Búzios, uma cultura híbrida

Em artigo para Agenda do Poder, o historiador Alan Câmara analisa a identidade buziana

Por Alan Câmara*

Ouço sempre a mesma pergunta de um amigo quando conversamos sobre a identidade buziana: o que queremos ser? A pergunta em si já denota a crise de identidade que nos afeta como sociedade; como se olhássemos no espelho e não víssemos o reflexo do espaço que ocupamos.

Somos o resultado do encontro de inúmeras culturas sobrepostas, que, mescladas ao longo do processo histórico, ofuscaram tradições nativas, costumes, estilo, charme e outras características que cultivamos e pelas quais também fomos influenciados ao longo das últimas décadas.

Búzios é um caso singular: uma pacata vila de pescadores que desapareceu após uma famosa atriz expô-la para o mundo. Esse é o paradoxo Brigitte Bardot, que se encantou por aquilo que  fez desaparecer.

Não é culpa dela! Pelo contrário! A revolução econômica dos anos seguintes à sua vinda, transformou a pequena aldeia, que vivia da pesca de subsistência e agricultura familiar, numa das principais potências do turismo no Brasil, sendo um dos destinos mais procurados do país. A partir dessa mudança na economia, o turismo fez florescer diversas atividades rentáveis, tanto para o nativo quanto para o forasteiro.

Não se sabe os motivos reais que fizeram Brigitte Bardot, em janeiro de 1964, se deslocar do Rio de Janeiro para um pequeno povoado habitado por pouco mais de 3 mil pessoas, localizado no interior do Rio de Janeiro, conhecido pela imprensa como “Búzios, a praia de Cabo Frio”. O que importa é que o efeito desse encontro (Búzios e Brigitte) foi estonteante para a atriz e se reproduziu exponencialmente, primeiro na elite carioca e paulista, e em seguida em pessoas de todo lugar do planeta, que passaram a visitar e habitar permanentemente a pequena vila nas décadas seguintes.

O efeito disso foi a simbiose entre nativo e forasteiro, que trouxe complexidades e dilemas sobre quem somos nós. Esse processo de hibridização da cultura fez desaparecer elementos importantes da sua concepção original, descobertos por Brigitte Bardot quando se encantou por Búzios.

Os hábitos, a gente, as celebrações, a religião, a arquitetura nativa e a arte, expressões das tradições e da cultura original buziana, compunham a cena em que Brigitte Bardot atuou como turista. Os fluxos migratórios e as camadas cosmopolitas que vieram nas décadas seguintes se mesclaram, absorveram e foram absorvidas e criaram o estilo de ser buziano. Alemães andavam descalços e nativos andavam de Volkswagen.

Nas décadas seguintes, essas relações tornaram-se conflituosas em meio a disputas entre nativos e forasteiros. Havia preconceito de que o nativo não era apto para dirigir o futuro da cidade e também xenofobia, no sentido de que os forasteiros não poderiam participar das decisões políticas. O resultado foi a separação e, consequentemente, a desfiguração da identidade cultural, o que resultou na indefinição de quem somos nós. Esse conflito, habitado por dois seres distintos que lutavam entre si, atrapalhou processos culturais, sociais e políticos que nos trouxeram ao estágio atual de incerteza identitária.

Essa incerteza identitária nos faz olhar para o futuro com preocupação sobre como Búzios será reconhecida; qual será o nosso diferencial em relação aos inúmeros destinos de sol e praia espalhados pelo Brasil. Também nos faz refletir sobre a importância de desenvolver mecanismos voltados para o fomento da economia criativa em ações conjuntas com os setores público e privado do turismo.

A cultura como política pública deve provocar os entes culturais e a sociedade no sentindo de compreender o que nos tornamos como sociedade; é necessária uma reflexão sobre o tema, iniciar um debate sobre tradição e contemporaneidade no que diz respeito ao nativo e ao forasteiro. Reconstituir as tradições nativas, compreender o processo de hibridização que moldou a cultura buziana contemporânea e promovê-las por meio de mecanismos e expressões culturais.

*Artista Plástico, historiador e pesquisador, é o atual secretário municipal de Cultura.

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