Tudo começou em 1803, quando Dom Fernando José de Portugal e Castro, o 14º vice-rei do Brasil, resolveu mandar um padre destemido erguer uma capela no meio de uma aldeia indígena, no coração do Vale do Café. O plano parecia receita para confusão, mas o padre Manoel Gomes Leal acabou conquistando os coroados e, de brinde, fundando o embrião da futura cidade.
O destino, que tem um senso de humor particular, fez o vilarejo crescer, virar paróquia e depois cidade. Mas, em vez de homenagear o padre que arriscou o pescoço, deram o nome do lugar ao vice-rei, em alusão à cidade espanhola de Valência, de onde vinham seus antepassados. Assim nasceu Valença, oficialmente em 1823, onde o aroma dos grãos de café se misturava ao tilintar das finas xícaras de porcelana da aristocracia rural do Império.
Hoje, Valença é um mosaico de histórias: tem catedral de vitrais coloridos, jardins franceses assinados por um paisagista imperial, fazendas que parecem cenários de novelas, museu de quem nunca veio e uma rota de queijos que faz qualquer turista esquecer a dieta.
Mas não é só de passado que vive Valença. A cidade também respira cultura e natureza. E se você subir até o Mirante da Serra dos Mascates, vai entender por que eles paravam por ali: não era cansaço, era contemplação.

História
No início do século XIX, a região hoje conhecida como o Vale do Café era constantemente conturbada por conflitos entre colonos e indígenas nativos da etnia Coroado.
Até que em 1803, Dom Fernando José de Portugal e Castro, 14º vice-rei do Brasil, pôs o padre Manoel Gomes Leal em o que parecia ser uma tremenda roubada. Determinou que ele erguesse uma capela bem no meio da aldeia dos Coroados, dedicada a N.S. da Glória.
Mas em vez de virar almoço, o padre Manoel fez boas relações com os Coroados. Com o tempo, a capela foi ampliada e transformada na atual catedral. E ao seu redor surgiu a aldeia de Nossa Senhora da Glória.
A ironia da história é que o nome da cidade acabou homenageando não o corajoso padre Manoel, mas sim, nosso vice-rei. Dom Fernando era descendente de nobres espanhóis da cidade de Valência, o que inspirou o nome do município.
Valença nasceu oficialmente em 29 de setembro de 1823, e se desenvolveu no Vale do Café, sendo uma das protagonistas do ciclo cafeeiro no século XIX.
E hoje como é hoje essa catedral?
Bom, sua construção foi literalmente uma obra de igreja, que começou em 1803 e só foi terminar em 1917, após diversas reformas e ampliações. Em 2004 foi toda reformada.
Hoje, ela é um monumento de estilo eclético com elementos neogóticos e neoclássicos, marcada por torres imponentes, vitrais coloridos e altares dourados que refletem o esplendor do ciclo do café.
A catedral abriga uma rica coleção de arte sacra, com destaque para os altares laterais e o altar-mor, todos com douramento em estilo barroco, restaurados em 2004 após décadas de desgaste.
Seus afrescos originais foram preservados, revelando cenas bíblicas e motivos florais que adornam a nave central e a abóbada. Os vitrais coloridos filtram a luz natural, criando um ambiente de contemplação e espiritualidade. Cada vitral representa um santo ou episódio religioso, com traços delicados e cores vibrantes.

Os jardins da cidade foram mesmo projetados por Auguste Glaziou?
Sim, tanto o Jardim de Cima como o Jardim de Baixo, foram projetados por nada menos que por Auguste Glaziou, o mesmo paisagista responsável pelos jardins da Quinta da Boa Vista, pelo Passeio Público e pelo Campo de Santana, no Rio de Janeiro. #chique
Auguste François Marie Glaziou foi um botânico e paisagista francês que chegou ao Brasil em 1858, a convite de D. Pedro II. Glaziou coletou milhares de espécies da flora brasileira, contribuindo para o acervo do Museu Nacional (RIP) e do Muséum d’Histoire Naturelle de Paris. Seu legado para o Brasil é tanto científico quanto estético.
Com estilo inglês, os jardins abrigam espécies centenárias como figueiras e palmeiras, além de monumentos históricos de personalidades regionais.

Quantas fazendas históricas em Valença estão abertas à visitação?
Valença possui pelo menos dez fazendas históricas abertas à visitação. Entre elas, destaca-se a Fazenda Vista Alegre, que foi pioneira na alfabetização de filhos de escravizados e crianças pobres.
Essas fazendas oferecem experiências que vão além do turismo: contam histórias do Brasil Império, exibem arquitetura preservada e promovem eventos culturais. Algumas foram cenários de novelas e filmes.
Quem foi Lea Pentagna?
Lea Josephina Pentagna foi uma figura importante na história cultural de Valença. Descendente de imigrantes italianos, ela transformou sua residência em um centro de cultura e pediu, em testamento, para ser enterrada no jardim da casa.
A Casa Museu Léa Pentagna foi reinaugurada em 2000 e hoje abriga a Fundação Cultural e Filantrópica que leva seu nome. O espaço guarda objetos pessoais, livros, móveis e documentos da família Pentagna, além de itens que retratam a colonização italiana em Valença.
O espaço também oferece cursos de bordado, macramê e ponto cruz, além de visitas guiadas. É um centro de cultura viva, que conecta passado e presente com elegância e propósito.
Por que tem um Museu dedicado a Vicente Celestino?
O Museu Vicente Celestino e Gilda de Abreu foi criado em 1999, embora não haja registro de que algum dia os artistas tenham pisado na cidade. E daí para preciosismos, não é mesmo? O museu celebra a memória da música romântica brasileira.
Seu acervo inclui fotos, discos, figurinos e documentos de Vicente Celestino, Gilda de Abreu e outros artistas como Emilinha Borba e Cauby Peixoto. É uma homenagem à seresta e à boemia nacional.
Não vendo nem a vista
Valença tem dois mirantes para quem quiser ver de cima toda a beleza do lugar.
O Mirante do Cruzeiro Monsenhor Natanael de Veras Alcântara foi inaugurado em 1953, em comemoração aos 150 anos da primeira missa em Valença. No local existe uma cruz de concreto medindo 11,20 m de altura por 5 m de largura.
Já o Mirante da Serra dos Mascates está situado na Serra dos Mascates, a uma altitude de 432 m, de onde se avista “um verdadeiro mar de morros”. A subida até aqui é mais longa, mas recompensa com panorama amplo e sensação de estar no topo do mundo.

Cachoeira do Pentagna
No distrito de Pentagna, o Rio Bonito desce por entre pedras formando corredeiras ruidosas que, aproximadamente 30 metros abaixo, formam um remanso onde se pode chegar por uma trilha, beirando o rio.
A recompensa é uma queda d’água acessível, com águas límpidas, pedras e cercada por vegetação serrana, sendo um dos pontos mais visitados da região.
O que é a Rota do Queijo de Valença?
A Rota do Queijo de Valença é uma experiência turística criada em 2022 por David Nogueira, reunindo cinco produtores rurais premiados que trabalham com leite de vaca, cabra e búfala. O passeio acontece uma vez por mês e dura o dia inteiro, com visitas às fazendas, degustações e almoço mineiro feito em fogão à lenha.
Localizada no coração do Vale do Café, a rota valoriza a tradição queijeira da região, que é uma das maiores bacias leiteiras do estado. O passeio termina no Empório Rural, loja de produtos regionais na entrada da cidade. É uma forma saborosa de conhecer a cultura rural fluminense e apoiar a produção artesanal.

Melhor época para visitar
Em Valença, os meses de verão costumam ser os mais chuvosos. Entre dezembro e março, as temperaturas ficam quentes e o clima abafado, e é comum ter uma chuvinha no fim de tarde.
Os meses que menos chovem são os do meio do ano. De abril a setembro, as temperaturas ficam mais aconchegantes, com céu mais claro e menos risco de chuva.
Como chegar?
Partindo da Guanabara, Valença fica a aproximadamente 160 km, o que dá uma viagem de duas horas e meia a três horas. Há saídas diárias da Rodoviária do Rio com tarifas a partir dos R$ 74.


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