Durante décadas, a poluição da Baía de Guanabara foi encarada como um problema crônico, aparentemente insolúvel. O lançamento contínuo de esgoto sem tratamento comprometeu rios, canais e praias, afastou banhistas, prejudicou a pesca e transformou áreas antes frequentadas pela população em locais impróprios para banho. Agora, uma estratégia baseada na interceptação do esgoto antes que ele alcance as galerias pluviais começa a apresentar resultados concretos, especialmente na Ilha do Governador. 

A entrega do primeiro Coletor em Tempo Seco (CTS) da Ilha, instalada pela Águas do Rio no Corredor Esportivo do Moneró, é um passo desse processo. O equipamento impedirá que mais de 490 mil litros de esgoto in natura cheguem diariamente à Baía de Guanabara. Até março do próximo ano, outros quatro coletores devem entrar em operação na região, formando um cinturão de proteção sanitária que terá capacidade para impedir o lançamento de cerca de 4,9 milhões de litros de água contaminada por dia.

“Com esse Coletor em Tempo Seco do Corredor Esportivo, deixamos de lançar na Baía, a cada cinco dias, o equivalente ao volume de uma piscina olímpica. Quando a gente faz o projeto de engenharia para os cálculos da bomba e até as redes que vão receber, calculamos essa vazão”, explica Fábio Dias, diretor-executivo da Águas do Rio.

CTS atua onde está uma das principais origens da poluição da Baía: as galerias de águas pluviais | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Os primeiros reflexos já aparecem nos indicadores ambientais. Dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mostram que o índice geral de balneabilidade da Praia da Bica passou de 8,33% nos cinco primeiros meses de 2024 para 57% em 2025, percentual mantido neste ano. A melhora é atribuída ao conjunto de intervenções realizadas na Ilha, como a eliminação de aproximadamente 250 ligações irregulares de esgoto, mais de 2 mil desobstruções em redes coletoras e, agora, à implantação dos CTS.

Embora os resultados sejam animadores, especialistas destacam que a recuperação da Baía de Guanabara depende de um conjunto de ações contínuas e de longo prazo. O CTS é visto como uma ferramenta importante dentro desse processo, mas não como a solução definitiva para um problema acumulado ao longo de séculos de urbanização desordenada.

Para entender o impacto dessas estruturas, é preciso primeiro compreender por que elas se tornaram necessárias.

Como funciona o coletor em tempo seco

O CTS atua justamente onde está uma das principais origens da poluição da Baía: as galerias de águas pluviais. Em teoria, essas tubulações deveriam transportar apenas água da chuva. Na prática, porém, milhares de imóveis despejam esgoto doméstico irregularmente nessas redes, que acabam levando os dejetos diretamente para rios, canais e para a Baía de Guanabara. 

“O CTS é um dispositivo criado hidraulicamente para barrar todas as contribuições de esgoto antes que elas cheguem à Baía. Nada mais é do que uma barragem nas galerias de águas pluviais que recebem esgoto, permitindo que esse material seja remanejado para as estações elevatórias, as redes de esgoto e, por fim, para a estação de tratamento de esgoto da Ilha”, detalha Dias.

Fábio Dias, diretor-executivo da Águas do Rio | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Ele explica que o equipamento opera apenas quando não está chovendo, por isso a origem do nome.

“Normalmente, não deveria haver água dentro das galerias pluviais fora do período de chuvas. Por isso é chamado de Coletor em Tempo Seco. Se há água dentro de uma galeria sem chuva, é porque é esgoto”

Fábio Dias, diretor-executivo da Águas do Rio

O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador da Rede de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Julio Wasserman, aponta que esse tipo de solução é utilizado em grandes centros urbanos do mundo.

“Os coletores em tempo seco são utilizados em cidades como Paris, Nova York, Londres e Lisboa. Na Baía de Guanabara não é possível fazer um coletor em todo o entorno, mas é viável realizar captações em sub-bacias hidrográficas de menor porte.”

Essa lógica é consequência da própria forma como a cidade foi construída ao longo das últimas décadas. 

Um problema criado pela urbanização

Para a coordenadora do Programa de Pós-graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Sylvia Meimaridou, os coletores são uma resposta a um problema histórico de planejamento urbano.

“O Coletor em Tempo Seco existe porque o Rio cresceu, em grande parte, mais rápido do que sua infraestrutura sanitária. A cidade nunca implantou, de forma universal, uma rede separadora absoluta, com tubulações distintas para esgoto e água da chuva. O CTS é uma resposta de engenharia a esse acúmulo histórico, interceptando o esgoto antes que ele chegue à Baía de Guanabara”.

Na avaliação da pesquisadora, a poluição da baía não pode ser entendida apenas como um problema ambiental: “É o resultado acumulado de décadas de urbanização sem infraestrutura correspondente”.

“E isso não afeta todas as regiões da cidade da mesma forma, áreas como a Zona Norte e a Ilha do Governador, por exemplo, historicamente recebem investimento em saneamento mais tarde do que áreas como a Zona Sul.”

Sylvia Meimaridou, arquiteta

O biólogo Mario Moscatelli faz uma análise semelhante. Segundo ele, o crescimento urbano sem planejamento levou o sistema de drenagem a assumir uma função para a qual nunca foi projetado. 

“O sistema de drenagem de águas pluviais é utilizado, praticamente, de uma forma generalizada como rede de esgoto, esse sistema de Coleta em Tempo Seco é a ‘solução rápida’, porque leva tempo para fazer todo esse sistema funcionar adequadamente, visando evitar a chegada de um volume monstruoso de esgoto pelo sistema de galerias de águas pluviais”, enfatiza.

Os dois especialistas convergem ao apontar que o CTS não corrige a origem do problema, mas reduz significativamente seus efeitos enquanto a infraestrutura definitiva não é universalizada. 

O que muda para a Baía de Guanabara

Na prática, impedir que o esgoto chegue diretamente aos corpos d’água altera rapidamente a qualidade da água. Moscatelli explica que o ganho ambiental ocorre porque o esgoto deixa de ser despejado sem tratamento.

“Na medida em que você impede o lançamento de esgoto por meio das galerias de águas pluviais em rios, lagoas, baías, você tem um salto qualitativo excepcional na qualidade desse corpo d’ água receptor, seja ele intermediário ou final. Ao redirecionar esse esgoto para um sistema de coleta, bombeamento e tratamento, o corpo hídrico deixa de receber esgoto praticamente bruto e passa a receber um efluente tratado, reduzindo significativamente o impacto ambiental”.

Todo esse volume passa a ser bombeado para a Estação de Tratamento de Esgoto da Ilha do Governador, que recentemente passou por obras de reforma e ampliação. Com isso, a capacidade da unidade dobrou e passou a tratar até 440 litros de esgoto por segundo. 

Além do novo coletor, a concessionária informa que já investiu R$ 11 milhões na Ilha do Governador, com intervenções na estação de tratamento, elevatórias e redes coletoras

Melhora já aparece na balneabilidade

Os indicadores oficiais começaram a refletir essa mudança. Segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), a Praia da Bica apresentou um salto na balneabilidade nos últimos dois anos. Para Fábio Dias, a tendência é semelhante ao que ocorreu anteriormente nas praias do Flamengo e da Glória. 

“Assim como aconteceu nas praias do Flamengo e da Glória, estamos realizando esse trabalho também na Praia da Bica. O índice de balneabilidade passou de 8% em 2024 para 57% neste ano”.

O diretor também destaca que o trabalho vai além da construção das novas estruturas: “Temos equipes que fiscalizam as redes de águas pluviais, chamadas de equipes de varredura. Existem imóveis que conectam os seus esgotos em redes de água pluvial. Isso gera todo o transtorno que a gente está vendo quando encontra esgoto dentro das galerias. Só na Ilha já identificamos 250 pontos de interligação irregular”.

Para Wasserman, a melhora na balneabilidade tende a ocorrer logo após a entrada em operação dos equipamentos.

“A resposta deve ser praticamente imediata, uma vez que inaugurar e o sistema começar a funcionar, você vai ter uma redução dos problemas de balneabilidade. É uma redução pequena, porque esse volume ainda não é o volume total de esgoto que entra na Baía, mas é imediato”, enfatiza.

Solução funciona, mas não resolve tudo

Apesar dos resultados, os especialistas são unânimes em afirmar que os coletores não representam a solução definitiva para a despoluição da Baía de Guanabara. Recentemente, Agenda do Poder produziu outra reportagem especial mostrando a presença de resíduos farmacêuticos na costa fluminense. À época, especialistas explicaram que uma ampla variedade de compostos, incluindo medicamentos, antibióticos e drogas lícitas e ilícitas, já faz parte do fluxo contínuo que sai das cidades e chega aos corpos d’água.

Nesse contexto, cientistas da Universidade Federal do Rio (UFRJ) identificaram a presença de sertralina em tubarões-martelo capturados acidentalmente em redes de pesca em áreas como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Barra de Guaratiba.

Mas esse é só um dos problemas que resultam da poluição marinha.

“CTS é uma medida de contenção, não uma solução definitiva. Ele funciona bem justamente em dias sem chuva, mas em episódios de chuva a vazão pluvial aumenta muito e a capacidade de interceptação cai. Ele resolve o sintoma mais visível, que é o despejo constante de esgoto na baía em condições normais, mas não resolve a causa, que é a ausência de rede separadora absoluta em boa parte da cidade”, destaca Sylvia Meimaridou.

Wasserman concorda e lembra que o passivo ambiental acumulado ao longo de séculos continuará influenciando a qualidade da água.

“A gente contaminou essa Baía durante 400, 500 anos. Então, você tem ali uma contaminação registrada que interage com a água e essa interação com a água vai manter o sistema”, pontua.

“Temos que pensar em outras soluções no futuro para poder realmente ter uma água transparente, com os golfinhos e baleias pulando. Ainda não estamos nesse ponto”

Julio Wasserman, professor do departamento de Análise Geoambiental da UFF

Moscatelli acrescenta que o próprio funcionamento do sistema possui limitações durante períodos de chuva intensa.

“Se você tem um momento de uma semana de chuvas permanentes, infelizmente, o sistema não vai dar conta de coletar a água da chuva e o esgoto. Então essa é a vulnerabilidade”, pontua o especialista.

Desafio vai além da engenharia

Na avaliação dos especialistas, recuperar a Baía de Guanabara exige um conjunto de políticas públicas permanentes.

Sylvia defende que a universalização do saneamento precisa caminhar junto com planejamento urbano, regularização fundiária, fiscalização das ligações clandestinas e monitoramento ambiental contínuo.

“Sem esse conjunto de ações, o CTS produz uma melhora real, mas limitada e vulnerável ao retrocesso”, conclui.

Wasserman reforça que não existe solução imediata para um problema construído ao longo de centenas de anos.

“Esse tipo de ação precisa ser expandido para outras pequenas bacias hidrográficas do entorno da Baía de Guanabara, principalmente nas áreas mais densamente povoadas. A recuperação da baía depende de investimentos contínuos, planejamento e da aplicação do conhecimento científico. Não existe uma solução única ou imediata para um problema acumulado ao longo de séculos.”

Outros CTS 

A tecnologia dos Coletores em Tempo Seco já vem sendo empregada em outras intervenções voltadas à recuperação da Baía de Guanabara. Segundo a Águas do Rio, o mesmo sistema contribuiu para a melhora da qualidade da água em praias da Zona Sul, como Flamengo e Glória, onde ações de saneamento ajudaram a ampliar os períodos de balneabilidade.

Além da Ilha do Governador, a concessionária já colocou em operação a primeira etapa de um sistema de Coleta em Tempo Seco no Rio Imboaçu, em São Gonçalo, que impede o lançamento de cerca de 3,5 milhões de litros de água contaminada por dia na Baía de Guanabara. A empresa também prevê expandir a tecnologia para Nilópolis e Nova Iguaçu, dentro de um plano de investimentos de R$ 2,7 bilhões em coletores em tempo seco até 2033.

O que diz o Inea

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), responsável pelo monitoramento da balneabilidade das praias fluminenses, adota uma avaliação mais cautelosa sobre os impactos das intervenções na Ilha do Governador.

Segundo o órgão, os dados coletados entre 2022 e junho de 2026 ainda não permitem afirmar que houve uma melhora generalizada e contínua da balneabilidade na região. Embora tenham sido registrados avanços pontuais, especialmente nas praias da Bica e da Ribeira, cerca de 90% das classificações consolidadas no período permaneceram impróprias para banho.

O instituto ressalta que a qualidade da água é influenciada por diversos fatores, como o lançamento de esgoto, o volume de chuvas, as contribuições das galerias pluviais, as marés e a circulação das águas. Por isso, afirma que as oscilações observadas nos boletins de balneabilidade não podem ser atribuídas exclusivamente a uma única obra ou intervenção.

Ainda assim, o Inea reconhece que os Coletores em Tempo Seco têm potencial para reduzir o lançamento de esgoto transportado irregularmente pelas galerias de drenagem, ao direcionar esse material para o sistema de tratamento.

“No entanto, a efetividade da medida deverá ser acompanhada por meio da comparação dos dados anteriores e posteriores à operação do sistema, associada a informações sobre vazão interceptada, volume efetivamente tratado, chuvas, marés e condições operacionais”, diz.

Para o instituto, a recuperação da Baía de Guanabara e a ampliação da balneabilidade das praias da Ilha do Governador dependem de um conjunto de ações complementares, como a eliminação de ligações clandestinas de esgoto, a expansão da coleta e do tratamento, o controle da poluição proveniente de rios, canais e galerias pluviais, além da redução dos resíduos sólidos e da manutenção adequada da infraestrutura de saneamento.

O Inea afirma que continuará monitorando a qualidade das águas e a balneabilidade das praias para avaliar se os efeitos das intervenções serão permanentes, abrangentes e sustentáveis ao longo do tempo.

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