CGU revela esquema de fraudes em associações para lesar aposentados do INSS

Rede articulada utilizava sites e falsificação de assinaturas para descontar quase R$ 1 bilhão de beneficiários

A Controladoria-Geral da União (CGU) descobriu uma rede de associações e sites especializados que atuavam de forma articulada para fraudar aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As investigações foram apresentadas pelo Jornal Nacional em reportagem exclusiva.

O esquema, conforme apurado, envolvia associações criadas para realizar descontos nas aposentadorias e sites de assinatura digital usados para falsificar documentos de filiação. No centro da organização estava Igor Dias Delecrode, empresário dono de seis empresas que forneciam essas plataformas digitais. Pelo menos uma dessas empresas foi utilizada por quatro entidades investigadas — AAPEN, ABCB/Amar Brasil, Masterprev e ANDDAP — para promover filiações em massa, aproveitando brechas nos controles do próprio INSS.

Além da relação comercial, Igor Delecrode ocupou cargos de liderança em algumas dessas entidades, atuando como secretário-executivo, responsável técnico de TI e presidente, segundo a CGU. Essa proximidade reforça a coordenação da fraude.

A CGU aponta que o esquema visava dar aparência legal às fichas de filiação, com assinaturas digitais falsificadas para simular a autorização dos beneficiários. O Jornal Nacional verificou, por meio do Portal da Transparência, que a rede descontou quase R$ 1 bilhão desde 2022.

Casos concretos foram registrados em Recife e São Paulo, onde aposentados descobriram que estavam filiados sem consentimento e com documentos falsificados, incluindo números de RG inexistentes. O advogado Romulo Saraiva definiu o sistema como uma “fábrica de assinaturas falsas”, afirmando:

“Algumas associações, para dar legitimidade em relação ao desconto não autorizado, contrataram uma empresa que resolveu falsificar assinaturas digitais e eletrônicas dos aposentados, passando ali uma impressão de que esses aposentados tinham autorizado mesmo as assinaturas sendo totalmente diferentes da original.”

Documentos internos do INSS mostraram que, em 2023, técnicos suspeitaram das fraudes, mas os alertas foram ignorados pela diretoria. Em março, após exigir uma lista de beneficiários da ABCB/Amar Brasil, que não foi inicialmente entregue, os descontos foram suspensos. Um mês depois, a lista foi apresentada, mas os descontos foram liberados antes da verificação, sob decisão do então diretor de Benefícios, André Fidelis — afastado pela Justiça e investigado na operação contra fraudes.

Em setembro, a Divisão de Consignação em Benefícios do INSS detectou anomalias nas fichas da ABCB/Amar Brasil, que apresentavam um mesmo código para todas as filiações, quando deveriam ser números distintos. Porém, a área se declarou tecnicamente incapacitada para analisar a situação, recomendando encaminhamento para a Diretoria de Tecnologia.

No fim do ano, o coordenador de Pagamentos considerou desnecessária qualquer avaliação mais profunda, afirmando que o que importava era apenas a existência das fichas, e minimizou os riscos apresentados pelas reclamações dos aposentados. Essa visão foi endossada pela diretoria, autorizando a continuidade dos descontos sem verificar a veracidade dos documentos.

Procurado, Igor Delecrode afirmou que sempre atuou dentro da legalidade e está à disposição da Justiça para esclarecimentos. Os demais envolvidos não se manifestaram até o fechamento da reportagem.

O caso expõe falhas graves nos controles do INSS para evitar fraudes e reforça a necessidade de medidas mais rigorosas para proteger os direitos dos aposentados e pensionistas. O governo anunciou que começará a devolver descontos indevidos a partir do dia 26 de maio de 2025, com atendimento ampliado e medidas de biometria para empréstimos consignados.

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