Boulos diz que esquerda errou ao não ouvir trabalhadores de app e promete gestão pautada por diálogo

Ministro defende escuta popular, promete regulamentar aplicativos e aposta em aproximação com evangélicos e pequenos empreendedores

De capacete e colete, um grupo de entregadores por aplicativo se reuniu na porta da Secretaria-Geral da Presidência, no quarto andar do Palácio do Planalto, na última quinta-feira. O novo ministro, Guilherme Boulos (PSOL), recém-empossado, deixou o gabinete para cumprimentar um a um os trabalhadores — um gesto simbólico que marcou uma de suas primeiras agendas oficiais no cargo.

Boulos, que ganhou notoriedade como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), pretende recolocar o governo federal em contato direto com categorias populares e informais. Em entrevista ao jornal O Globo, ele defende que a esquerda cometeu erros ao tentar impor soluções aos trabalhadores de aplicativo sem antes ouvi-los, e promete que sua gestão será pautada pelo diálogo.

“A esquerda errou muitas vezes — e aqui não é o governo — porque sempre colocou o que quer para os trabalhadores dessas novas formas de trabalho. Poucas vezes parou para ouvir o que eles querem”, afirmou o ministro em entrevista ao jornal O Globo.

Regulamentação do trabalho por aplicativo

Entre as principais metas do novo ministro está destravar a proposta de regulamentação do trabalho por aplicativo, uma promessa feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda na campanha de 2022. O texto original do governo, apresentado em 2024, travou no Congresso diante de divergências sobre o modelo de remuneração e contribuição previdenciária.

Boulos reconhece a importância da primeira iniciativa, mas propõe ajustes. “Os trabalhadores querem uma garantia, mas a remuneração mínima tem um peso maior para eles. Por que as plataformas ficam com uma fatia tão relevante de cada viagem? Só pela intermediação tecnológica? Isso precisa ser regulamentado”, questionou.

Segundo ele, grupos de trabalho com entregadores e pequenos empreendedores serão criados até maio, em paralelo a uma caravana nacional para “ouvir as bases” e aproximar o governo de setores da sociedade civil.

Relação com evangélicos e movimentos sociais

O ministro também destacou a necessidade de retomar o diálogo com os evangélicos, grupo majoritário nas periferias urbanas e com o qual a esquerda tem dificuldade de interlocução. “Quero dialogar com evangélicos, católicos, gente de todas as religiões. Se o presidente me der essa atribuição, farei com gosto”, afirmou.

Ele lembrou que o MTST, movimento do qual é fundador, tem forte presença de pastores e fiéis. “É essencial para o futuro das ideias progressistas no Brasil destravar a conexão com milhões de evangélicos nas periferias”, disse.

Política, polarização e o embate com Castro

Sobre a polarização política no país, Boulos afirmou que “ela está aí” e que os partidos que tentam se manter neutros “estão definhando”. Ele também rebateu críticas de que o governo teria dado uma guinada à esquerda com sua nomeação. “Quem teve 60 milhões de votos para conduzir o governo é o presidente Lula. Ele vai definir a minha atuação.”

Questionado sobre sua recente crítica ao governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, após a operação policial mais letal da história do estado, o ministro foi direto. “O que acirra é o governador, depois de fazer uma operação sem pedir ajuda, querer jogar a conta no governo federal. Uma coisa é ter relação institucional, outra é apanhar calado. Cada ataque vai ter resposta”, declarou.

Agenda econômica e relação com Haddad

Boulos também comentou divergências entre seu partido e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo ele, o PSOL não é contrário à política econômica do governo. “O partido apoiou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a tributação de super-ricos. Eu não estou mais na bancada nem respondo por ela”, explicou.

Sobre o fim da escala 6×1, bandeira antiga de movimentos trabalhistas, o ministro reconheceu as dificuldades políticas. “O governo fez movimentos, mas não comanda o Congresso. O projeto do Imposto de Renda ficou seis meses parado na gaveta. A posição do presidente Lula é pelo fim da escala 6×1 e vamos intensificar o trabalho para que avance no Legislativo.”

Eleições e sucessão de Lula

Questionado sobre planos eleitorais, Boulos evitou projetar o futuro. “Acho muitas vezes até desrespeitoso a forma como se coloca esse debate. Ele (Lula) é presidente do Brasil pela terceira vez e será eleito novamente no ano que vem. Fazer um debate sobre sucessão é extemporâneo.”

Sobre uma eventual candidatura em São Paulo em 2026, o ministro desconversou. “A minha perspectiva é ficar no governo até o final. Se eu tiver que me desincompatibilizar para ser candidato, não vou ter nem seis meses de trabalho.”

Indicações ao Supremo e agenda identitária

Ao comentar as indicações de Lula ao Supremo Tribunal Federal, Boulos evitou críticas. “O dia que eu tiver 60 milhões de votos, posso comentar. Isso é prerrogativa presidencial. Mas é importante dizer: Lula é o presidente que mais indicou mulheres e pessoas negras no Judiciário.”

Ele acrescentou que a sub-representação de mulheres e negros nas instituições “tem que ser enfrentada”, mas que o atual presidente “foi quem mais fez para diminuí-la”.

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