Congresso e governo Lula discutem ‘emenda panetone’ extra de R$ 3 milhões

Parlamentares negociam verba adicional de fim de ano com o governo, enquanto Planalto nega tratativas

O Congresso Nacional, mesmo controlando um volume recorde de cerca de R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, começou a negociar com o governo uma verba adicional de fim de ano. Chamado por congressistas de “emenda panetone”, o bônus seria destinado aos integrantes da Comissão Mista de Orçamento (CMO).

Tradição informal prevê valores maiores para relatores

Segundo parlamentares, a prática ocorre anualmente como uma “tradição não escrita”. Os valores em discussão chegam a R$ 3 milhões para cada membro da CMO e R$ 5 milhões para os relatores setoriais. O montante final e a origem do recurso, porém, seguem indefinidos.

O governo quer que a verba seja retirada das emendas de comissão — teoricamente vinculadas a decisões de comissões temáticas, mas tratadas na prática como moeda de negociação entre Executivo e Legislativo. Já integrantes da CMO defendem que o repasse venha da rubrica RP2, controlada pelo governo, o que ampliaria a dificuldade de rastrear as indicações.

Governo nega negociações; PT está entre os que confirmam

A Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, chefiada por Gleisi Hoffmann, divulgou nota negando a existência da negociação. Ainda assim, oito parlamentares ouvidos de forma reservada — quatro deles do PT — confirmaram que as conversas existem.

Após a publicação do tema, o governo reforçou a negativa e declarou que não negocia verbas “nos termos descritos”.

Volume de emendas dispara e mantém pressão sobre o Orçamento

A Comissão Mista de Orçamento é formada por 30 deputados e 10 senadores titulares. Ela analisa anualmente a LDO e a LOA, ainda em tramitação. Para 2025, estão reservados R$ 50,3 bilhões para emendas parlamentares, dos quais R$ 32,23 bilhões já foram empenhados e R$ 21,9 bilhões pagos.

Do total, R$ 38,8 bilhões são de emendas impositivas. Outros R$ 11,5 bilhões vêm das comissões temáticas, área considerada mais vulnerável a cortes ou manobras do Executivo.

A explosão das emendas começou em 2020, quando saltaram de R$ 18,2 bilhões para R$ 50 bilhões em apenas um ano, reduzindo a autonomia dos ministérios — hoje dependentes do Congresso para até 70% de seus recursos de custeio e investimento.

Verbas informais ampliam brechas fora do controle do STF

Mesmo com tamanha fatia sob controle legislativo, parlamentares relatam que o governo segue oferecendo recursos extras fora da categoria “emenda”, o que escapa a controles exigidos pelo STF. Na Saúde, por exemplo, repasses próximos de R$ 5 bilhões são tratados nos bastidores como emendas informais. O governo nega que sirvam como negociação política, embora parlamentares frequentemente os apresentem como indicação própria.

Comissão já foi palco de escândalo histórico

A CMO ganhou projeção negativa nos anos 1990, quando o “escândalo dos anões do Orçamento” revelou esquema de propina envolvendo prefeitos, empresas e parlamentares para direcionar emendas. O episódio levou à abertura de CPI e cassações.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading