O Rio de Janeiro reforça sua posição como um dos principais polos da economia criativa do país, com atuação marcante em segmentos como carnaval, audiovisual, moda, design, música e grandes eventos. É o que mostra um mapeamento divulgado nesta quarta-feira pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) — e reportada pelo jornal O GLOBO — que detalha o peso crescente da chamada indústria criativa na economia fluminense, especialmente na capital.
De acordo com o levantamento, o estado emprega atualmente 124 mil profissionais no setor criativo, ficando atrás apenas de São Paulo, com 517 mil. Aproximadamente 75% dos postos de trabalho estão concentrados no município do Rio. Entre 2022 e 2023, o crescimento do setor no estado foi de 6,5%, superando a média nacional de 6,1%. A pesquisa se baseia em dados oficiais e destaca que os números podem ser ainda maiores, devido à informalidade presente em várias áreas criativas.
Um dos principais motores desse mercado é o carnaval, que em 2024 movimentou R$ 5,5 bilhões na cidade, com forte impacto nos setores de turismo e serviços, como hotéis, bares e restaurantes. Além do apelo cultural e simbólico, a festa exige uma cadeia cada vez mais qualificada de profissionais.
— No auge dos preparativos do desfile deste ano, chegamos a ter cerca de 280 a 290 pessoas trabalhando. O nível da festa tem crescido sempre, exigindo reforçar as equipes, inclusive trabalhadores temporários. Isso representa um aumento de 30% de pessoal em cerca de dez anos. E muitas vezes é difícil encontrar especialistas em produzir alegorias e adereços com espuma e palha por exemplo — afirma Almir Reis, presidente da Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca.
Outro exemplo do protagonismo da economia criativa está no setor audiovisual. O Polo Cine e Vídeo, na Barra Olímpica, passa por uma ampliação e deve dobrar sua área construída até fevereiro de 2026, oferecendo nova estrutura para filmagens. Entre as produções recentes que utilizaram o espaço está a continuação de O auto da compadecida, sucesso de bilheteria com mais de 4 milhões de espectadores.
— Somos uma potência do audiovisual. Além de o Brasil conquistar um Oscar (Ainda Estou Aqui, melhor filme internacional, com uma história que passa no Rio nos anos 1970), a cidade tem um grande número de diárias de filmagens para cinema, com destaque para Marechal Hermes, na Zona Norte. Nesse contexto, uma produção internacional que grave aqui pode levar o Rio como protagonista dessa indústria — afirma Julia Zardo, gerente de Ambientes de Inovação da Firjan e coordenadora do estudo.
Dados da Rio Film Commission reforçam essa tendência. Em apenas um ano, a cidade contabilizou 7.885 diárias de filmagens, superando Paris (7.400) e São Paulo (4.895), consolidando-se como uma das capitais mundiais da produção audiovisual.
A pesquisa também mostra que 2,7% das empresas empregadoras no estado atuam na economia criativa, percentual superior à média nacional, de 2,3%. O número de estabelecimentos do setor chegou a oito mil, com crescimento de 2,8% no período analisado.
A presença do Rio no imaginário cultural brasileiro e internacional se projeta, por exemplo, em novelas como o remake de Vale tudo, exibido em horário nobre pela TV Globo, que alterna imagens da Zona Sul com cenas ambientadas no subúrbio, como em Vila Isabel.
— Estamos sempre lidando com a questão da brasilidade. Eu faço a criação das aberturas de novelas e séries. Participei do processo criativo da abertura de Vale tudo, que conta com mais de 150 imagens que tentam construir um retrato do que entendemos de Brasil. Recentemente, houve um painel em Cannes, na França, em que exibiram o material justamente para falar de brasilidade — relata Julia Rocha, diretora de arte da TV Globo.
Além da produção cultural e audiovisual, os grandes eventos como o réveillon de Copacabana e shows internacionais, como o da cantora Lady Gaga, reforçam a imagem do Rio como vitrine do país para o exterior. Esses eventos, segundo a Firjan, exercem um papel fundamental na construção de um “soft power” cultural, conceito formulado pelo cientista político Joseph Nye nos anos 1980 para definir a capacidade de influência de um país por meio de sua cultura.
A marca Rock in Rio é um exemplo dessa exportação simbólica. Criado na cidade, o festival já teve edições em Lisboa, Madri e Las Vegas, levando consigo a identidade cultural carioca.
— Você tem o design criativo gerando valor em outras cadeias, como no mobiliário urbano que tem a cara do Rio, e no calçadão de Copacabana, com o desenho das ondas, que é reconhecido no mundo inteiro. No design de vestuário, a Farm, inspirada na cultura carioca, por exemplo, está no mundo inteiro levando a marca do Rio — destaca Julia Zardo. — Diferentes gêneros musicais, como o funk, o charme, o rap e ainda a bossa nova, continuam como uma referência de exportação da nossa cultura, com participação crescente dos DJs, além do calendário permanente de grandes eventos.
O estudo da Firjan reforça que o Rio de Janeiro não é apenas um polo turístico ou cultural, mas também um ecossistema criativo pulsante, com enorme potencial econômico e simbólico. Um retrato de uma cidade que transforma sua diversidade cultural em ativo estratégico para desenvolvimento e projeção global.





