Boletim Focus: mercado eleva previsão da inflação e dos juros às vésperas de decisão do Copom

Relatório do Banco Central aponta piora das expectativas para o IPCA, alta da projeção da Selic e avanço do dólar, enquanto economistas mantêm aposta em corte de juros nesta semana

As expectativas do mercado financeiro para a economia brasileira voltaram a se deteriorar às vésperas de mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (15) mostra que economistas elevaram novamente as projeções para a inflação e para a taxa básica de juros no fim deste ano, refletindo um cenário de maior cautela diante das pressões inflacionárias observadas nos últimos meses.

Apesar da revisão para cima das expectativas, os analistas mantiveram a previsão de que o Banco Central promoverá um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic ao final da reunião que começa nesta terça-feira (16) e termina na quarta-feira (17).

A pesquisa semanal, que reúne estimativas de instituições financeiras consultadas pelo Banco Central, indica uma percepção mais pessimista em relação ao controle da inflação, ao mesmo tempo em que aponta uma ligeira melhora nas perspectivas de crescimento da economia.

Inflação se afasta da meta

A principal revisão ocorreu nas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país.

A expectativa para 2026 passou de 5,11% para 5,30%, atingindo o maior patamar registrado neste ano nas projeções do mercado.

Com isso, a estimativa permanece significativamente acima do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central. O objetivo central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, o que estabelece um limite máximo de 4,5%.

A nova elevação marca a 14ª semana consecutiva de alta nas projeções para a inflação.

Segundo analistas, o movimento reflete, entre outros fatores, os impactos recentes das tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente os efeitos provocados pela guerra envolvendo o Irã e seus reflexos sobre os preços internacionais da energia.

As projeções para os anos seguintes também foram revisadas.

Para 2027, a expectativa de inflação subiu de 4,03% para 4,10%. Já para 2028, a estimativa passou de 3,65% para 3,68%.

Os números reforçam a avaliação de que o processo de convergência da inflação para a meta poderá ser mais lento do que o esperado anteriormente.

Mercado vê juros mais altos no fim do ciclo

Além da inflação, as projeções para a taxa Selic também foram elevadas.

A expectativa para o encerramento de 2026 passou de 13,50% para 13,75%.

Mesmo assim, os economistas consultados continuam apostando que o Copom iniciará um novo ciclo de flexibilização monetária nesta semana, reduzindo a taxa básica de juros dos atuais 14,50% para 14,25%.

A avaliação predominante é que, apesar das pressões inflacionárias, o Banco Central poderá considerar sinais de desaceleração econômica e os efeitos acumulados da política monetária restritiva adotada nos últimos meses.

As estimativas para os anos seguintes também foram ajustadas.

Para 2027, a previsão da Selic passou de 11,50% para 12%. Em 2028, a projeção foi elevada de 10% para 10,25%.

As revisões indicam que o mercado espera juros elevados por um período mais prolongado, refletindo a dificuldade de trazer a inflação para níveis compatíveis com a meta oficial.

Dólar também tem projeção revisada

O boletim mostra ainda uma revisão nas expectativas para a taxa de câmbio.

A previsão para o dólar ao final deste ano passou de R$ 5,15 para R$ 5,20.

A alta reflete um ambiente internacional mais volátil e a cautela dos investidores diante das incertezas relacionadas à economia global, aos conflitos geopolíticos e às decisões de política monetária das principais economias do mundo.

A valorização da moeda americana costuma pressionar preços internos ao encarecer produtos importados e insumos utilizados pela indústria nacional.

PIB apresenta melhora moderada

Enquanto inflação, juros e câmbio tiveram projeções revisadas para cima, as expectativas para o crescimento econômico mostraram uma leve melhora.

A estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 passou de 1,91% para 1,96%.

Embora a revisão seja modesta, ela sugere uma visão um pouco mais favorável sobre a atividade econômica brasileira nos próximos meses.

Para os anos seguintes, as projeções permaneceram inalteradas.

O mercado continua prevendo crescimento de 1,7% em 2027 e expansão de 2% em 2028 e 2029.

Os números indicam que os analistas ainda enxergam um cenário de crescimento moderado para a economia brasileira no médio prazo.

Impacto do cenário internacional

As projeções divulgadas pelo Focus foram consolidadas na última sexta-feira (12), antes do anúncio do acordo preliminar de paz entre Estados Unidos e Irã divulgado no domingo (14).

Até então, as tensões no Oriente Médio vinham alimentando preocupações com o abastecimento global de petróleo, especialmente em razão das restrições impostas ao tráfego no estreito de Hormuz, uma das principais rotas de exportação de petróleo do mundo.

A elevação dos preços internacionais da commodity foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a piora das expectativas inflacionárias.

Agora, analistas acompanharão os desdobramentos do acordo e seus efeitos sobre o mercado de energia, uma vez que a eventual normalização do fluxo marítimo na região poderá aliviar parte das pressões sobre combustíveis e inflação nos próximos meses.

Enquanto isso, as atenções permanecem voltadas para a reunião do Copom, cuja decisão será acompanhada de perto por investidores, empresários e consumidores em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária brasileira.

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