Valter Junior
Em 2019, o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. Sete anos depois, atravessando mudanças profundas nas políticas de incentivo à cultura e no próprio ambiente democrático do país, o Brasil ocupa um lugar de destaque no cenário internacional: pelo segundo ano consecutivo, um filme nacional figura entre os indicados ao Oscar.
Tais feitos ganham ainda mais relevância quando observados em sequência. Ainda estou aqui consolidou-se como um marco recente do cinema nacional ao atravessar fronteiras e premiações. Na 82ª edição do Globo de Ouro, o filme recebeu duas indicações, e Fernanda Torres saiu vencedora da categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama, tornando-se a primeira brasileira a conquistar um Globo de Ouro em uma categoria de atuação.
Já no Oscar 2025, a obra alcançou três indicações: Melhor Atriz, Melhor Filme — sendo o primeiro filme brasileiro a concorrer nessa categoria — e Melhor Filme Internacional, prêmio que venceu, garantindo ao Brasil seu primeiro Oscar da história.
De forma original, porém igualmente expressiva, O agente secreto dá continuidade a esse momento de projeção internacional. Indicado a quatro categorias no Oscar — Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Elenco e Melhor Filme Internacional — o longa reafirma a força criativa do cinema brasileiro contemporâneo.
A produção já acumula mais de 50 reconhecimentos ao redor do mundo, menções honrosas e seleções oficiais em festivais, incluindo as vitórias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama na edição deste ano do Globo de Ouro.

Para além do reconhecimento internacional e da afirmação da brasilidade, Ainda estou aqui e O agente secreto compartilham um eixo comum que atravessa suas narrativas: o anseio por justiça e o desejo pela democracia. Em ambos, a política não surge somente como pano de fundo, mas como força ativa, capaz de moldar destinos individuais e expor feridas coletivas.
São histórias que revisitaram o passado para iluminar o presente, tratando a democracia não como um conceito abstrato, mas como uma experiência frágil, constantemente tensionada por silêncios, apagamentos de memórias e disputas de poder.
Para Wagner Moura, que interpreta o protagonista Marcelo em O agente secreto, essa relação entre cinema e política está longe de ser uma novidade. “O cinema brasileiro nasce tentando entender que país é esse. Mais do que em outros lugares, essa é uma característica muito forte do Brasil”, disse o ator em um publicação na web. Embora ambientado no passado, o longa dialoga o tempo todo com o presente — seja por meio de referências diretas, seja pela leitura dos padrões de poder que continuam a atravessar a história recente do país.
Essa preocupação com a memória também é central na visão do diretor Kleber Mendonça Filho. “O Brasil é um país que tem algumas questões com memória, que tende a esquecer de muita coisa, e eu acho que o cinema é um instrumento muito bom [para o resgate] porque ele prende a sua atenção, te diverte, te mantém entretido, mas também pode ter uma carga de informação de verdade sobre o lugar em que a gente mora”, afirmou o cineasta em entrevista coletiva ao lado do elenco.

Moura reforça que esse processo de autorreflexão é essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade. “O país precisa se olhar, precisa se ver na sua cultura. Nenhum país se desenvolve sem se ver. Quando a gente vai para fora e as pessoas também veem a gente, é um plus”, destaca. Para o ator, essa responsabilidade não recai apenas sobre o cinema: “(…) o jornalismo, a universidade… a sociedade como um todo tem a obrigação de preservar a nossa memória para que nos entendamos, para que nos vejamos”.
Assim como o recente Ainda estou aqui, de Walter Salles, O agente secreto revisita um período histórico a partir das dores e das vivências humanas, evitando a exposição direta das tensões partidárias, das guerrilhas ou dos porões da ditadura. Ao escolher esse caminho, o filme reforça uma dimensão essencial da memória: a de que os grandes traumas nacionais se manifestam, sobretudo, na vida cotidiana.
Essa abordagem também funciona como alerta. A história recente mostra que o Brasil já vacilou ao anistiar torturadores em 1979 e ao permitir que a transição democrática de 1985 sepultasse apenas parcialmente os escombros do regime autoritário. Diante de novas ameaças à democracia e à cultura, o cinema de Kleber Mendonça Filho não fala apenas pelo tema que retrata, mas pelo conjunto de uma obra sistematicamente dedicada à preservação da memória.

Ao transformar o passado em experiência sensível, o filme sugere que a reconciliação do país com sua própria história é condição indispensável para que tragédias não se repitam. Nesse sentido, mais do que uma candidatura a prêmios, O agente secreto reafirma o lugar do Brasil no debate global — e o representa, no Oscar, não apenas pela excelência artística, mas pela urgência de seu discurso.






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