Em um país onde cada cidade insiste em ostentar um título marqueteiro estilo “capital do café”, “terra da cachaça” ou “berço da batata”, Mendes, no interior do Rio de Janeiro, resolveu fazer diferente: adotou um posto que exige mais que lavoura e clima, exige cadência. Desde 2004, ela se apresenta ao Brasil como a Cidade do Choro e do Samba. Não que outras não tentem o mesmo, mas poucas conseguem sustentar um título com mais de mil apresentações na praça central, todas embaladas pelo som de bandolins, cavaquinhos e tamborins.
Só que aqui, o marketing não é apenas um monte de placas na estrada até a cidade. É um projeto musical que se tornou rotina — e, convenhamos, manter um evento semanal por duas décadas, longe demais das capitais, é quase um feito olímpico.
Criado em 2004, o “Samba e Choro na Praça” ocupa, todos os domingos, a Praça Dr. João Neri. Desde então só não foi realizado no auge da pandemia da covid, por óbvio, e mesmo assim em alguns domingos houve quem promovesse lives no isolamento de suas casas.
Para quem acha que “cultura popular” é sinônimo de improviso e ocasionalidade, Mendes responde com a constância de um metrônomo: divulgando o choro e o samba e promovendo artistas de todo o estado, servindo como estímulo para os novos talentos. Se o título é oficial? Não. Mas quem precisa de decreto quando o som ecoa mais que qualquer burocracia?
Entre um solo de bandolim e outro, Mendes construiu uma reputação que atravessou o Vale do Café e estacionou direto no imaginário popular. Uma cidade onde a trilha sonora nunca acaba, e onde o trânsito, por incrível que pareça, não rouba a cena.

Quando Mendes ganhou o título de Cidade do Choro e do Samba e por quê?
O poético epíteto nasceu informalmente a partir do projeto “Samba e Choro na Praça”, iniciado em 2004. Ao longo dos anos, o evento se consolidou como marca identitária e atrativo turístico, a ponto de a cidade ser promovida em guias e sites institucionais como “a Cidade do Choro e do Samba”.
Não foi por votação, nem lei municipal: começou no boca a boca, de músico para turista, de turista para jornalista, e de jornalista para o Google. Hoje, até o Instituto Preservale, dedicado à preservação e desenvolvimento do Vale do Café, e a própria prefeitura da cidade, passaram a tratar Mendes assim.

Onde fica Mendes?
Mendes está cravada no Vale do Café, região centro-sul fluminense, a cerca de 100 quilômetros da Guanabara, cercada por morros verdes, a 460 metros de altitude. Para os cariocas e simpatizantes, é um oásis: você troca buzina por pandeiro, fumaça pela brisa, e os sons mais altos que vai ouvir vem da cuíca, de um pandeiro e um violão.
O que mais tem para fazer na cidade?
Além do Samba e Choro na Praça, Mendes aposta em eventos sazonais como o Festival Café, Cachaça e Chorinho, porque aqui música boa vem acompanhada de copo cheio. Muitas fazendas históricas do ciclo do café também estão por lá, abertas para visitação. E, para quem prefere verde, as trilhas ecológicas oferecem o tipo de silêncio que só é interrompido por passarinhos — ou por algum distraído treinando cavaquinho.
História da cidade
Mendes nasceu de um simples rancho de tropeiros à beira de um atalho chamado Caminho Novo do Tinguá. Batizada de Arraial dos Mendes em 1847, três anos depois já era um polo relevante na produção de café. E assim o progresso chegou na velocidade da primeira locomotiva a aparecer por lá, em 1860. E como toda cidade que vira moda, recebeu indústrias — de papel, cervejaria, de fósforos, frigoríficos —, e até luz elétrica já em 1912, porque nada simbolizava tanto “progresso” como iluminar o coreto da pracinha.
Mas como todo mundo sabe, a monocultura cafeeira tem prazo de validade. Mendes deu um show argentino de economia decrescente antes de aprender a diversificar. Sobrou caneca de café e poeira na estação ferroviária.
Ainda assim o município, em 1952, sua tão sonhada emancipação política. Hoje, viver lá é apreciar tempo bom, aquelas casinhas antigas e uma aura meio adormecida, que resiste com mais dignidade e menos hype que outras capitais infladas pelo marketing vazio.
Como chegar?
De carro, basta pegar a BR-116 (Rodovia Presidente Dutra) até Barra do Piraí e seguir pela RJ-127. Para quem prefere transporte coletivo, há ônibus diretos do Rio de Janeiro, saindo da Rodoviária Novo Rio, com passagens em torno dos R$ 50.


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