Brasileiros detidos nos EUA: 6 em cada 10 são deportados pelo ICE e maioria não responde por crimes

Levantamento revela que detenções mais que dobraram sob Donald Trump e que tempo médio para decisões judiciais caiu de 161 para 37 dias

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Seis em cada dez brasileiros detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) acabam deportados. O dado faz parte de um levantamento que revela o avanço das detenções de imigrantes durante o segundo governo de Donald Trump e mostra que a maioria dos brasileiros apreendidos não responde a acusações criminais.

As informações foram organizadas pelo Observatório das Deportações, projeto ligado à Universidade Estadual de Montes Claros, em Minas Gerais, a partir de registros obtidos pelo Deportation Data Project por meio da legislação americana de acesso à informação. Os números abrangem os anos de 2023 a 2026, com dados deste último ano disponíveis até agosto e ainda incompletos.

Segundo o levantamento, o número de brasileiros detidos nos dois primeiros anos do segundo governo Trump já supera em mais de duas vezes o registrado nos dois últimos anos da administração de Joe Biden.

Somente em 2026, até agosto, foram contabilizadas 3.650 detenções de brasileiros pelo ICE. Julho apresentou o maior número mensal do período, com 709 apreensões.

Maioria não responde por crimes

Um dos aspectos mais relevantes do levantamento é o perfil dos imigrantes brasileiros detidos. Quase 60% dos apreendidos nos últimos dois anos não foram formalmente acusados de nenhum crime.

Na maioria desses casos, a detenção ocorre porque o imigrante está nos Estados Unidos sem autorização migratória válida, situação que, por si só, configura uma infração civil, e não um crime.

Outros 30% dos brasileiros detidos respondem a acusações criminais, mas ainda não receberam sentença judicial. Os 10% restantes já foram condenados.

A base de dados não detalha os tipos de crimes atribuídos aos brasileiros. Segundo relatos obtidos pela Folha de S.Paulo junto a pessoas que acompanham esses processos, casos relacionados ao tráfico de drogas e à violência contra a mulher aparecem entre as ocorrências mencionadas.

As detenções estão concentradas principalmente na Costa Leste dos Estados Unidos, região que abriga uma parcela expressiva da comunidade brasileira.

Massachusetts lidera a lista de estados com mais apreensões, seguido por Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York. A idade média dos brasileiros detidos é de 34 anos.

Decisões judiciais ficam mais rápidas

O crescimento das detenções também coincide com uma redução expressiva no tempo médio entre a apreensão e a decisão judicial.

Em 2024, último ano do governo Biden, o prazo médio era de 161 dias. Em 2026, caiu para 37 dias.

Essa redução ocorre em meio ao aumento da demanda sobre o sistema migratório americano, que precisa processar um volume maior de casos.

Dependendo da situação, o imigrante pode solicitar à Justiça a possibilidade de responder ao processo em liberdade ou requerer o retorno voluntário ao país de origem.

Neste ano, aproximadamente 30% dos brasileiros detidos passaram a cumprir medidas de liberdade condicional enquanto aguardam uma decisão. Entre as condições possíveis estão o uso de tornozeleira eletrônica e a obrigação de comparecer periodicamente às autoridades.

O crescimento dessa modalidade ocorre em um momento de forte pressão sobre a capacidade de detenção do sistema migratório.

Crianças também são detidas

O levantamento revela ainda que centenas de crianças brasileiras foram apreendidas pelas autoridades migratórias americanas.

Nos dois primeiros anos do segundo governo Trump, foram registradas 569 detenções de menores brasileiros. Nos dois últimos anos da administração Biden, o número havia sido de 625.

Em geral, essas crianças são levadas junto com os pais, sob a justificativa de evitar que fiquem desacompanhadas. Segundo as informações reunidas, costumam ser liberadas após algumas horas ou dias, sem permanecer nas unidades de detenção prolongada do ICE.

Os homens representam a maior parcela dos brasileiros detidos. Considerando os quatro anos analisados, correspondem a aproximadamente 75% dos casos. Durante o governo Trump, essa proporção aumentou para 80%.

O antropólogo Julio D’Angelo Davies, coordenador do projeto responsável pela organização dos dados, avalia que esse perfil está relacionado à priorização de homens adultos nas ações de deportação.

Segundo a análise do pesquisador, muitos são responsáveis pelo sustento familiar, o que pode levar mulheres e crianças a também deixarem os Estados Unidos depois da deportação do principal provedor da casa.

Famílias brasileiras deixam os EUA

Além das deportações determinadas pelas autoridades americanas, cresce a preocupação com brasileiros que decidem retornar voluntariamente ao país diante do endurecimento da fiscalização migratória.

Essas saídas não são contabilizadas na base do Observatório das Deportações, o que impede dimensionar com precisão o número total de brasileiros que deixaram os Estados Unidos em consequência das mudanças na política migratória.

Um indicador desse movimento é o aumento da procura por documentação brasileira para crianças nascidas em território americano.

Em 2025, foram registradas mais de 21 mil solicitações de certidão de nascimento, contra aproximadamente 5.600 quatro anos antes.

Autoridades consulares relacionam esse crescimento à preocupação de famílias brasileiras com a possibilidade de precisar retornar ao Brasil, especialmente quando os filhos ainda não possuem documentação necessária para viajar.

A pressão também chegou aos consulados. Em Boston, por exemplo, são registrados, em média, dois novos casos diários envolvendo detenções, monitoramento eletrônico ou pedidos de assistência de mulheres com crianças.

Números podem ser ainda maiores

Os registros analisados consideram apenas as detenções realizadas pelo ICE. Isso significa que o total de brasileiros apreendidos por autoridades migratórias americanas pode ser superior ao apresentado.

Outra agência federal, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP), também realiza abordagens e detenções, especialmente na região de fronteira com o México.

Entre janeiro e maio de 2026, a CBP deteve 176 brasileiros nessa região. No mesmo período de 2024, o número havia ultrapassado 10,7 mil.

A diferença reflete mudanças na política de controle da fronteira. Durante a administração Biden, grande parte dos brasileiros interceptados recebia autorização temporária de entrada e permanência, conhecida como parole, em vez de permanecer detida.

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