A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode produzir efeitos que vão muito além do combate ao crime organizado. Especialistas em segurança pública, relações internacionais e investigadores que acompanham a atuação das facções alertam para possíveis impactos econômicos sobre empresas, instituições financeiras e diversos setores produtivos brasileiros.
Embora as consequências práticas da medida ainda estejam sendo avaliadas, a preocupação central está relacionada à presença cada vez maior de recursos ilícitos infiltrados na economia formal. Segundo pesquisadores e autoridades dissseram ao portal g1, operações policiais recentes demonstram que organizações criminosas vêm utilizando empresas, instituições financeiras e diferentes segmentos econômicos para movimentar e ocultar dinheiro obtido ilegalmente.
A avaliação é que, diante da nova classificação feita pelos EUA, negócios que mantenham relações indiretas com estruturas utilizadas por facções criminosas podem passar a ser alvo de investigações e sanções internacionais.
Risco de alcance internacional
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Thiago Rodrigues, a principal preocupação está no alcance extraterritorial da legislação estadunidense.
“Como se sabe pelas operações policiais já feitas, a penetração de dinheiro ilegal é muito grande na economia legal. Imagina, por exemplo, um operador de agronegócio que faça negócios com uma transportadora de soja que seja usada para lavar dinheiro do PCC. Esse agroempresário pode ser julgado nos EUA”, afirma.
Segundo o pesquisador, a inclusão das facções na lista de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs), já em vigor, concentra-se principalmente no combate a operações financeiras realizadas em território estadunidense.
Já a classificação como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) amplia significativamente o alcance das medidas. De acordo com Rodrigues, essa categoria permite que autoridades dos Estados Unidos investiguem e processem pessoas ou empresas de outros países que mantenham vínculos financeiros ou comerciais com grupos classificados como terroristas.
Na prática, isso significa que operações realizadas integralmente no Brasil poderiam ser analisadas pelas autoridades dos EUA caso haja suspeita de conexão, ainda que indireta, com estruturas utilizadas pelas facções.
“Isso impacta diretamente na economia de um país. Qualquer pessoa, cidadã de outro país, pode ser processada no sistema jurídico-penal dos EUA: um político, uma personalidade pública, um empresário, um banqueiro — mesmo que não esteja fazendo negócio nos EUA, mas esteja fazendo negócio no seu próprio país”, afirma Rodrigues.
Operação Carbono Oculto acende alerta
Os riscos apontados pelos especialistas encontram respaldo em investigações recentes conduzidas pela Polícia Federal. Um dos exemplos é a Operação Carbono Oculto, iniciada em 2025 e que continua produzindo desdobramentos em 2026.
A investigação busca identificar a infiltração do PCC no sistema financeiro e em atividades econômicas formais. Segundo as apurações, fintechs teriam sido utilizadas para misturar recursos de origem lícita e ilícita por meio de contas compartilhadas em grandes instituições financeiras.
Além disso, o esquema investigado envolve o setor de combustíveis, apontado como uma das rotas utilizadas para lavagem de dinheiro e circulação de recursos provenientes do crime organizado.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que atua há mais de duas décadas no combate ao PCC e acompanha as investigações da operação, avalia que a nova classificação estadunidense pode produzir consequências relevantes para a economia brasileira.
“Veja este exemplo: postos de combustíveis pertencentes a pessoas ligadas ao PCC praticaram transações com outros grupos, como Copape [empresa que mistura gasolina], e por sua vez o dinheiro auferido dessas transações foi parar no mercado financeiro, num fundo da gestora Reag [investigada pela PF]”, disse Gakiya em entrevista à jornalista Natuza Nery no podcast O Assunto desta sexta-feira (29).
O promotor explicou que a circulação desses recursos pode alcançar diferentes camadas do sistema financeiro nacional.
“A Reag aplica uma parte de seus recursos, por exemplo, no Banco Master, que por seu turno faz transações de títulos com vários bancos grandes do país e que têm também operações financeiras com bancos americanos. Se a gente for levar ao pé da letra a interpretação que se dá a essa classificação de terrorismo, você poderia sancionar esses bancos brasileiros — que não tiveram diretamente nenhum contato com nenhum integrante do PCC”, explicou o promotor.
Possíveis reflexos para diversos setores
Segundo Gakiya, entre as sanções possíveis estão o congelamento de ativos e a proibição de realizar operações com instituições financeiras dos EUA.
Especialistas observam que esse cenário seria particularmente sensível para bancos e empresas que dependem de conexões com o sistema financeiro internacional.
Para Thiago Rodrigues, os reflexos potenciais não se limitariam ao setor bancário.
“[A nova classificação] Pode afetar desde o sistema bancário até o turismo no Rio de Janeiro, passando pelo agro, pelas empresas de tecnologia, pela Bolsa de Valores. O Brasil não é uma economia pouco integrada na economia global, é a sétima economia do mundo. Não é a Venezuela, que é um país exportador de petróleo cru. O Brasil é um sistema econômico complexo e muito integrado”, diz Thiago Rodrigues.
A avaliação é que a ampla integração da economia brasileira ao mercado global pode ampliar os efeitos indiretos de eventuais medidas adotadas por autoridades estadunidenses.
Mercado financeiro vê impacto limitado
Apesar dos alertas, representantes do sistema financeiro avaliam que os impactos podem ser menores do que o cenário descrito pelos especialistas.
Um executivo de um grande banco brasileiro ouvido pela reportagem afirmou, sob reserva, que as principais instituições financeiras do país já possuem mecanismos rigorosos de controle e prevenção à lavagem de dinheiro.
“As fintechs que não seguem tais medidas é que devem ser impactadas”, disse reservadamente.
Nos últimos anos, o Banco Central também ampliou exigências regulatórias para fortalecer mecanismos de rastreamento financeiro, identificação de clientes e monitoramento de operações suspeitas.
Mudança amplia estratégia dos EUA
A inclusão do PCC e do Comando Vermelho nas listas de organizações terroristas ocorre dentro de uma política mais ampla adotada pelo governo Donald Trump.
Logo após assumir seu novo mandato, em 2025, Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Departamento de Estado ampliasse o enquadramento de organizações criminosas internacionais em listas relacionadas ao terrorismo.
Na ocasião, foram citados grupos como o Cartel de Sinaloa, do México, o Trem de Arágua, da Venezuela, e a Mara Salvatrucha, de El Salvador.
Segundo Thiago Rodrigues, o PCC já figurava desde 2021 em outra relação mantida pelo Departamento do Tesouro dos EUA, voltada ao combate de organizações criminosas transnacionais.
Essa classificação anterior permitia apreensões de bens e punições relacionadas a negócios realizados em território estadunidense, mas teve alcance limitado devido à reduzida presença da facção nos Estados Unidos.
“O que a gente acredita é que a presença [de pessoas] do PCC nos Estados Unidos é irrisória, não é substancial. Não há uma iniciativa, até onde os pesquisadores saibam, de o PCC entrar nos Estados Unidos”, explica.
Para o pesquisador, a nova classificação possui uma dimensão que ultrapassa o aspecto estritamente operacional do combate ao crime.
“Agora, essa nova lista [de grupos terroristas] é muito mais política do que técnica, porque coloca esses grupos em uma outra narrativa — da guerra contra o terrorismo, de um inimigo muito perigoso que justifica interferências nos sistemas políticos de outros países”, afirma.





Deixe um comentário