A Polícia Federal investigou ao menos três episódios de repercussão envolvendo parlamentares do Rio e o crime organizado nos últimos anos. O mais notório foi o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mortos a tiros em março de 2018 na região central da capital fluminense.
Os outros dois casos estão relacionados aos deputados estaduais Lúcia Helena Pinto de Barros, a Lucinha (PSD), e Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. Segundo investigações, Lucinha teria envolvimento com a milícia. Já TH Joias foi preso há dois meses por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho (CV).
Essas três investigações vieram à tona em meio à repercussão política da megaoperação policial que matou 121 pessoas no Complexo do Alemão e Penha há duas semanas, apontada como uma das mais letais do mundo. No dia 5 deste mês, Leandro Almada da Costa, delegado da PF, se referiu aos episódios como “casos emblemáticos” em relato dado à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Senado, em Brasília.
“A principal questão das facções criminosas é a efetiva capacidade de infiltração de agentes na estrutura do Estado, na estrutura parlamentar, na estrutura policial e do Executivo. Isso não é de hoje no Rio, vem de décadas”.
Leandro Almada da Costa

O delegado também comentou o assassinato de Marielle e de Anderson, que só foram esclarecidos seis anos depois, com a prisão dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do assassinato. “[O assassinato ocorreu] com comando e liderança política em uma área de milícia”, disse o delegado.
Domingos já foi vereador, deputado estadual e atuava como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) quando foi preso. Já Chiquinho era deputado federal. Além deles, a PF também prendeu o delegado Rivaldo Barbosa, acusado de ajudar a planejar o crime e a atrapalhar as investigações. Os investigados negam participação na morte de Marielle.
A ‘madrinha da milícia’
O delegado Leandro Almada da Costa também comentou as investigações envolvendo a deputada Lucinha, denunciada em junho deste ano pelo Ministério Público por suspeita de integrar o núcleo político da milícia chefiada por Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, da Zona Oeste do Rio.

“Ela é conhecida como madrinha da milícia. A atuação parlamentar dela era voltada para os interesses econômicos da maior milícia da Zona Oeste do Rio de Janeiro”, disse o delegado.
Além dela, a Promotoria também denunciou Ariane Afonso Lima, sua assessora. Segundo as investigações, elas eram responsáveis por defender os interesses da milícia junto ao poder público.
“Em múltiplos episódios, constata-se a clara interferência das denunciadas na esfera política, junto a autoridades policiais e políticas, ora para favorecer os interesses da organização criminosa, ora para blindá-las das iniciativas estatais de combate ao grupo e ora para livrá-los de ações policiais, garantindo a impunidade dos seus integrantes”.
Trecho da denúncia do MP
A denúncia diz que, em julho de 2021, a deputada Lucinha e sua assessora forneceram ao grupo paramilitar informações privilegiadas sobre a agenda do prefeito Eduardo Paes, “permitindo que eles retirassem seus integrantes das ruas”.
O MP citou, ainda, o que entende ter sido uma tentativa de interferência junto ao prefeito para que fosse mantido o transporte público alternativo municipal, maior fonte de obtenção direta de recursos da milícia. “Desta forma, o grupo poderia explorar o serviço fora do itinerário determinado, aumentando a arrecadação das vans”, diz a denúncia.

As investigações também demonstraram que, entre junho de 2021 e março de 2022, as denunciadas mantiveram encontros frequentes com as principais lideranças do grupo miliciano. Entre eles, o próprio Zinho, em uma média de dois encontros mensais “para estabelecer as linhas da interferência que seriam exercidas junto à Alerj”. Além disso, a denúncia também relata que Lucinha nomeou como assessores em seu gabinete, entre 2021 e 2023, integrantes e parentes de integrantes da milícia da Zona Oeste do Rio.
A Agenda do Poder entrou em contato com o gabinete da deputada e com o advogado que a representa, mas não obteve respostas.
TH Joias movimentou mais de R$ 13 milhões, diz PF
O então deputado estadual TH Joias foi preso há dois meses em uma operação conjunta da PF, Polícia Civil e Ministério Público, que revelou a ligação do parlamentar com o CV em atividades criminosas que incluíam tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro.

TH Joias teria atuado também na cooptação de policiais corruptos para obter informações privilegiadas sobre operações policiais.
Além disso, sua rede ilícita movimentou mais de R$ 13 milhões entre 2021 e 2023, utilizando empresas de fachada para mascarar transferências financeiras.
Ele foi alvo de duas operações policiais e permanece preso no Complexo de Bangu. Após sua prisão, foi expulso do MDB e perdeu o mandato. Sua esposa, Jessica de Oliveira Lima, também é mencionada nas investigações como responsável pelo controle das contas com grandes movimentações financeiras.

Entre os foragidos da operação que resultou na sua prisão está Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, apontado como o líder do CV nas ruas.
Segundo o MP, TH Joias utilizou uma franquia de uma loja de produtos do Flamengo para lavar dinheiro do tráfico de drogas. De acordo com a Promotoria, ele adquiriu a loja em Campo Grande (MS).
Em fotos obtidas pela investigação, TH aparece deitado em uma cama coberta por R$ 5 milhões em dinheiro vivo, segundo a PF. O montante era do traficante Gabriel Dias Oliveira, o Índio, de acordo com as investigações.


Deixe um comentário