Hugo Motta não fez acordo com bolsonaristas por anistia e fim do foro privilegiado, dizem aliados

Presidente da Câmara retomou plenário com apoio do Centrão e sob ameaça de punições, mas interlocutores afirmam que não houve negociação com a oposição

Após uma jornada marcada por tensão política e ocupação do plenário por deputados da oposição bolsonarista, aliados do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), negaram nesta quinta-feira (7) qualquer acordo com o grupo para pautar o projeto de anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro e a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim do foro privilegiado. As informação é da colunista Isabel Mega, da CNN Brasil.

A versão de que um acordo teria sido firmado foi disseminada por lideranças da oposição após Hugo conseguir, na noite de quarta-feira (6), retomar o controle da mesa diretora e abrir sessão, escoltado por parlamentares do Centrão e líderes partidários. O gesto, que marcou a retomada dos trabalhos legislativos após mais de 24 horas de bloqueio, foi visto como uma resposta institucional à tentativa de paralisação promovida pelos bolsonaristas.

Deputados que acompanharam Hugo durante o dia reforçaram à CNN que não houve qualquer negociação política. Segundo relataram, o único compromisso firmado foi entre União Brasil e PP, que optaram por manter uma obstrução regimental até que as pautas de interesse da oposição sejam discutidas.

“Hugo não aceitou discutir nada enquanto não assumisse a Presidência”, afirmou um parlamentar da Mesa à emissora.

Obstrução sim, acordo não

A obstrução regimental, destacaram interlocutores, é um instrumento legítimo e previsto no regimento da Câmara, que permite à oposição apresentar requerimentos para atrasar ou adiar votações. No entanto, essa estratégia não se confunde com a ocupação física do plenário, que foi rechaçada por aliados de Motta.

Durante todo o dia, houve sinais de endurecimento da postura da presidência. A Mesa Diretora publicou um ato prevendo suspensão de mandato por até seis meses para deputados que impedissem ou atrapalhassem o funcionamento das atividades legislativas. A medida foi interpretada como uma resposta direta à obstrução física promovida pelos parlamentares da oposição.

A movimentação de Hugo também contou com o apoio de figuras influentes do Centrão. O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) atuou nos bastidores e chegou a receber membros do PL, partido de Jair Bolsonaro, numa tentativa de intermediar uma solução para o impasse.

Na véspera, quando teve início a ocupação bolsonarista, Hugo Motta chegou a convocar uma reunião com todos os líderes partidários. O PL informou que não participaria, mas mesmo assim houve uma conversa entre lideranças da sigla e o presidente da Câmara. Essa reunião, no entanto, terminou sem qualquer acordo formal.

Pressão, redes sociais e tensão nos bastidores

A retomada do plenário ocorreu sob forte pressão. Aliados de Hugo afirmam que a decisão da Mesa de ameaçar punições foi fundamental para que ele conseguisse reassumir a cadeira de presidente. Parlamentares relataram que também foi discutida a possibilidade de cassação de mandato, caso houvesse conflito físico com a Polícia Legislativa da Casa.

Durante o protesto, deputados da oposição aproveitaram para fazer transmissões ao vivo e publicações nas redes sociais. Um dos episódios que mais repercutiu foi o da deputada Júlia Zanatta (PL-SC), que levou a filha de quatro meses para o plenário e chegou a amamentá-la na cadeira da presidência.

A imprensa só teve acesso ao plenário no momento em que Hugo Motta se preparava para reassumir a condução dos trabalhos. A entrada dos jornalistas foi liberada apenas nas galerias.

De forma simbólica, o último deputado a deixar a cadeira da presidência antes da retomada por Hugo foi Marcel Van Hattem (Novo-RS), que havia sido candidato derrotado à presidência da Câmara na última eleição. O gesto encerrou um dos episódios mais tensos da atual legislatura.

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