Miriam Danowski*
Búzios, quem te viu, quem te vê, hein?! Primeiro, os tupinambás, os colonizadores portugueses, os piratas franceses. Depois, uma grande fazenda de bananas, ponto importante de desembarque de escravos, armação de baleias, aldeia de pescadores. Você não tinha mais de 4 mil habitantes, ao longo das décadas de 1940, 50 e 60. Todo mundo se conhecia ou era parente.
Com a visita de Brigitte Bardot, na década de 1960, passou a constar de roteiros turísticos internacionais, atraindo estrangeiros de múltiplas nacionalidades, o que lhe imprime até hoje esse perfil cosmopolita, diferenciado das cidades vizinhas.
Desde a inauguração da Ponte Rio-Niterói, em meados da década de 1970, você mais que dobrou de população. No censo demográfico do IBGE de 2000, após a emancipação de Cabo Frio, conquistada em 1995, já registrava 18.204 pessoas. Em 2010, 27.560. Pelo Censo de 2020, você já chegou aos 40 mil.
A “capacidade de carga” de sua infraestrutura está mais que ultrapassada, o regime de temporadas dificulta o planejamento urbano e você tem todos os problemas típicos das metrópoles ou grandes cidades turísticas brasileiras. Ou seja, você, Búzios, virou Brasil. Ao contrário da impressão que se tinha antes, de uma ilha de prosperidade, onde o dólar corria solto e a inflação quase não chegava.
Beleza, no entanto, não lhe falta. Você é dona de uma geografia privilegiada – 26 praias diferentes, além de mangues, restingas, dunas e costões, distribuídos pela península e pelo continente, em paisagens magníficas. Mas, agora, você não atrai só estrangeiros, brasileiros com tutu. Atrai também quem traz seu isopor, com cerveja que compra na estrada, bem mais em conta. Atrai quem se hospeda em pousadas duas estrelas e come bastante no café da manhã para economizar no almoço. Atrai quem se hospeda numa casa de dois quartos em Geribá, onde se amontoam 12 pessoas. Atrai quem consegue um trabalho de temporada e aluga uma quitinete na Rasa. Atrai quem aluga um ap num município vizinho, passa o dia nas tuas praias e volta a noitinha só pra dormir.
Ao mesmo tempo, um fenômeno ocorreu durante a pandemia de covid 19, que foi a vinda de cariocas e moradores de outros municípios do Estado, para seus imóveis de segunda residência, em busca de condições mais saudáveis, vida ao ar livre para a família, e menos aglomeração. Cresceu, assim, também, a demanda por serviços de qualidade e por uma infraestrutura compatível com o diferencial que você ainda tem. No entanto, no pós pandemia, muitos voltaram para sua primeira residência, e o que cresceu foi o aluguel desses imóveis por curta temporada, facilitado pelos recursos do Airbnb e similares.
Os dados que nos permitiriam entender a atual composição da população não existem ou estão desatualizados. Isso dificulta a formulação de políticas públicas mais adequadas. Entre 2015 e 2019, você figurava como o quinto destino brasileiro demandado pelo turismo internacional para fins de lazer, atrás apenas do Rio de Janeiro, Florianópolis, Foz do Iguaçu e São Paulo, segundo o Anuário Estatístico do Turismo de 2020. Hoje, fica difícil dizer se você ainda está com essa bola toda.
Aproximam-se novas eleições para prefeito e vereador. Eram previstas para outubro, como em todos os municípios brasileiros. Mas, devido à cassação da chapa do prefeito que estava em exercício, teremos uma eleição suplementar em abril, dia 28. Quem ganhar, exerce o mandato até 31 de dezembro de 2024. Depois, assume o vencedor das eleições de outubro. Seremos quase 30 mil eleitores votando. Mas se o número de abstenções for parecido com o das eleições de 2020, esse número se reduzirá em quase 25%.
Búzios, é hora de você assumir as rédeas e sair dessa posição ambígua entre a aldeia e a cidade. Você não é mais aldeia, mas também não é a cidade mais badalada do planeta, nem quer ser. Tua geografia e infraestrutura não comportam megashows, mega festas, mega ruídos, mega confusão. Não é bom para as pousadas, nem para o comércio (pelo menos para o comércio de qualidade), nem para os moradores, nem para os visitantes.
Recomende a seus filhos buzianos, aos seus frequentadores e simpatizantes, a todos que votam aqui, que não se deixem seduzir por quem pede voto em troca de um empreguinho ou de carta branca pra fazer uma obra ilegal ou de qualquer benesse do tipo. Diga a eles que caso sejam de alguma igreja, já sabem que são práticas condenáveis e vão ter dificuldade em se explicar lá nos portais do além. Se não forem crentes, nem praticarem uma religião, pensem no quanto isso acaba prejudicando a cidade, que está virando uma terra-de-ninguém.
Sugira aos futuros eleitores que se juntem a associações existentes, a grupos de cidadãos, para discutir qual Búzios preferem, o que querem mudar. Votar só não adianta. Tem que acompanhar, vigiar, participar. Afinal, é nosso dinheiro que está em jogo. Nossa cidade, nossos negócios, o futuro dos nossos filhos e netos, o lugar que escolhemos para viver ou visitar.
Uma vez num comício, um candidato a prefeito prometeu: se eu ganhar essas eleições, Búzios vai dar uma virada de 360 graus. Os eleitores se entreolharam, preocupados. O candidato acabou não ganhando, não se sabe até hoje se a culpa foi da geometria.
Búzios, você está na berlinda. Não nos decepcione.
Miriam Danowski é arquiteta, urbanista e otimista de plantão.





