O menor número de homicídios registrado no Brasil desde 1998 pode estar relacionado não apenas ao aprimoramento das políticas de segurança pública, mas também ao fortalecimento de programas sociais. A avaliação é do pesquisador Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em artigo publicado pelo jornal O Globo.
Segundo dados apresentados no Atlas da Violência 2026, o país alcançou em 2024 o menor índice oficial de homicídios das últimas décadas. Entre os fatores tradicionalmente apontados para essa redução estão o envelhecimento da população, a adoção de políticas de segurança orientadas por resultados e uma relativa estabilização dos conflitos entre grandes facções criminosas.
Para Cerqueira, no entanto, a análise fica incompleta sem considerar os impactos das políticas sociais na redução da violência.
Política social e prevenção da violência
O especialista destaca que estudos da criminologia mostram que a violência letal está associada a fatores como pobreza, desigualdade, baixa escolaridade, falta de oportunidades de trabalho e ausência de perspectivas para o futuro.
Nesse contexto, programas de transferência de renda exercem um papel relevante ao reduzir vulnerabilidades sociais que podem contribuir para o aumento da criminalidade.
De acordo com o artigo publicado em O Globo, o homicídio raramente ocorre de forma isolada. Ele costuma ser resultado de um conjunto de condições adversas acumuladas ao longo do tempo, especialmente em regiões marcadas pela exclusão social.
Expansão do Bolsa Família transformou indicadores sociais
Em 2002, os programas federais de transferência de renda atendiam aproximadamente 6,5 milhões de famílias. Em 2024, o Bolsa Família já alcançava 20,8 milhões de lares brasileiros.
Estudos do Ipea citados por Cerqueira mostram que, nesse período, a renda domiciliar per capita teve crescimento real de 70%, enquanto a desigualdade caiu 16%. A extrema pobreza, por sua vez, registrou retração de cerca de 80%.
Os dados também apontam avanços na educação. Comparando os Censos Demográficos de 2000 e 2022, a taxa de escolarização entre jovens de 15 a 17 anos aumentou 7,9 pontos percentuais. Parte desse resultado está associada à ampliação do Bolsa Família para famílias com adolescentes nessa faixa etária.
Pesquisas relacionam programa à redução de crimes violentos
Pesquisadores do Banco Mundial e do Insper identificaram, por meio de métodos de análise causal, que a expansão do Bolsa Família contribuiu para a diminuição de crimes violentos, incluindo homicídios.
Segundo os estudos mencionados por Daniel Cerqueira, o programa gerou efeitos combinados de aumento da renda, redução da desigualdade e maior permanência dos jovens nas escolas, fatores que ajudaram a diminuir situações de risco social.
O pesquisador ressalta que não se trata de atribuir exclusivamente ao Bolsa Família a queda da violência, mas de reconhecer que melhorias significativas nas condições de vida de milhões de brasileiros também impactam os indicadores de segurança pública.
Segurança pública e inclusão social devem caminhar juntas
Para o especialista, a principal conclusão é que uma política criada para combater a pobreza acabou produzindo efeitos positivos também na área da segurança pública.
Cerqueira afirma que essa constatação não diminui a importância das ações policiais, da investigação criminal, do combate ao crime organizado, do controle de armas ou da gestão do sistema prisional.
A análise defende que repressão qualificada e prevenção social não são estratégias concorrentes, mas complementares. A combinação entre políticas de segurança eficientes e investimentos sociais aparece como um dos caminhos mais promissores para consolidar a redução dos homicídios no Brasil.
Ao final do artigo, o pesquisador destaca que proteger vidas envolve tanto impedir crimes quanto criar condições para que jovens não sejam empurrados para trajetórias marcadas pela violência, pela exclusão e pela morte precoce.






Deixe um comentário