Convenhamos que o universo tem um certo senso de humor.  Enquanto tentamos entender as tarifas do Trump, ou a última patetada da extrema direita, surge logo um visitante inesperado batizado 3i/Atlas tentando roubar nossa atenção.

Trata-se de um cometa vindo de outra estrela, atravessando o Sistema Solar a velocidades que fariam inveja a qualquer Concorde. E isso não é só hype de maluco: é o terceiro objeto interestelar, ou seja,  vindo de fora do Sistema Solar, já confirmado, depois do Oumuamua (2017) e do  2I/Borisov (2019).

A Nasa e telescópios mundo afora já puseram os olhos nele. O Hubble registrou a melhor imagem até agora e apertou as estimativas de tamanho do núcleo: algo entre uns 300 metros ou 5,6 km, o que em escala cósmica é como a diferença de um pequeno caminhão para um bairro inteiro.

A dinâmica orbital confirma: a trajetória é hiperbolicamente aberta. Traduzindo  para o bom português, ele veio, vai dar um volta no Sol em 29 de outubro e vai depois vai sair pra comprar uma Coca-Cola com uma garrafa de Fanta.

Mas não adianta a Nasa espernear, porque a comunidade ufóloga não desiste nunca. E logo surgiu um cientista com a teoria de que o 3i/Atlas seria, na verdade, uma nave extraterreste. Por acaso, exatamente o mesmo astrofísico que afirmou em 2017 que o Oumuamua seria na verdade um planeta chamado Nibiru. Alguma hora talvez ele acerte.

Portanto, você não precisa sair correndo para lavar a louça antes da visita dos homenzinhos verdes, nem temer um cataclisma como o que dizimou os dinossauros.  A menor distância entre ele e nossa pedra azul vai acontecer no dia 29 de outubro e será  de cerca de 1,8 Unidade Astronômica (UA).

Considerando que uma UA significa quase 150 milhões de quilômetros, isso quer dizer que ele vai passar longe pra chuchu. Portanto, se você sentiu agora um certo alívio por perder “o grande espetáculo no céu”, relaxe: a maioria de nós só o verá nas manchetes.

Nasa divulgou imagem do 3i/Atlas, cometa interestelar | Crédito: Reprodução

Por que estão dizendo que esse cometa pode ser uma nave espacial?

Porque sempre que algo vem “de fora” e foge do manual, aparece alguém tirando o chapéu de alumínio do armário. No caso, o astrofísico  Avi Loeb, professor da prestigiada Universidade Harvard, que já defendeu hipóteses similares com o Oumuamua, e sugeriu que o 3i/Atlas poderia ser uma tecnologia alienígena. Ele até propôs redirecionar a sonda Juno para um encontro em 2026. Uma ideia audaciosa, porém minoritária.

O consenso científico, amparado por espectros e imagens, é que se trata de um cometa ativo. Se servir de consolo, esse tipo de especulação ajuda apenas a conseguir tempo de telescópio e orçamento; a ciência segue testando hipóteses e… desmontando as menos prováveis.

O que é o cometa 3i/Atlas?

É um cometa interestelar, ou seja, sua órbita é tão hiperbolicamente exagerada que não está ligada ao Sol. Foi descoberto em 1º de julho de 2025 pelo sistema Atlas (no Chile), e depois  confirmado como o terceiro visitante de fora do Sistema Solar e designado também com um nome que parece placa de carro: C/2025 N1. Ele possui coma (gás e poeira) e atividade cometária genuína.

Órbita de cometa é tão exagerada que não está ligada ao Sol | Crédito: Reprodução

Então o que ele tem de diferente dos outros cometas?

Três coisas: origem; ele não veio da “Nuvem de Oort” — a fronteira final do Sistema Solar —, e sim de outra vizinhança estelar; velocidade recorde entre os objetos interestelares já observados e uma excentricidade orbital altíssima: sua trajetória é quase uma reta. O Hubble indica um núcleo pequeno a moderado e suas  medições apontam velocidades da ordem de 210.000 km/h. Em suma: ele é rápido, veio de fora e não pretende ficar.

Quais outros objetos semelhantes passaram perto da Terra nos últimos anos?

“Perto” em astrofísica é um conceito um tanto relativo. Mas nunca houve um risco real. Em 27 de janeiro de 2023, o 2023 BU passou a cerca de 3,6 mil quilômetros e tinha cerca de oito metros. No mesmo ano, o 2023 DZ passou a menos de 175 mil km e foi o bastante para deixar em alerta os sistemas de defesa planetária.

E no ano passado, o 2024 MK passou pela Terra no dia 29 de junho a uma distância menor do que a do nosso planeta à Lua, e pôde ser estudado pelos radares da Nasa aqui na Terra.

Existe chance dele colidir com a Terra?

 De maneira alguma. Os estudos da Nasa demonstram que o 3i/Atlas não cruzará nossa órbita em distância perigosa. Ele chegará no mínimo a 1,8 AU em 29 de outubro.  É aquela velha história do “cometa que está chegando”, porém mantendo uma distância social exemplar.

 Vai dar para vê-lo?

Para olho nu, não será exatamente o blockbuster do ano. Os amadores só conseguirão vê-lo se usarem telescópios muito potentes. Em termos jornalísticos: a melhor foto provavelmente virá de observatórios ou telescópios estelares. E o Hubble já fez o serviço, entregando imagens excelentes. Então relaxe, e guarde o chapéu de alumínio no armário.

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