Círio de Nazaré reúne milhões de fiéis e reafirma a força da fé popular na Amazônia

Procissão deste domingo (11) mobiliza Belém e cidades vizinhas; devoção à Nazinha tem raízes históricas e ocupa lugar central na religiosidade paraense.

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O Círio de Nazaré, celebrado neste domingo (11), reafirma a força do catolicismo popular na Amazônia e a importância de Nossa Senhora de Nazaré na vida religiosa do Pará. A festividade reúne mais de um milhão de pessoas em uma programação que se estende por vários dias, com procissões, romarias e manifestações de fé em Belém e municípios próximos.

Conhecida pelos paraenses como Nazinha e considerada a rainha da Amazônia, a santa ocupa um lugar de destaque no imaginário religioso da região. No Pará, sua devoção é mais forte do que a de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

As celebrações também ultrapassam o aspecto religioso. Para muitos paraenses, o Círio tem significado semelhante ao Natal, com encontros familiares, refeições tradicionais e saudações como “feliz Círio”. Pratos como tucupi, tacacá e maniçoba fazem parte das comemorações.

Uma das maiores manifestações católicas do mundo

O Círio de Nazaré está entre as maiores concentrações de fiéis católicos do mundo, ao lado das celebrações dedicadas à Virgem de Guadalupe, no México, e ao Nazareno Negro, nas Filipinas.

A programação inclui diferentes romarias, com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré percorrendo Belém e cidades vizinhas. As homenagens ocorrem em modalidades variadas, incluindo procissões terrestres, deslocamentos de motocicletas e romarias fluviais.

Em 2013, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) reconheceu o Círio como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

A história que deu origem à devoção

A tradição do Círio está associada a relatos sobre o encontro de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré e seu suposto retorno repetido ao local onde teria sido encontrada.

Segundo a narrativa religiosa, em 1700, o ribeirinho Plácido José de Souza encontrou uma imagem da santa à margem de um igarapé. Ele teria levado a pequena estátua para casa, mas ela desapareceu e voltou a ser encontrada no mesmo lugar.

O episódio teria se repetido, atraindo moradores que passaram a atribuir milagres à imagem. A tradição deu origem à devoção que se consolidou no Pará e à celebração que, desde então, mobiliza milhares de pessoas.

O historiador Luiz Antonio Simas, autor do livro Tantas Marias, relaciona o Círio à tradição de narrativas marianas espalhadas pelo Brasil. Para ele, a celebração reproduz simbolicamente o retorno da imagem ao local de origem.

Devoção também tem raízes em Saquarema

Relatos semelhantes aparecem na história da devoção a Nossa Senhora de Nazaré em Saquarema, no litoral do Rio de Janeiro. De acordo com a tradição, um pescador encontrou uma imagem da santa por volta de 1630, depois de verificar os danos provocados por uma tempestade em seu barco.

A imagem teria desaparecido após ser levada para outro lugar e reaparecido no ponto original. O episódio atraiu devotos e levou à construção de uma capela.

Décadas depois, uma narrativa semelhante surgiu no norte do Brasil colonial. A presença da comunidade portuguesa na região, onde a devoção a Nossa Senhora de Nazaré já era popular, também contribuiu para a expansão do culto.

O significado religioso para os fiéis

O antropólogo Rodrigo Toniol, pesquisador do catolicismo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), interpreta o Círio como uma demonstração da força do catolicismo popular.

Na avaliação do pesquisador, a história da imagem que retorna ao lugar onde foi encontrada tem um significado simbólico para os devotos. Narrativas desse tipo também expressam uma representação de Nossa Senhora como figura próxima ao povo, inclusive na relação com a autoridade religiosa.

O historiador Luiz Antonio Simas, por sua vez, pondera que a análise acadêmica dessas histórias não precisa se transformar em uma tentativa de comprovar ou negar a experiência religiosa dos fiéis. Para ele, é importante considerar o significado que essas narrativas assumem para quem acredita.

Fitas e cartazes registram pedidos e agradecimentos

A devoção se manifesta também nos objetos deixados pelos fiéis no entorno da basílica de Nazaré, em Belém. Fitas coloridas e cartazes ocupam as grades do local, com mensagens de agradecimento e pedidos de bênçãos.

Entre os relatos estão agradecimentos por tratamentos de saúde, aprovação em vestibulares e conquistas pessoais. Uma das fiéis, a assistente social Joana Fátima Ferreira, de 78 anos, conta que atribui à intercessão da santa uma gravidez bem-sucedida na família, após anos de tentativas interrompidas por perdas gestacionais.

Segundo Joana, seu irmão fez um pedido durante a passagem da imagem de Nossa Senhora de Nazaré e, pouco depois, a família recebeu a notícia da gravidez.

A celebração continua, assim, reunindo histórias individuais de fé em uma manifestação coletiva que atravessa gerações e mantém Nossa Senhora de Nazaré como uma das principais referências religiosas da Amazônia.

A tradição também passa pela mesa

Depois da procissão, almoços em família fazem parte dos costumes do Círio. Na casa de Joana, a refeição tradicional inclui arroz paraense, preparado com camarão e jambu.

A culinária regional, com ingredientes de origem indígena e preparações tradicionais, integra a identidade cultural da festa. Entre manifestações religiosas, encontros familiares e celebrações nas ruas, o Círio de Nazaré permanece como um dos principais eventos religiosos e culturais do Pará.

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