Comunicação confusa do BC após Copom faz mercado reagir com desconfiança ao corte da Selic

Justificativa do Banco Central para reduzir a taxa de juros gera críticas de economistas e amplia dúvidas sobre o compromisso com a meta de inflação

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros para 14,25% ao ano provocou forte reação no mercado financeiro e abriu um debate sobre a condução da política monetária brasileira, informa a Folha de S. Paulo. Embora o corte de 0,25 ponto percentual já fosse amplamente esperado por investidores e analistas, a justificativa apresentada pelo Banco Central para continuar o ciclo de flexibilização dos juros gerou questionamentos e aumentou a percepção de incerteza entre agentes econômicos.

No dia seguinte ao anúncio, os reflexos foram imediatos. O dólar avançou 1,26% e encerrou o pregão cotado a R$ 5,174. Ao mesmo tempo, as taxas dos contratos de juros futuros registraram forte alta nos vencimentos de médio e longo prazo, sinalizando que o mercado passou a exigir prêmios maiores para emprestar recursos ao governo e financiar investimentos de longo prazo.

A Bolsa de Valores também operou sob volatilidade e terminou o dia em leve queda de 0,1%, aos 168.277 pontos.

Críticas à comunicação do Banco Central

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo apontam que o principal problema não foi o corte da Selic em si, mas a forma como o Banco Central justificou a decisão.

No comunicado divulgado após a reunião, o Copom argumentou que manter os juros em um nível capaz de levar a inflação para a meta ao fim de 2027 poderia fazer com que os preços caíssem para um patamar inferior ao objetivo estabelecido no primeiro trimestre de 2028. No entanto, a autoridade monetária não detalhou quais seriam esses números nem explicou de forma aprofundada os cálculos utilizados.

Para Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do Banco Central, existe uma inconsistência entre a avaliação do cenário e a medida adotada.

“Há uma dissonância forte entre o diagnóstico do Copom e o remédio aplicado”, diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do BC.

Segundo ele, o próprio Banco Central reconhece riscos importantes para a inflação, mas decidiu seguir reduzindo os juros.

“O diagnóstico está correto: há um choque inflacionário sério decorrente da crise do petróleo, com outros riscos à frente [como o El Niño], e de uma economia superaquecida que se traduz na elevação da inflação no horizonte relevante. Mas a resposta foi inadequada, com uma justificativa frágil em várias dimensões.”

Schwartsman também questiona a argumentação utilizada pelo comitê para justificar o corte.

“Inflação cair abaixo da meta não é coisa de outro mundo. Faz parte da operação normal do regime de metas: ela ora fica abaixo, ora fica acima, mas flutua ao redor dos 3%. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que é difícil acreditar que a inflação ficaria abaixo da meta no primeiro trimestre de 2028, se, ao fim de 2027, o BC projeta 3,7%. É um espaço de tempo muito curto para cair tanto assim”, diz Schwartsman.

Juros futuros sobem e mercado cobra mais prêmio

A reação mais intensa foi observada na curva de juros futuros. Enquanto os contratos com vencimentos mais próximos registraram queda, refletindo a redução da Selic, os papéis de prazo mais longo apresentaram forte elevação.

Na avaliação de analistas, o movimento revela preocupação com a possibilidade de a inflação permanecer elevada por mais tempo.

“Juros mais baixos hoje, com a inflação desancorada, exigem juros ainda mais altos no futuro”, afirma Lais Costa, especialista em renda fixa da Empiricus.

Os números ilustram essa percepção. A taxa dos contratos para janeiro de 2029 avançou para 14,77%, alta de 0,24 ponto percentual em relação ao fechamento anterior. Já os contratos para janeiro de 2035 subiram para 14,52%, um avanço de 0,25 ponto percentual.

Mudança no horizonte inflacionário gera controvérsia

Outro ponto que despertou críticas foi a decisão do Banco Central de considerar o primeiro trimestre de 2028 como horizonte relevante para suas projeções.

Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, a medida foi adotada para acomodar a decisão já tomada pelo Copom.

“O horizonte não foi estendido por razões técnicas. Foi estendido para que a projeção coubesse na decisão que o Comitê já havia, implicitamente, tomado”, escreveu ela em artigo para a Folha nesta quinta-feira (18).

A economista argumenta que ampliar o prazo reduz a pressão para que a inflação converja rapidamente para a meta.

“Quanto mais distante o ponto de chegada, menor a disciplina que o regime de metas impõe sobre as decisões correntes, maior a margem para acomodar desvios e mais frágil se torna o compromisso com a convergência”, afirma.

Impactos podem chegar ao crédito e aos preços

Os efeitos da desancoragem das expectativas de inflação vão além do mercado financeiro. Economistas alertam que empresas utilizam projeções inflacionárias para definir reajustes de preços e estratégias de investimento.

Segundo Benito Salomão, professor da Universidade Federal de Uberlândia, a credibilidade da meta de inflação é um dos pilares para o funcionamento da política monetária.

“Elas podem escolher essa projeção baseada na meta do BC ou na inflação corrente. Se o próprio BC diz que a convergência só vai ocorrer à frente do prazo relevante, a firma não tem por que reajustar seus preços com base na meta. A razão de existência da meta é que as pessoas acreditem nela e reajustem seus preços baseados nela.”

Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, destaca que os financiamentos de longo prazo são influenciados principalmente pelas taxas futuras, e não pela Selic vigente.

“Financiamentos para grandes empresas, crédito imobiliário e linhas de investimento estruturadas são precificados com base na curva de juros futuros, e não na Selic de hoje. Se a instabilidade na comunicação do Copom faz com que as taxas de mercado de longo prazo subam, o custo final do crédito para quem investe ou consome na ponta pode encarecer, ou, no mínimo, parar de cair”, afirma.

Mercado aguarda esclarecimentos na ata

Com os diretores do Banco Central em período de silêncio institucional após a reunião, investidores aguardam agora a divulgação da ata do Copom, prevista para a próxima terça-feira.

A expectativa é que o documento apresente explicações mais detalhadas sobre os fundamentos da decisão e os próximos passos da política monetária.

Antes da reunião, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia comentado as interpretações frequentemente feitas pelo mercado após os comunicados da autoridade monetária.

“Existem grandes campeonatos de interpretação de texto a cada decisão do Copom, que envolvem entender se uma vírgula mudou de lugar, alguma coisa nesse sentido”.

Para Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, a credibilidade de um banco central não é construída ou destruída em um único episódio, mas a clareza da comunicação é fundamental para preservar a confiança dos agentes econômicos.

A expectativa é que a ata esclareça se o Copom pretende manter o ciclo de cortes, interrompê-lo temporariamente ou até mesmo considerar uma nova alta dos juros caso a inflação continue pressionada.

“O mercado quer ver se o Copom vai reforçar o compromisso em cumprir a meta e condicionar os próximos passos ao ritmo inflacionário, assumindo até uma possibilidade de manutenção ou mesmo de alta da Selic”, afirma.

“Se o Copom se mantiver ambíguo e sem direção, vamos ver mais prêmios de riscos nos juros e até nas NTN-Bs [títulos públicos ancorados na inflação, com ganho real]”.

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