Bets avançam sobre a cultura e impõe dilema a artistas

Empresas de apostas já destinaram R$ 11,8 milhões a projetos via Lei Rouanet e ampliaram presença em festivais, shows e festas populares, enquanto governo prepara novas restrições ao setor

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Depois de ocupar camisas de clubes, transmissões esportivas e estádios, as empresas de apostas on-line avançam agora sobre a cultura brasileira. Festivais, turnês, festas populares e projetos beneficiados pela Lei Rouanet tornaram-se vitrines para um setor que movimenta cifras milionárias, mas também desperta preocupação por seus efeitos sobre a saúde mental e o orçamento das famílias.

A chegada desse dinheiro impôs um dilema a artistas e produtores: aceitar os recursos e associar a própria imagem a uma atividade controversa ou recusar o patrocínio e correr o risco de perder espaço em um mercado competitivo, no qual a captação costuma definir se um projeto será realizado.

A música é a principal porta de entrada. A Superbet afirma ter destinado quase R$ 150 milhões a patrocínios culturais entre 2025 e 2026 no Rio e em São Paulo. A empresa já apoiou eventos como Rock in Rio, Lollapalooza e o Carnaval carioca.

Patrocínios chegam à Lei Rouanet

Por meio da Lei Rouanet, casas de apostas destinaram R$ 11,8 milhões a projetos culturais desde 2025. Dados do Salic, plataforma do Ministério da Cultura, mostram R$ 6 milhões captados no ano passado e outros R$ 5,8 milhões em 2026.

Embora represente uma parcela pequena diante dos R$ 3,4 bilhões captados pelo mecanismo em 2025, o movimento revela uma nova estratégia de expansão das marcas. Como a Rouanet permite que patrocinadores abatam do Imposto de Renda valores destinados a projetos previamente aprovados, as bets conseguem ampliar a exposição com incentivo fiscal.

A Kaizen Gaming, responsável pela Betano, lidera os aportes do segmento. A empresa destinou R$ 5 milhões ao Réveillon de Copacabana. A repetição do patrocínio, porém, foi inviabilizada por decreto da Prefeitura do Rio que proibiu a participação de empresas de apostas em eventos contratados, realizados ou patrocinados pelo município.

Também aparecem entre as patrocinadoras de projetos culturais Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet. Os recursos chegaram a eventos em Maresias e no Guarujá, à Oktoberfest de Blumenau, a peças teatrais e a planos de atividades de instituições culturais.

Artistas estabelecem limites

A presença das empresas nos palcos provoca reações mesmo entre artistas contratados para eventos patrocinados pelo setor. No festival Village, no Rio, o logotipo da Superbet próximo ao telão foi coberto antes da apresentação de Marisa Monte. Anitta, que também participou do evento, declarou nas redes sociais que não aceita vincular seu nome às bets.

Caetano Veloso apresentou-se no Arena Brasileira, igualmente patrocinado pela empresa, mas, segundo a produtora Paula Lavigne, o contrato impediu que a imagem do cantor fosse associada à marca. Lavigne é fundadora do movimento 342 Artes, que liderou a campanha “Block do Tigrinho”, apoiada por nomes como Emicida e Camila Pitanga.

Lavigne ressalta que o avanço das bets foi tão rápido e tão profundo que elas passaram a ocupar lugares centrais da vida cultural brasileira, apesar das consequências que já conhecidas. Para ela, há diferença entre artistas com condições de rejeitar contratos e profissionais que dependem desses espaços para trabalhar.

No sertanejo, o empresário de Simone Mendes disse que a cantora recusou um contrato de R$ 64 milhões para divulgar plataformas. Ana Castela também declarou que não promove casas de apostas.

Vício atinge sobretudo a baixa renda

O debate ultrapassa o campo da publicidade. A dinâmica das plataformas — marcada por acesso permanente, recompensas rápidas e tentativas de recuperar perdas — pode estimular comportamento compulsivo, endividamento, isolamento social e conflitos familiares.

Pesquisa do DataSenado apontou que 22,13 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a 13% dessa população, fizeram apostas esportivas no período de 30 dias analisado. Entre os apostadores, 52% tinham renda familiar de até dois salários mínimos, indicativo de que a expansão alcança com força as camadas mais vulneráveis.

O Ministério da Fazenda reconhece que o chamado jogo problemático pode provocar vício, endividamento excessivo e danos emocionais. A pasta criou regras de prevenção, identificação de comportamentos compulsivos e proteção dos consumidores. A legislação federal também passou a exigir autorização prévia para que as plataformas operem no país.

Além disso, o Senado aprovou restrições à propaganda das bets, incluindo a proibição do uso de artistas, atletas e influenciadores em campanhas — proposta encaminhada à Câmara. Estados e municípios também adotaram normas próprias para limitar a exposição das marcas.

Na área cultural, o Ministério da Cultura afirma estudar possibilidades jurídicas para restringir formalmente o patrocínio de empresas de apostas a projetos incentivados. O mecanismo já impede, por exemplo, a promoção de produtos de tabaco.

As empresas reagem. O CEO da Superbet, Alexandre Fonseca, afirma que, sem a divulgação da marca, os aportes perdem sentido comercial. Segundo ele, restrições abrangentes podem levar a companhia a deixar de financiar grandes eventos no Rio e em São Paulo.

A discussão coloca, assim, dois riscos frente a frente: o de reduzir uma fonte relevante de financiamento cultural e o de transformar artistas e eventos populares em ferramentas de normalização de uma atividade potencialmente viciante. Esta reportagem foi elaborada com base em informações publicadas originalmente pelo jornal Folha de São Paulo.

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