No dia 29 de julho de 1925, o jornalista Irineu Marinho lançou o jornal O Globo com uma proposta inovadora: falar diretamente com a classe média urbana e abordar os acontecimentos do cotidiano carioca. Na época, a imprensa no Rio de Janeiro — então capital federal — se dividia entre os grandes jornais voltados à elite política, como o Correio da Manhã, e publicações proletárias, como A Voz Operária. Irineu enxergou uma lacuna e criou um diário que, ao contrário dos concorrentes, buscava se aproximar do “brasileiro médio”.
A aposta deu certo. Mesmo com a morte precoce de Irineu, apenas um mês após o lançamento do jornal, O Globo prosperou. Inicialmente dirigido por Eurycles de Mattos, o jornal passou, em 1931, ao comando do jovem Roberto Marinho, filho de Irineu, que aos 26 anos iniciaria uma trajetória decisiva para transformar o veículo em uma potência nacional da comunicação.
De jornal impresso a conglomerado multimídia
Sob a liderança de Roberto Marinho, O Globo se consolidou como uma das principais publicações do Brasil e se tornou o embrião de um dos maiores conglomerados de mídia da América Latina. Com o tempo, o grupo diversificou sua atuação para televisão, rádio, editora, produtos digitais e streaming.
A direção do grupo permaneceu com a família Marinho, passando aos três filhos de Roberto — Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto — e, mais recentemente, à terceira geração. Segundo João Roberto Marinho, atual presidente do Grupo Globo, a longevidade do jornal se deve à sua “capacidade de se adaptar sem abrir mão dos seus valores de independência, profissionalismo e inovação”.
O diretor de Redação, Alan Gripp, reforça a ideia ao destacar o sucesso da transição digital da publicação. “Hoje, o jornal chega a muito mais gente do que no auge da sua vida impressa. Temos cerca de 200 milhões de páginas vistas por mês e mais de 50 milhões de usuários únicos”, afirma.
História marcada por apoio à ditadura e resistência interna
A história de O Globo também reflete os dilemas políticos enfrentados pela imprensa brasileira. O jornal apoiou o golpe de 1964, como a maioria dos grandes veículos da época, inclusive a Folha de S.Paulo. Segundo o biógrafo Leonencio Nossa, autor de livros sobre Roberto Marinho, o apoio ao regime militar sofreu abalos a partir de 1968, com o AI-5, quando surgiram “curtos-circuitos” entre a linha editorial e o endurecimento do regime.
Nossa ressalta que, apesar do alinhamento inicial, houve uma “geração de resistência” dentro da redação, formada por jornalistas como Paulo Totti, Milton Coelho da Graça e Marcelo Beraba, falecido no dia 28 de julho. “O maior problema desse tipo de avaliação é que encobre a resistência existente dentro do jornal”, afirma.
Desafios do futuro e celebração do centenário
No contexto atual, O Globo se prepara para novos desafios, como a transição para a inteligência artificial e a possível redução do tráfego orgânico vindo de buscas, conforme aponta Alan Gripp: “Estamos à beira da maior disrupção do jornalismo. Precisamos fortalecer nossa audiência direta com os assinantes”.
Como parte das celebrações dos 100 anos, o jornal lançou a série documental O Século do Globo, dirigida por Pedro Bial e disponível no Globoplay; a exposição Um Século de Histórias, na Casa Roberto Marinho, no Rio de Janeiro; e o livro Um Século em Cem Crônicas, organizado por Maria Amélia Mello.
Além de O Globo, apenas dois jornais brasileiros alcançaram o centenário: O Estado de S. Paulo, com 150 anos, e a Folha de S.Paulo, com 104. A história de O Globo é, portanto, também a história da imprensa brasileira.






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