Carlos Guilherme Mota, referência da historiografia brasileira e professor da USP, morre aos 85 anos

Historiador premiado pela Academia Brasileira de Letras deixa legado acadêmico marcado por estudos sobre cultura, ideologia e democracia no Brasil

O historiador Carlos Guilherme Mota morreu aos 85 anos nesta quarta-feira (20), em São Paulo. A informação foi confirmada pela família à Editora 34, responsável por publicar diversas obras do acadêmico, considerado um dos principais intelectuais brasileiros dedicados à história da cultura e das ideologias.

Nascido na capital paulista, em 1941, Mota construiu uma trajetória consolidada no ensino superior e na pesquisa histórica. Graduado em História pela Universidade de São Paulo em 1963, concluiu mestrado em História Moderna e Contemporânea em 1967 e obteve o doutorado pela mesma instituição em 1970.

Ao longo de décadas, tornou-se uma das figuras mais influentes da produção intelectual brasileira, atuando em áreas como cultura, urbanismo, arquitetura, direito e formação das mentalidades políticas no país.

Trajetória acadêmica marcou universidades brasileiras

Professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Carlos Guilherme Mota recebeu o título de professor emérito em reconhecimento à sua contribuição acadêmica. Também lecionava na Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde integrava a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e presidia o Comitê Científico da instituição.

O historiador ainda teve participação decisiva na criação de importantes centros de pesquisa e memória no Brasil.

Mota foi fundador e primeiro diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, além de atuar como professor titular da Unicamp. Também dirigiu o Arquivo do Estado de São Paulo e participou da fundação do Memorial da América Latina.

Sua produção intelectual ganhou destaque principalmente pela análise crítica da formação política e cultural brasileira, consolidando seu nome entre os maiores historiadores contemporâneos do país.

Livros ajudaram a interpretar a história do Brasil

Entre as obras mais conhecidas do professor estão “Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974)”, publicado originalmente em 1975, “História do Brasil: Uma Interpretação”, escrito em parceria com Adriana Lopez, e “História da Folha de S.Paulo (1921-1981)”, produzido ao lado da historiadora Maria Helena Capelato.

Os livros de Mota se tornaram referência em universidades e centros de pesquisa, especialmente por abordar os impactos das ideologias políticas na formação da sociedade brasileira.

Em 2009, o acadêmico foi nomeado professor emérito da USP. Dois anos depois, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, honraria concedida pelo conjunto de sua obra.

Durante discurso na premiação, o historiador relembrou os impactos da ditadura militar nas universidades brasileiras e criticou o silêncio das instituições acadêmicas diante dos desafios contemporâneos.

Na ocasião, Mota afirmou que, mesmo em uma época sem internet e recursos tecnológicos atuais, existia mais diálogo dentro do ambiente universitário. O historiador também recordou as dificuldades enfrentadas pela Faculdade de Filosofia da USP durante o período do regime militar iniciado em 1964.

Obra enfrentou censura durante a ditadura

O professor Francisco Alambert relembrou que a dissertação de mestrado de Carlos Guilherme Mota, concluída em 1967, originou o livro “Ideia de Revolução no Brasil”. A obra, porém, enfrentou obstáculos para ser publicada durante a ditadura militar.

Inicialmente lançada apenas em Portugal, sob o título “Atitudes de Inovação no Brasil”, a publicação só chegou oficialmente ao mercado brasileiro em 1979, durante o processo de abertura política.

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP divulgou nota lamentando a morte do historiador e destacando sua importância para a produção intelectual brasileira.

Velório será realizado em São Paulo

O velório de Carlos Guilherme Mota acontece nesta quinta-feira (21), das 9h às 15h, no Funeral Home, localizado na Rua São Carlos do Pinhal, 376, no bairro Bela Vista, em São Paulo.

Reconhecido por sua contribuição à historiografia nacional, o professor deixa um legado que atravessa gerações de pesquisadores, estudantes e intelectuais brasileiros.

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