César Maia: o arquiteto do tempo urbano

A trajetória de César Maia não pode ser reduzida apenas à figura de um político. Ele foi um arquétipo do homem público latino-americano, forjado pelas adversidades e pelas tensões da história de seu tempo.

* Paulo Baía

Era 18 de junho de 1945 quando a cidade do Rio de Janeiro, ainda respirando os ventos do fim da guerra e ensaiando os passos de sua modernidade, recebeu um menino em Copacabana. O nome do recém-nascido foi César Epitácio Maia. Desde o início, o nome já carregava uma gravidade histórica, um prenúncio de uma vida moldada pela inquietude. Uma inquietude que se fundiria com o espírito urbano da cidade, que o tornaria um dos maiores arquitetos do espaço público carioca. Desde cedo, Maia mostrava que sua vocação era diferente da de outros cidadãos da cidade; ele não seria simplesmente alguém que ocuparia o espaço urbano. Ele era destinado a transformá-lo, com visão estratégica e afeto, imerso no amor pela cidade que sempre será o alicerce de sua trajetória.

A trajetória de César Maia, no entanto, não pode ser reduzida apenas à figura de um político. Ele foi um arquétipo do homem público latino-americano, forjado pelas adversidades e pelas tensões da história de seu tempo. Exilado durante os anos escuros da ditadura militar, encontrou no Chile de Salvador Allende um solo fértil para suas ideias. Lá, formou-se não apenas como economista, mas também como um pensador da cidade e das relações sociais que nela se desenrolam. No exílio, César Maia compreendeu que a política não era apenas o jogo das grandes esferas, mas também a compreensão dos mais sutis detalhes da vida cotidiana. Ao retornar ao Brasil, em 1973, o cenário que encontrou era de um regime militar ainda brutal, rígido e fechado. Mas, para ele, o retorno não era uma fuga da realidade política, mas uma reafirmação de sua luta em busca de justiça social. Em uma época de repressão e medo, ele retornou com uma bagagem intelectual mais rica e com uma visão de futuro mais clara.

Em sua formação acadêmica, Maia destacou-se como professor na Universidade Federal Fluminense, onde trouxe consigo uma abordagem crítica e analítica da realidade urbana brasileira. Sua atuação no governo estadual do Rio de Janeiro como secretário da Fazenda, presidente do Banerj e da Diverj consolidou sua posição como um técnico hábil, mas também um homem com uma visão ampla do Estado e da sociedade. Suas funções prepararam-no para o que viria a ser sua maior missão: governar uma cidade dilacerada pela desigualdade, pela violência e pela escassez de infraestrutura. Suas experiências anteriores o tornaram o homem ideal para tal tarefa, um homem capaz de entender os múltiplos aspectos da administração pública e aplicar seus conhecimentos em favor da construção de um Rio de Janeiro mais justo e eficiente.

César Maia não entrou na política para se tornar uma figura decorativa, mas para, de fato, impactar a realidade. Em 1986, elegeu-se deputado federal e, como constituinte, contribuiu para a consolidação do novo Brasil democrático. Sua atuação parlamentar foi marcada pela sobriedade, pelo raciocínio técnico e pelo compromisso com as reformas necessárias ao país. Mas a política de Brasília nunca foi seu objetivo final; sua alma sempre pertenceu ao Rio de Janeiro. E foi na cidade maravilhosa que ele encontrou sua verdadeira vocação.

Em 1992, venceu as eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro. Ao assumir o cargo, iniciou um ciclo de transformações que mudaria a cidade de maneira irreversível. De 1993 a 1996, no primeiro mandato, César Maia implementou o programa Rio-Cidade, que foi uma verdadeira revolução urbana. Reformulou bairros inteiros com projetos que incluíam infraestrutura, melhorias no transporte público e desenvolvimento cultural. Ele também lançou o Favela-Bairro, um dos programas de urbanização mais ambiciosos da história brasileira, que levou à regularização de muitas favelas e melhorou a qualidade de vida de centenas de milhares de cariocas. O programa foi tão bem-sucedido que recebeu premiações internacionais, incluindo o reconhecimento da UNESCO, o que colocou o Rio de Janeiro na vanguarda do planejamento urbano inclusivo.

Além disso, César Maia iniciou a construção da Linha Amarela, que conectou regiões da cidade até então isoladas, como se desenhasse novos caminhos para o Rio. Criou subprefeituras para descentralizar a administração, aproximando o poder público das comunidades locais. Foi também pioneiro na construção de ciclovias, uma verdadeira inovação para a cidade, onde a mobilidade urbana ainda era vista com restrições. Em sua gestão, a cidade não só se modernizou, mas também se humanizou, com a inclusão de espaços culturais, teatros e centros comunitários, abrindo as portas da cultura para as periferias.

Em 2000, retornou ao poder, dando início a um segundo ciclo de transformações. Fundou a Cidade do Samba, um complexo destinado à cultura do carnaval e ao fortalecimento da indústria cultural da cidade. Criou as Vilas Olímpicas, espaços destinados à formação esportiva e ao lazer da população, além de hospitais e escolas padrão. Com seu olhar técnico e humano, preparou a cidade para os Jogos Pan-Americanos de 2007, transformando o Rio em um grande canteiro de obras. O Estádio Olímpico João Havelange, o Parque Aquático Maria Lenk, o Velódromo, a HSBC Arena e a Cidade das Artes foram apenas algumas das grandes realizações de sua gestão. Essa última, especialmente, tornou-se um marco da cultura carioca, simbolizando a crença de Maia de que a cultura e a arte são fundamentais para o desenvolvimento urbano.

Ao contrário de muitos políticos que se perdem na vaidade do poder, César Maia sempre teve os pés no chão. Suas decisões foram sempre fundamentadas no estudo, na análise técnica e na compreensão das necessidades reais da cidade. Ele soube, como poucos, transformar seu conhecimento acadêmico em políticas públicas eficientes. Sua trajetória como prefeito do Rio de Janeiro é um exemplo de que, quando a política é feita com seriedade e comprometimento, ela pode transformar de forma profunda e duradoura a vida das pessoas.

Após deixar a prefeitura, César Maia se manteve ativo na política, sendo eleito vereador em 2012 e reelegendo-se várias vezes. Sua presença na Câmara Municipal é uma continuidade de sua atuação como líder público, com a mesma dedicação e rigor. Em seus discursos e ações, ele não se limitou a ser um político de gabinete, mas continuou a ser uma figura que dialoga diretamente com as questões do cotidiano carioca. Para ele, a política não era um palco para exibição, mas um campo de ação constante, onde suas ideias e seu trabalho ainda podiam fazer a diferença.

No dia 18 de junho de 2025, aos 80 anos, a cidade do Rio de Janeiro celebrou o legado de César Maia. A Câmara Municipal abriu suas portas para homenageá-lo, e a cerimônia reuniu figuras políticas e cidadãos que reconhecem sua importância histórica. Eduardo Paes, o atual prefeito e sucessor político de César, falou com gratidão e reverência, lembrando a inteligência viva do mestre e o impacto positivo que ele teve na cidade. Carlo Caiado, presidente da Câmara, destacou sua coerência, lealdade e o amor constante de César pela cidade.

As homenagens não foram apenas simbólicas, mas um reconhecimento real de que César Maia foi, e continua sendo, uma das figuras mais importantes da história recente do Rio de Janeiro. Ele é lembrado não apenas pelas obras concretas que deixou, mas também pela sua capacidade de pensar a cidade como um projeto coletivo, onde cada bairro, cada espaço, cada canto poderia ser melhorado. Ele sabia que a cidade é um organismo vivo, e que, como tal, precisa ser tratada com carinho, planejamento e visão de futuro.

Celebrar César Maia é reconhecer que a política, quando bem feita, pode ser um ato de amor à cidade e ao povo. Ele é um exemplo de que é possível governar com técnica, sensibilidade e compromisso. Suas ciclovias, seus centros culturais, suas escolas e hospitais, seus projetos de urbanização estão espalhados por toda a cidade, testemunhando sua visão de uma cidade mais justa, mais humana e mais conectada com os desejos de seu povo. Seu legado, portanto, não se limita ao concreto, mas se expande pela memória afetiva da cidade, pelas histórias de transformação e pela convicção de que a política pode ser feita com rigor, beleza e, acima de tudo, humanidade.

A cidade do Rio de Janeiro que temos hoje é também, em grande parte, a cidade que César Maia ajudou a criar. E seu trabalho, ainda que concluído em muitos aspectos, continua a reverberar nas ações de todos aqueles que acreditam que a política pode ser mais do que um jogo de interesses. Ela pode ser, como César sempre soube, uma verdadeira missão de serviço público, onde a cidade é não apenas o palco de nossas vidas, mas o reflexo de nossos sonhos coletivos.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

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