O líder vietnamita Ho Chi Minh inscreveu na marra seu nome no livro dos grandes líderes políticos do século XX. O que muita gente não sabia, porém, é que sua trajetória teve temperos cariocas, no início da década de 1910, quando ele foi largado no porto do Rio de Janeiro, adoentado, e mais morto do que vivo. Nos três meses seguintes ele se curou, morou no centro, batalhou em restaurantes e botequins da vida até conseguir seguir viagem novamente até sua terra natal.
Quando Ho nasceu em 1890 sob o nome de batismo Nguyen Sinh Cung, o Vietnã simplesmente não existia no mapa-múndi. A região era conhecida como “Indochina”: um curioso e genérico termo ocidental para designar tudo que estava “entre a Índia e a China”, ou seja, os atuais Laos, Camboja e Vietnã, à época colonizados pelos franceses.
Com menos de 20 anos, Nguyen – que só mais tarde passaria a ser conhecido como Ho Chi Minh ou “aquele que ilumina” – foi exilado pelos franceses para Marselha, de onde escapuliu e iniciou um périplo por países africanos como Senegal, Camarões e Congo, trabalhando como ajudante de cozinha. De la embarcou para Montevideo, no Uruguai, e é quando começa sua aventura guanabarina.
Durante a viagem, ele foi acometido de uma doença que nunca se soube qual era. Mas seu estado físico era tão deplorável que o comandante do navio, com medo que ele morresse a bordo, o obrigou a desembarcar no Rio de Janeiro para se tratar. Como Nguyen era um funcionário muito elogiado, garantiram a ele que teria emprego em outro navio da mesma companhia que passasse pelo Rio após ele estar curado.
Nguyen, ou o Ho, alugou um quarto em Santa Tereza. E depois de curado passou a trabalhar como garçom ou ajudante de cozinha nos bares e restaurantes da Lapa. Todo santo dia, ele ia ao porto ver se aparecia um navio de sua companhia, e foi lá que conheceu o líder sindical José Leandro da Silva, um cozinheiro preto que tinha grande influência política sobre a marujada.
E foi justamente graças a forte impressão que José Leandro causou em Nguyen, (ou o Ho) que ficamos sabendo de sua passagem carioca. Em 1924, o vietnamita publicou um artigo chamado “Solidariedade Internacional”, onde ele conta a história do marinheiro e suas impressões sobre o país e a cidade que conheceu.
Recuperado pelo historiador Rafael Galante, o artigo mostra um Nguyen (ou o Ho) impressionado pelas belezas naturais do Rio, sua vida boêmia, porém assustado com o cenário de degradação social e efervescência trabalhista, onde uma espécie de capitalismo periférico se cruzava com um passado escravagista bastante recente e o socialismo adentrava aos portos junto com as novidades, inspirando um pujante movimento sindical.
Mas embora instigante, a passagem dele pelo Rio foi breve. Após três meses, ele entrou de novo em um navio e, de bico em bico, rodou por Boston, Nova Iorque até chegar a Paris, onde adere ao movimento comunista internacional e de lá começa sua trajetória de retorno ao Vietnam e de luta de independência do país.
Ho Chi Minh liderou uma longa e bem-sucedida campanha pela independência do Vietnã . Ele foi presidente do Vietnã do Norte de 1945 a 1969 e um dos líderescomunistas mais influentes do século XX. Seu papel fundamental se reflete no fato de a maior cidade do Vietnã ter seu nome.





