Tomar dinheiro emprestado no Brasil deverá continuar difícil e caro nos próximos meses, informa a Folha de S. Paulo. A combinação de juros elevados, renda familiar comprometida e inadimplência próxima de níveis recordes levou os maiores bancos privados do país a reforçar as reservas contra possíveis calotes e adotar critérios mais rigorosos para novas concessões de crédito.
O movimento aparece nos balanços do segundo trimestre de Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. Juntas, as três instituições reservaram R$ 28,7 bilhões para enfrentar possíveis perdas, aumento de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025.
As provisões avançaram em ritmo superior ao das próprias operações de crédito. No mesmo intervalo, a carteira conjunta dos três bancos cresceu 9,4%, alcançando R$ 3,37 trilhões.
A sinalização das instituições é de que a cautela permanecerá durante o restante de 2026. Com a Selic ainda em 14% ao ano e poucas perspectivas de redução expressiva no curto prazo, os bancos demonstram preferência por operações consideradas menos arriscadas, principalmente empréstimos que contam com algum tipo de garantia.
“Eu acho que o ciclo do crédito vai ser desafiador”, disse Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, maior banco do país, durante teleconferência com analistas nesta quarta-feira (5). “Vivemos hoje um excesso de crédito dado pelo mercado.”
O executivo indicou que a instituição está disposta a abrir mão de crescimento e participação de mercado para evitar uma deterioração mais acentuada da qualidade de sua carteira.
O Bradesco segue estratégia semelhante.
“Não estamos fazendo loucura. Estamos reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado”, disse o presidente Marcelo Noronha a jornalistas, nesta quinta (6).
Inadimplência permanece perto do recorde
Os sinais de deterioração do mercado ajudam a explicar a postura defensiva dos bancos.
Em maio, a inadimplência geral do sistema financeiro alcançou o maior patamar da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Naquele mês, 4,74% do crédito concedido estava atrasado havia mais de 90 dias.
Em junho, após o início do Desenrola 2.0, o indicador recuou ligeiramente, para 4,68%. Apesar da melhora marginal, permanece muito acima da média histórica, de 3,29%.
“É um momento difícil para o setor bancário. A inflação está corroendo a renda das famílias e o juro alto está reduzindo a capacidade de financiamento das empresas”, diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.
Na avaliação de Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, a situação não pode ser atribuída exclusivamente à Selic. A percepção de risco fiscal também influencia as taxas cobradas nas operações de crédito porque mantém elevados os juros projetados para os próximos anos.
O cenário ficou mais adverso do que se imaginava no começo de 2026. No início do ano, agentes do mercado trabalhavam com a possibilidade de a Selic recuar para aproximadamente 12%. A expectativa agora é de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 13,75%.
“Outro ponto de atenção é a inflação dos alimentos, que compromete mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo”, afirma Ataliba.
Famílias chegam ao limite do orçamento
A situação financeira das famílias é outro fator de preocupação.
O endividamento dos brasileiros com instituições financeiras em relação à renda acumulada nos 12 meses anteriores atingiu 49,93% em janeiro, maior percentual da série do Banco Central iniciada em 2005.
Embora janeiro costume concentrar despesas adicionais, como impostos e compromissos típicos do começo do ano, o indicador permaneceu próximo desse nível até maio, dado mais recente disponível.
O quadro significa que uma parcela elevada da renda familiar já está comprometida com dívidas, reduzindo a capacidade de assumir novas prestações e aumentando o risco de atraso das operações existentes.
Nem mesmo o desemprego em níveis historicamente baixos tem sido suficiente para reverter a situação. Economistas esperam desaceleração da atividade econômica nos próximos meses, consequência do prolongamento dos juros elevados.
“A transmissão da Selic na ponta é muito lenta. Olhando esses sinais, a tendência é que a inadimplência piore ou, no mínimo, se estabilize no segundo semestre”, diz Ataliba.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, fatores internacionais e climáticos poderiam contribuir para abrir espaço a novos cortes de juros.
“Mas, para discutirmos juros estruturalmente mais baixos e uma aceleração sustentável do ciclo de cortes, é inevitável falar sobre o fiscal.”
Os próprios bancos trabalham com a perspectiva de que algum tipo de ajuste fiscal deverá ser discutido no próximo mandato presidencial, independentemente de quem vencer as eleições.
“Quando você tem juros mais elevados, somados a uma inadimplência e a um comprometimento da renda bastante elevados, o risco para os bancos aumenta. Isso gera um maior custo do crédito e uma postura mais cuidadosa por parte dessas empresas”, diz Yihao Lin.
Bancos priorizam empréstimos com garantia
A consequência prática para consumidores e empresas já pode ser percebida na composição das novas operações.
Os bancos vêm restringindo especialmente o crédito destinado aos consumidores de renda mais baixa e ampliando a preferência por modalidades que ofereçam garantias para reduzir o risco de perdas.
Entre as linhas consideradas mais atraentes estão o consignado para trabalhadores com carteira assinada, financiamentos imobiliários e de veículos com garantia e operações destinadas a pequenas e médias empresas respaldadas pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO).
Mesmo com essa estratégia, Itaú, Bradesco e Santander aumentaram as proteções contra eventuais calotes no segundo trimestre.
Itaú e Bradesco afirmaram que o crescimento da provisão para devedores duvidosos acompanhou a expansão das respectivas carteiras. O Santander chamou atenção especificamente para a deterioração do cenário macroeconômico.
O banco espanhol apresentou o resultado considerado mais fraco entre os três no segundo trimestre, com lucro abaixo das expectativas em razão, entre outros fatores, do aumento das despesas com provisões.
Segundo avaliação da XP, a carteira de crédito do Santander permanece praticamente estagnada enquanto a instituição atravessa um processo de ajuste de portfólio e reconhecimento de riscos.
“Avaliamos que a normalização do custo do crédito ainda deve levar alguns trimestres”, dizem os analistas da corretora.
Nem mesmo o Itaú, que mantém o menor índice de inadimplência entre os grandes bancos privados, escapou completamente da piora. A instituição registrava índice de apenas 1,9% havia seis trimestres, mas apresentou sinais de deterioração.
O BTG classificou os resultados do Itaú no segundo trimestre de 2026 como mais fracos que o habitual, embora tenha ressaltado a qualidade dos ativos da carteira.
“O nível de provisões parece bastante conservador, e o capital principal continua se fortalecendo.”
O Itaú também reduziu sua projeção de crescimento da receita com serviços e seguros, uma área particularmente sensível ao ritmo da economia. A estimativa passou de uma faixa entre 5% e 9% para crescimento entre 2% e 5% em 2026.
Segundo o banco, a revisão reflete principalmente uma volatilidade de mercado superior à esperada no início do ano e receitas menores com tarifas de cartões, enquanto os custos associados aos produtos destinados aos clientes de média e alta renda continuam aumentando.
No Bradesco, a inadimplência permanece como um dos principais desafios. A instituição elevou a participação das operações com garantias de 58,5% para 61% de sua carteira, mas os empréstimos ao varejo ainda são apontados como fonte de preocupação pelo Citi.
Segundo os analistas, o custo do crédito dos clientes do banco aumentou de 5,5%, no começo do ano, para 5,9%.
“Daqui para frente, a principal discussão será se o ritmo de crescimento das receitas e os ganhos de eficiência conseguirão continuar superando os custos de crédito mais elevados, à medida que o ciclo de crédito brasileiro se torna mais desafiador”, diz o Citi.
Apesar do ambiente mais adverso, o Bradesco manteve suas projeções para 2026. A instituição prevê expansão entre 8,5% e 10,5% da carteira de crédito.
Como os empréstimos cresceram 11,6% no primeiro semestre, a própria projeção indica uma desaceleração das concessões na segunda metade do ano.
O comportamento dos três maiores bancos privados reforça uma tendência que deve marcar o mercado financeiro nos próximos meses: com juros ainda elevados, famílias fortemente endividadas e inadimplência acima da média histórica, as instituições deverão selecionar mais os clientes, privilegiar empréstimos protegidos por garantias e reforçar suas reservas para enfrentar eventuais calotes.
Para quem precisa tomar dinheiro emprestado, o resultado tende a ser um ambiente de crédito mais seletivo justamente em um momento no qual o orçamento das famílias já se encontra pressionado.






Deixe um comentário