Carla Rodrigues*
Terminada as Olimpíadas de Paris, com ótimos resultados em medalhas para o Brasil e, em especial, para as mulheres negras brasileiras. Ótima oportunidade, inclusive, de reivindicar e trabalhar por mais medalhas de ouro, prata e bronze para as mulheres brasileiras em todos os espaços – inclusive na política, principalmente as mulheres negras. É com esse mote que chega enfim a hora de as eleições municipais se tornarem o centro do debate público, seja na imprensa, nas redes sociais ou nas conversas entre as pessoas que, na sua grande maioria, só despertam para a disputa eleitoral quando começa a propaganda eleitoral. Autorizada para começar no próximo sábado, 16 de agosto, depois do registro de todas as candidaturas à prefeitura e à câmara de vereadores, a propaganda produz esse efeito de perceber que agora “é pra valer”.
É verdade que para quem é do ramo – candidatos, jornalistas, cientistas políticos, sociólogos etc. – a eleição municipal começou em 2020, assim que as urnas declararam a vitória do presidente Lula no segundo turno. Depois de um escrutínio apertado, o PT de Lula e o PL de Jair Bolsonaro começaram ali a se preocupar com a disputa municipal e com tudo que ela influi na eleição presidencial de 2026. Na biografia do abismo traçada no livro de Felipe Nunes e Thomas Traumann, vivemos num país polarizado, dividido em dois, em que nenhum dos lados pretende ceder ou conversar com o outro, porque os valores políticos excederam o campo eleitoral e adentraram todos os espaços da vida: desde a escolha da marca de detergente até o consultório médico, passando por denominações religiosas e lojas de roupa, toda decisão tornou-se partidária.
Em Búzios não poderia ser diferente. É verdade que há uma estranha força de atração em que os dois candidatos principais disputam ter o apoio de Jair Bolsonaro – Alexandre Martins, candidato à reeleição pelo Partido dos Republicanos, e Rafael Aguiar, candidato pelo PL, que já teve a oportunidade de ostentar a família Bolsonaro em seu palanque esse março desse ano, quando era candidato numa eleição suplementar depois canceladas pelo TSE.
Infelizmente, essa força de atração sobre quem é mais bolsonarista tem impedido o debate de propostas e ideias tão necessárias para a governança municipal neste momento de crise econômica, social e, sobretudo, climática. De uma maneira geral, falta a compreensão de que os eventos climáticos extremos vieram para ficar e que precisam, de uma vez por todas, se tornarem prioridade na gestão pública, em especial nos municípios pequenos, onde ainda é possível tomar muitas providências.
Afinal, até as grandes cidades estão conseguindo se transformar. Vejamos o exemplo de Paris, cuja prefeita é uma mulher, Anne Hidalgo, que acaba de entregar a tocha olímpica para Los Angeles tendo consagrado outro modelo de sediar olimpíadas, incorporando as atividades esportivas na vida da cidade, cujo maior trunfo – além de seus inúmeros cenários turísticos conhecidos no mundo inteiro – foi a mobilidade urbana. Um modelo fácil de ser copiado em Búzios. Não apenas pelas dimensões da cidade, mas também ou principalmente porque hoje uma grande parte dos 40 mil moradores é composta por profissionais que, oriundos de outras cidades ou países, carregam na bagagem experiências e conhecimentos técnicos-científicos que em muito podem contribuir para a formulação de propostas inovadoras.
A pequena vila de pescadores que ganhou notoriedade depois de ser descoberta por uma atriz francesa – a Brigitte Bardot que dá nome à orla e a tantos outros lugares na cidade – poderia se inspirar na experiência da prefeita de Paris e levar a sério a circulação de pedestres e bicicletas em substituição a carros, ônibus e vans. Para isso, no entanto, em primeiro lugar é preciso discutir a cidade, seu futuro, seu planejamento urbano, sua perspectiva de se adaptar às mudanças climáticas. Seria preciso discutir a tarifa zero, hoje uma realidade em quase 200 municípios pelo país, pensar em modelos alternativos de transporte público e fazer uma completa revisão na maneira como nos movimentamos. Nada disso, no entanto, está em debate na troca de ofensas entre candidatos, na baixaria da campanha nas redes sociais, nos xingamentos de parte a parte. Búzios, que poderia ser, como Paris, a capital da bicicleta, por enquanto está fadada a ser um ponto de alavancagem do bolsonarismo no Estado do Rio de Janeiro para 2026.
É muito comum que os analistas políticos afirmem a singularidade do pleito municipal – é quando eleitores e eleitoras estão voltados para os problemas da vizinhança, da gestão do bairro, da administração municipal no que tem de mais cotidiano, ir e vir para o trabalho, a qualidade da merenda na escola, o atendimento no posto de saúde. As eleições de 2024, no entanto, trazem pelo menos dois desafios a esta lógica convencional.
O primeiro desafio é a já mencionada polarização, que tem contaminado o pleito desde 2022. O segundo, o fato de que é no âmbito das cidades que se discute as providências de prevenção e enfrentamento dos eventos climáticos extremos, seja para tentar reduzir sua incidência, seja para minorar seus efeitos. Há um paradoxo aí difícil de resolver: é na mão dos prefeitos a serem eleitos em outubro que está a gestão urbana mais complexa da história. Não basta fazer bem o que já é atribuição municipal, da creche ao trânsito, do posto de saúde ao planejamento urbano. Caberá aos próximos prefeitos e prefeitas serem corajosos e visionários para promover grandes transformações no modo como habitamos as cidades, como fez a prefeita de Paris ao transformar a “cidade luz” em “capital da bicicleta”. Búzios não tem tempo a perder e nem pode desperdiçar a chance de ser a capital da mudança.
No entanto, Búzios é uma das cidades que hoje enfrenta o paradoxo de que, embora seja mais fácil promover grandes mudanças em cidades pequenas, onde é mais fácil fazer experiências inovadoras de gestão, a lei eleitoral brasileira impõe eleições municipais em turno único em cidades com menos de 200 mil eleitores. Isso significa que dos mais de cinco mil municípios do país, apenas 103 terão eleições em dois turnos. A regra tem se mostrado um obstáculo ao fomento de propostas alternativas, porque a eleição em turno único dificulta o diálogo entre diferentes forças políticas. Mais conversa, melhor capacidade de negociação poderiam resultar em maior diversidade de propostas, menos concentração de poder em grupos econômicos, mais ousadia no primeiro turno para composições posteriores no segundo turno.
Se as forças políticas já precisam estar agrupadas desde o início da campanha eleitoral, impede-se o lançamento de candidaturas com propostas alternativas ou a emergência de novas lideranças, que poderiam representar posições minoritárias a serem consideradas nos arranjos políticos de segundo turno. Isso dificulta não só a emergência de forças progressistas, mas também e principalmente impede a renovação da pauta municipal. Embora os planos mais ousados para o futuro devessem estar na mão dos prefeitos e prefeitas de cidades de pequeno e médio porte, a arquitetura eleitoral nestes municípios desfavorece exatamente o que mais precisaria estimular: a oportunidade de começar a mudar já a lógica de exploração de recursos naturais a qualquer custo, naquilo que a filósofa feminista Nancy Fraser tão bem chamou de capitalismo canibal. Búzios pode ser a capital da sustentabilidade, como Paris é a capital da bicicleta, como Maricá é a capital da tarifa zero, como Niterói é a capital da segurança pública com cidadania, como Palmas, em Fortaleza, é a capital da economia solidária…Os bons exemplos não faltam, e a calamidade dos quase 500 pequenos municípios do Rio Grande do Sul nos lembra que maus exemplos também não. Búzios não pode desperdiçar a chance de ser a capital da inovação.
*Carla Rodrigues é filósofa, professora do IFF e da UFRJ. Carioca de nascimento, moradora e eleitora de Armação de Búzios por amor à cidade.





