Brasileiro detido pelo ICE durante entrevista de visto retorna ao Brasil após dois meses preso

Matheus Silveira desembarca em Belo Horizonte e família relata condições insalubres na detenção e falhas no processo de deportação

O brasileiro Matheus Silveira, de 30 anos, que estava detido nos Estados Unidos desde novembro de 2025 após ser preso durante uma entrevista para obtenção do green card, desembarcou nesta quinta-feira (12) em Belo Horizonte. A informação foi publicada pelo g1 e confirmada pela mãe dele, Luciana Silveira. Ao chegar ao país, ele foi recebido pelo programa “Aqui é Brasil”, iniciativa do governo federal voltada a brasileiros repatriados.

Matheus havia sido preso em 24 de novembro, em San Diego, na Califórnia, durante a etapa final do processo para regularizar sua situação migratória. Casado desde 2024 com a americana Hannah Silveira, ele aguardava a aprovação da residência permanente nos Estados Unidos quando foi surpreendido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE).

Relatos de superlotação e alimentação precária

Segundo a esposa, as condições enfrentadas por Matheus nas unidades de detenção foram degradantes. Em entrevista ao Bom Dia Rio, Hannah afirmou que o marido perdeu peso no período em que ficou sob custódia e descreveu a alimentação como insuficiente. “Não é suficiente para um homem adulto, como se servissem lanches estudantis”, relatou.

Ela também contou que ele chegou a dormir no chão por causa da superlotação. A cela onde estava abrigava 16 camas, mas, conforme o relato, o número de detidos ultrapassava a capacidade do espaço.

A mãe de Matheus descreveu o período como angustiante. “Dois meses dele nessa situação é muito tempo, é muito tempo para mim, é muito tempo para ele, é muito tempo para todos nós. Então, a gente só tá pensando agora na chegada dele aqui, urgente, o mais rápido possível”, afirmou Luciana antes da chegada do filho ao Brasil.

Prisão durante entrevista para green card

De acordo com Hannah, o casal participava da entrevista final no escritório do U.S. Citizenship and Immigration Services (USCIS), quando a agente responsável informou que havia “pessoas no corredor” aguardando por eles. Em seguida, quatro agentes do ICE entraram na sala e efetuaram a prisão, alegando existir um mandado relacionado à permanência de Matheus no país após o vencimento do visto de estudante.

O visto F-1 dele expirou em 2023. Após o casamento, em 2024, Matheus deu entrada no pedido de green card, direito previsto na legislação americana para estrangeiros casados com cidadãos dos Estados Unidos. A esposa afirma que o vencimento do visto ocorreu durante o período da pandemia de coronavírus.

Em nota enviada à revista americana Newsweek, a secretária-assistente do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, declarou que Matheus foi preso como um “estrangeiro ilegal criminoso do Brasil que permaneceu no país após o vencimento do visto de estudante F-1” e que permaneceria sob custódia enquanto aguardava os procedimentos de remoção. A família contesta o uso do termo “criminoso” e afirma que ele não possui antecedentes criminais.

Autodeportação e impedimento de retorno

Matheus assinou um termo de autodeportação voluntária, o que, segundo familiares, lhe garantiria o direito de retornar ao Brasil em voo comercial — o que não ocorreu. O acordo firmado com as autoridades americanas impede que ele volte aos Estados Unidos pelos próximos dez anos.

Hannah decidiu deixar o país natal para acompanhar o marido no Brasil. Ex-integrante do Exército americano, onde atuou por dois anos como paramédica antes de iniciar os estudos em Direito na Califórnia, ela afirma não se sentir mais segura em território americano.

“É de partir o coração saber que dei tanto pelo meu país e eles não têm problema nenhum em me tirar o meu marido e me forçar a escolher entre o meu país e o meu marido”, desabafou.

O casal está junto desde 2022 e oficializou a união em 2024. No Brasil, Hannah terá de recomeçar a carreira, já que sua formação em Direito não possui validação automática no país.

Matheus, que sonha em se tornar piloto de avião, iniciou o curso ainda no Brasil e pretendia dar continuidade à formação nos Estados Unidos após aperfeiçoar o inglês. Agora, com o retorno forçado e a proibição de entrada em solo americano por uma década, os planos do casal terão de ser reconstruídos a partir do Brasil.

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