O Brasil desponta como um dos países com maior potencial para liderar a transição energética global, graças à elevada participação de fontes renováveis em sua matriz energética e à possibilidade concreta de atrair investimentos verdes, informa reportagem do jornal O GLOBO. No entanto, especialistas alertam que essa vantagem pode se transformar em acomodação, comprometendo o papel do país na construção de uma economia de baixo carbono.
O alerta foi feito durante o evento “COP30 Amazônia, transição energética e mercado de carbono”, realizado no dia 18 de junho, no Rio de Janeiro, pelos jornais Valor Econômico, O GLOBO e a rádio CBN. A conferência integrou a segunda etapa do projeto “COP30 Amazônia”, que discute o papel do Brasil na preparação para a conferência climática da ONU de 2025, que será sediada em Belém (PA).
No painel “Transição energética e oportunidades para o Brasil”, mediado por Francisco Góes, chefe da sucursal do Valor no Rio, os participantes destacaram que o país possui uma matriz energética consideravelmente mais limpa do que a média dos países da OCDE. Cerca de 50% da energia brasileira é proveniente de fontes renováveis — ante apenas 15% entre os países desenvolvidos. No que se refere à geração de eletricidade, esse percentual sobe para quase 90%.
Indústria verde e marcos regulatórios
Para Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (Abeeólica), o momento é estratégico. O Brasil, segundo ela, está diante de uma oportunidade de reindustrializar sua economia apostando em cadeias produtivas movidas por energias renováveis.
— Consigo enxergar mais oportunidades do que desafios, justamente porque o Brasil pode ser um importante provedor de soluções para transição energética e atrair investimentos. O Brasil tem uma das matrizes mais renováveis do mundo — afirmou.
Elbia destacou que, nos últimos quatro anos, o Congresso Nacional aprovou marcos regulatórios que dão suporte à transformação ecológica proposta pelo governo federal. Entre os avanços, estão as leis do hidrogênio verde, das eólicas offshore, a criação do mercado regulado de carbono e o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), voltado ao incentivo de projetos que substituem fontes poluentes por renováveis.
Excesso de ambição e risco de estagnação
Apesar das vantagens competitivas, especialistas alertam para um problema recorrente: a descontinuidade das políticas públicas e a falta de execução dos planos anunciados. Para Bárbara Rubim, vice-presidente do conselho diretor da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil sofre por estar sempre em busca da “próxima grande solução”, sem concluir o que foi iniciado.
— Nossa excelência pode ser nosso principal inimigo na transição energética. Temos o desafio de assegurar que a transição se concretize de maneira justa. E que as fontes consigam entregar uma energia justa e barata — disse.
Bárbara apontou como tendência a chegada de tecnologias emergentes, como hidrogênio verde, energia nuclear e sistemas de armazenamento de energia, além da instalação de grandes data centers, que exigirão ainda mais capacidade e estabilidade energética.
Desafios técnicos e regionais
Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente, classificou como “impressionantes” os avanços recentes na geração de energia renovável no Brasil. Um exemplo é o crescimento da energia solar, que passou de 10 gigawatts (GW) de potência instalada em 2020 para quase 60 GW em 2025.
Apesar disso, ele alertou para os riscos ligados ao crescimento de fontes intermitentes, como solar e eólica, que ainda enfrentam desafios para alinhar geração e consumo. Eventos climáticos extremos, como ondas de calor, também pressionam o sistema.
— Temos um paradoxo de ter um risco eventual no Brasil. Os eventos climáticos, como ondas de calor, geram novos desafios. Temos que entender como reduzimos as perdas com cortes de energias renováveis — avaliou.
Baitelo destacou ainda que a dimensão continental do país exige estratégias regionais de transição. O principal gargalo, segundo ele, são os sistemas isolados de energia, que atendem comunidades afastadas das grandes redes e com baixo desenvolvimento socioeconômico.
Críticas ao Congresso e risco de retrocessos
Os participantes também criticaram emendas parlamentares que, segundo eles, distorcem projetos importantes por interesses setoriais. Em especial, foi mencionada a derrubada de vetos presidenciais a “jabutis” inseridos no projeto de lei do marco das eólicas offshore — dispositivos sem relação com o texto original, mas que geram impacto significativo no setor elétrico.
Segundo estimativas do mercado, essas medidas podem encarecer as contas de luz em R$ 197 bilhões nos próximos 25 anos.
— Não faz mais sentido manter subsídios ao setor de energia. O setor já é maduro. Esse tipo de interferência pode atrapalhar a execução de projetos e desviar o foco do que realmente importa: a transição energética justa — criticou Elbia Gannoum.
COP30 no horizonte
O projeto “COP30 Amazônia” — patrocinado por Eletrobras, JBS e Vale, com apoio dos governos do Pará e Acre, BNDES e Suzano — pretende preparar o debate nacional para a conferência climática da ONU de 2025, que ocorrerá em Belém.
Com uma matriz energética já bastante descarbonizada, o Brasil entra nesse cenário com vantagens evidentes. Mas, segundo os especialistas, a liderança só será efetiva se vier acompanhada de planejamento consistente, execução eficaz e compromisso com uma transição que alcance toda a sociedade.





