Blocos de concreto reduzem entrada de carretas roubadas na Maré e PM quer ampliar estratégia para outras comunidades

“Barricadas da PM” restringem entrada de carretas roubadas em locais dominados por facções, mas enfrentam críticas de moradores e ONGs

A Polícia Militar do Rio de Janeiro tem adotado uma medida incomum para conter o roubo de cargas na Zona Norte da cidade: a instalação de blocos de concreto, conhecidos como Jersey, em vias de acesso ao Complexo da Maré. A estratégia, que teve início em setembro do ano passado e foi expandida em março, já surte efeitos: desde então, nenhuma carreta roubada foi levada para dentro do conjunto de favelas, segundo dados do 22º BPM (Maré). A informação foi divulgada pelo jornal Extra.

Atualmente, 12 dos 22 acessos ao interior do complexo contam com os blocos, que dificultam a entrada de veículos de grande porte — os preferidos pelos criminosos para transportar mercadorias roubadas. O secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, destacou que o sucesso da medida tem inspirado o comando da corporação a adotar estratégias semelhantes em outras regiões da Região Metropolitana:

— A iniciativa do 22º BPM (Maré), que conseguiu reduzir a zero os roubos de carga na região do Complexo da Maré, está servindo de modelo para o comando da corporação adotar estratégias semelhantes em outras áreas da Região Metropolitana, com o mesmo objetivo.

Apesar dos resultados positivos, o desafio da ocupação efetiva da Maré permanece. Conforme mostrou o Extra, um projeto prometido há 15 anos para instalar o Complexo de Operações Especiais da PM nas imediações do Parque União — uma das comunidades da região — não saiu do papel. O terreno, adquirido por R$ 32 milhões, deveria abrigar batalhões do Comando de Operações Especiais (COE), mas segue desocupado. A ausência de presença estatal acabou favorecendo o avanço do crime organizado.

Segundo a Polícia Militar, ainda não há definição sobre os próximos locais a receberem os Jerseys. No entanto, a corporação já estabeleceu critérios: as regiões devem ter alto índice de circulação de produtos roubados em veículos pesados e uma localização estratégica que facilite a fuga de criminosos para áreas de difícil acesso.

A decisão de instalar os blocos surgiu diante da recorrência de roubos de carga, inclusive com casos de deslocamentos longos até a Maré. O tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do 22º BPM, relembra um episódio em que uma carreta interceptada em Duque de Caxias foi levada até a comunidade:

— Além de roubarem a carga, eles (criminosos) entravam nesses locais em alta velocidade. É difícil manobrar uma carreta. Eles entravam de uma forma muito veloz, colocando a vida de pessoas, moradores e policiais, em risco.

Obstáculos e críticas

Os blocos foram inicialmente posicionados na Nova Holanda, área sob domínio do Comando Vermelho. Em seguida, também foram implantados na Vila do João e na Vila dos Pinheiros, onde o controle é do Terceiro Comando Puro (TCP). O Complexo da Maré é formado por 15 comunidades cercadas pelas principais vias expressas do Rio — as linhas Amarela e Vermelha, além da Avenida Brasil — o que favorece a logística de quadrilhas especializadas.

O comandante Corbage afirma que os blocos não visam restringir o direito de ir e vir dos moradores, e que serviços essenciais, como coleta de lixo e entregas, continuam acessando as comunidades. Ele também destaca que o batalhão monitora diariamente possíveis alterações nas rotas dos criminosos, para ajustar a localização dos Jerseys. No entanto, ele admite que não é possível bloquear todos os acessos:

— É muito difícil instalar blocos em todas as entradas da Maré, porque em algumas delas o espaço é insuficiente para a passagem de veículos grandes.

Segundo levantamento do Instituto de Segurança Pública (ISP), em março de 2025 houve uma redução de 55% nos registros de roubo de cargas na Área Integrada de Segurança Pública (AISP) 22 — que inclui, além da Maré, os bairros de Benfica, Bonsucesso, Higienópolis, Manguinhos e Ramos — em comparação com março de 2024. Foram registrados nove casos, ante 20 no ano anterior.

Setor de transportes apoia, ONG critica

Filipe Coelho, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas e Logística do Rio (Sindicarga), defende a medida:

— A extensão da adoção dessa medida é apoiada pelo Sindicarga, pois, notadamente, veículos de grande porte somente entram em comunidades se são produtos de roubo. As empresas de transporte não utilizam veículos desse porte para entregas em comunidades, por conta das restrições de circulação.

A corporação agora avalia quais regiões do Rio atendem aos critérios para replicar a estratégia dos blocos. A expectativa é que o modelo ajude a conter o avanço do crime organizado em outras áreas críticas da capital e da Região Metropolitana.

Já Eliana Souza, diretora da ONG Redes da Maré, diz que a PM se vale de estratégia usada pelas facções do crime:

— É estranho que a PM utilize um recurso que, historicamente, questiona: o fato de redes ilícitas colocarem esse tipo de barreira para impedir a entrada da polícia.

O porta-voz da PM, major Maicon Pereira, afirma que a ação tem base em estudos e não pretende imitar práticas do tráfico:

— A medida é resultado de pesquisa sobre a estratégia que poderia ser usada para diminuir o roubo de cargas na Maré.

Eliana de Souza, entretanto, enfatiza que a estratégia causa gera “transtorno” à circulação de moradores e serviços na comunidade.

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