Tudo começou na infância de Sérgio Ferreira da Cunha, quando ele herdou do avô um lote de peças da Guerra do Paraguai e gostou da brincadeira. O menino virou um homem obcecado em preservar a história e transformou o quarto em um arsenal particular, acumulando relíquias até não caber mais um capacete na estante.
Em 1957, a coleção particular ganhou status de instituição pública. O Museu Histórico Ferreira da Cunha foi fundado oficialmente por Sérgio ao lado de oito amigos, a maioria artistas e intelectuais, como os pintores Edson Motta e Oswaldo Teixeira do Amaral, este último então diretor do Museu Nacional de Belas Artes. O objetivo era claro: abrigar dignamente um acervo que já não cabia em quatro paredes comuns.
Hoje, o museu reúne 27 coleções específicas, com mais de três mil itens históricos. São armaduras samurais da família imperial japonesa, um morrião espanhol do século XVI, capacetes e espadas da Imperial Guarda de Honra de D. Pedro I, além dos famosos canhões, obuseiros, mosquetões e até carros-cozinha usados na Primeira Guerra. Há também uma biblioteca com mais de quatro mil exemplares dos séculos XVIII e XIX.
Quem foi o médico e museólogo Sérgio Ferreira da Cunha?
Sérgio Ferreira da Cunha foi um carioca nascido em 1924 e falecido em 1990, cuja trajetória mistura medicina, museologia e uma boa dose de teimosia visionária. Descendente do Conde de Cunha, Sérgio formou-se médico, mas foi no colecionismo que encontrou sua verdadeira vocação.
Mais do que juntar quinquilharias, ele estudou museologia a fundo para dar tratamento técnico ao seu acervo. Em 1954, antes mesmo da fundação oficial do museu, parte de sua coleção já havia sido tombada pelo IPHAN, um feito raro para um acervo particular.
Sérgio não era apenas um guardador de coisas velhas. Ele idealizou seu castelo como um espaço museológico completo, com técnicas construtivas históricas e uma cenografia que transportasse o visitante para a Idade Média. Morreu em 1990, com as obras do castelo ainda em andamento e o sonho parcialmente realizado. Mas deixou instruções claras: o museu deveria continuar.

Quem veio primeiro, o museu ou o castelo?
Se você já subiu a Serra de Petrópolis pela BR-040 (Rodovia Washington Luiz), certamente já viu o castelo. Ele está ali, do lado esquerdo de quem sobe, pouco antes de chegar à cidade imperial, num ponto estratégico que mistura visibilidade e mistério.
A pedra fundamental do Castelo Ferreira da Cunha foi lançada em 1951, seis anos antes da fundação oficial do museu. A ideia era tão ambiciosa quanto o resultado final: construir uma réplica fiel de um castelo medieval português do século XII, em cantaria de pedra, com técnicas construtivas que resgatavam métodos romanos, medievais e até mesoamericanos.
O plano original previa 30 anos de obras, com inauguração marcada para 1987. Mas Sérgio Ferreira da Cunha era perfeccionista e, como todo bom visionário, ou qualquer um que já fez reforma em casa, subestimou o tempo necessário. As construções se estenderam gradualmente, avançando conforme os recursos permitiam, e só foram concluídas após sua morte, em 1990.
O resultado é uma fortaleza de respeito: mais de 15 mil metros quadrados de área construída, sobre um terreno de 60 mil metros quadrados. São cinco linhas sucessivas de defesa, muralhas de pedra, fosso, ponte levadiça, seteiras (aquelas frestas para atirar flechas), torres ameiadas e uma extensa rede de galerias subterrâneas com masmorra e adega. Tem até “prisão vitrine”, para o visitante sentir na pele (ou nos ossos) o drama de entrar em cana no período medieval.
É possível visitá-lo?
Sim, mas não é tão simples quanto bater na porta do castelo e pedir para entrar. Atualmente, o Museu Histórico Ferreira da Cunha não está aberto ao público em visitação livre como um museu tradicional.
Mas os interessados precisam enviar um e-mail para contato@mhfc.org.br ou ligar para (21) 97450-2089, informando a demanda e o eventual número de pessoas no grupo. O museu recebe visitantes apenas em horários agendados e trabalha com contribuição voluntária, já que a entrada não tem valor fixo. Ou seja: você pode visitar, mas precisa de planejamento e sorte para encontrar um horário disponível.
Porque aqui vem o plot twist, o espaço está em processo de reforma e reestruturação, com a proposta de transformá-lo em um complexo cultural mais abrangente, com restaurante temático e tudo, graças a uma parceria firmada em janeiro de 2026 com o Megadiverso Instituto Cultural.
Que instituição é essa?
O Megadiverso Instituto Cultural é uma organização dedicada à promoção de projetos que valorizam tanto o patrimônio cultural quanto o natural, com foco em educação, cultura e impacto social. Embora não seja uma instituição voltada especificamente a museus, seu trabalho envolve iniciativas que fortalecem a conexão entre arte, história, ciência e sociedade, criando pontes entre experiências culturais e públicos diversos.
No projeto com o Museu Histórico Ferreira da Cunha, o instituto atua na requalificação do espaço e na concepção de experiências que vão além da simples visitação, incluindo serviços temáticos, restaurantes, café, lojas e programação cultural permanente.
A ideia, segundo os envolvidos, é ampliar o tempo de permanência do visitante e integrar o patrimônio histórico a experiências culturais contemporâneas. Ou seja, você poderá admirar uma armadura samurai do século XVII e, em seguida, tomar um café na masmorra (se até lá a masmorra for adaptada mesmo para isso, claro).

O museu ficará fechado por quanto tempo?
A menos que você tenha um bom argumento para acessar o acervo e ainda der sorte de achar um buraco na agenda, o castelo passará por um período de obras e adaptações, permanecendo fechado até a reabertura oficial, programada para 2027.
Até lá, o trabalho será intenso nos bastidores. Equipes de curadoria, arquitetura e museologia estão mergulhadas na tarefa de repensar cada espaço da fortaleza. A ideia é que, quando as portas se abrirem, o visitante encontre não apenas um museu, mas um ponto de encontro; capaz de sediar feiras, ativações culturais, apresentações musicais e eventos privados, sem perder a alma histórica que Sérgio Ferreira da Cunha tanto prezava.


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