O Brasil registrou 44.127 mortes violentas intencionais em 2024, o menor número desde o início da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012. A taxa nacional foi de 20,8 por 100 mil habitantes, o índice mais baixo já apurado, com queda de 5,4% em relação a 2023. Apesar do avanço, o país contabilizou 81.873 desaparecimentos no mesmo período — parte deles, segundo especialistas, pode esconder assassinatos cometidos por facções criminosas.
O levantamento, divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reúne dados das secretarias estaduais de segurança e considera como mortes violentas intencionais os casos de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes por intervenção policial, tanto em serviço quanto fora dele.
Samira Bueno, diretora executiva do Fórum, destaca que os dados positivos devem ser vistos com cautela: “As duas facções do Sudeste, que inauguraram no Brasil algumas práticas para sumir com os corpos, operam hoje em rede nacional. Quando a gente vê um crescimento de 5% dos desaparecimentos e a queda dos homicídios, é um sinal que esses números podem esconder um outro fenômeno”, afirmou, em referência ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV).
Brasil ainda lidera ranking global de homicídios absolutos
Mesmo em queda, a violência letal no Brasil ainda é elevada. Em números absolutos, o país segue como o que mais registra homicídios no mundo. Em termos relativos, ocupa a 16ª posição entre os 103 países com dados reportados ao UNODC, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
As regiões Nordeste (33,8 por 100 mil) e Norte (27,7 por 100 mil) concentram as maiores taxas. O Amapá lidera pelo segundo ano consecutivo (45,1), seguido por Bahia (40,6), Ceará (37,5), Pernambuco (36,2) e Alagoas (35,4).
Entre os poucos estados com aumento nas taxas de mortalidade em 2024, destacam-se Maranhão (12,1%), Ceará (10,9%), São Paulo (7,5%) e Minas Gerais (5%). No Maranhão, o crescimento foi impulsionado por homicídios dolosos, latrocínios e mortes por intervenção policial. No Ceará, o avanço foi generalizado. Em São Paulo, a alta se deveu a latrocínios, lesões seguidas de morte e aumento da letalidade policial. Minas teve crescimento nos homicídios dolosos e em mortes provocadas por policiais.
Nordeste concentra as cidades mais violentas
Pela primeira vez, todas as dez cidades mais violentas do Brasil estão localizadas no Nordeste, sendo cinco na Bahia, três no Ceará e duas em Pernambuco. Esses municípios enfrentam disputas intensas entre facções pelo controle do narcotráfico. A letalidade policial também tem papel relevante em algumas localidades.
A cidade mais violenta do país em 2024 foi Maranguape (CE), na região metropolitana de Fortaleza, com taxa de 79,9 por 100 mil habitantes. O município de 108 mil moradores é cenário de confronto entre o CV e a facção local Guardiões do Estado (GDE).
Jequié, na Bahia, subiu para a segunda posição, com taxa de 77,6. Em 131 mortes violentas registradas no ano, 44 foram causadas por intervenções policiais — uma em cada três mortes. Juazeiro, também na Bahia, aparece em terceiro lugar, com taxa de 76,2. A cidade é marcada pela interiorização da violência e pela atuação de grupos como o Bonde dos Malucos (BDM) e a dissidência Honda 34.
“Dos três estados do Nordeste que concentram as dez cidades mais violentas, na Bahia a polícia é parte do problema. Se a polícia implementasse mecanismos de controle do uso da força, possivelmente a Bahia sairia rapidamente do ranking”, afirmou Samira Bueno.
Fatores que explicam a redução da letalidade
Três principais razões explicam a tendência de queda nos homicídios:
- Mudança demográfica: O Brasil reduziu sua população de adolescentes e jovens — faixa etária mais vulnerável à violência letal — entre 2004 e 2020, o que impacta diretamente os índices.
- Políticas públicas de segurança: Diversos estados implementaram programas de prevenção à violência em territórios críticos, modernizaram a gestão das polícias e adotaram tecnologias e inteligência para combater o crime.
- Trégua entre facções: Após o conflito sangrento entre PCC e CV em 2016 e 2017, houve uma espécie de armistício entre os grupos, o que contribuiu para a queda da violência nos anos seguintes, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Letalidade policial em alta
As mortes provocadas por policiais também chamam atenção. Em 2017, elas representavam 8,1% das mortes violentas do país. Em 2024, esse índice subiu para 14,1%. O dado reforça a urgência do debate sobre o uso da força e a necessidade de controle externo das ações das polícias, principalmente em estados como a Bahia, onde a violência institucional tem peso considerável na estatística geral.
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