Todos os dias, milhões de brasileiros tomam antidepressivos. O uso desses medicamentos no Brasil aumentou 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos, de acordo com um levantamento da Funcional Health Tech, empresa especializada em inteligência de dados na área da saúde. O que nem sempre entra na equação é o destino desses compostos depois que deixam o corpo humano. Recentemente, cientistas da Universidade Federal do Rio (UFRJ) identificaram a presença de sertralina em tubarões-martelo capturados em diferentes pontos da costa fluminense.
A presença da substância em um predador de topo de cadeia abre uma discussão que vai além do caso específico. Para os pesquisadores, o ponto central não é apenas a detecção do composto, mas o caminho percorrido por ele até chegar ao oceano. O estudo integra o Projeto EcoShark.
“A gente pensou que só a sertralina não estaria em concentrações relevantes em um animal marinho. Porém, isso foi curioso: apesar de só excretar menos de 1% [do antidepressivo], a própria sertralina foi encontrada. Ela vai para a urina, é excretada, para no sistema de tratamento de esgoto, [e lá] não existe um tratamento para fármacos, então, vai parar no mar e, consequentemente, nos grandes animais marinhos”, narra Mariana Batha, coordenadora do projeto e professora doutora do Instituto de Biofísica da UFRJ.
O fenômeno se insere em uma categoria cada vez mais discutida na literatura científica: os chamados poluentes emergentes.

“Eles não são poluentes clássicos, como a matéria orgânica vinda de esgoto in natura, mas emergentes no sentido de que agora eles estão ganhando importância, uma vez que não é feito o tratamento químico, só o biológico e de matéria orgânica. E esses poluentes passam batido nas usinas de tratamento”, explica Leonardo Vazquez, pesquisador da UFRJ e colaborador do projeto.
O achado no cérebro de um predador
A pesquisa analisou cerca de 20 tubarões-martelo de duas espécies, capturados acidentalmente em redes de pesca em áreas como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Barra de Guaratiba.
“Normalmente, a gente estuda os contaminantes clássicos, e isso já foi muito estudado. Mudamos para uma linha dos contaminantes emergentes, que são pesticidas, filtros solares. E, até então, tinha um novo desafio analítico, que era estudar os fármacos. E o uso de antidepressivos no mundo aumentou. Então, a gente ficou com essa ideia: se aumentou o uso nos seres humanos, provavelmente refletiu nos mares. Será que os tubarões estão com antidepressivos?”, relembra Mariana.

Em cada animal, foram avaliados diferentes tecidos. O resultado surpreendeu: entre vários compostos analisados, apenas a sertralina acabou detectada no cérebro. O achado foi inesperado porque foge do padrão observado em outras substâncias.
“Curioso, porque tudo que a gente analisa aparece principalmente no fígado dele e na carne, que é o músculo. Mas, dessa vez, só apareceu no cérebro”, explica.
A pesquisa já recebeu financiamento do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica da UFRJ, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj). A realização do SubProjeto EcoShark dentro do Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira foi uma medida compensatória estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta de responsabilidade da empresa Prio, conduzido pelo Ministério Público Federal.
EcoShark acompanha tubarões na costa do Rio
O Projeto EcoShark acompanha desde 2018 a presença e a saúde de tubarões-martelo na costa fluminense. O trabalho se tornou possível a partir de uma articulação direta com comunidades pesqueiras, que passaram a colaborar com o fornecimento de animais capturados acidentalmente em redes de pesca.
O esforço de pesquisa ocorre em um contexto sensível. O Brasil registra um dos maiores índices de letalidade em incidentes com tubarões no mundo: em 2021, a taxa de mortalidade chegou a 30%, contra 1% nos Estados Unidos e 14% na Austrália
Nesse cenário, o trabalho de campo exigiu não apenas logística científica, mas também negociação com pescadores que, historicamente, tinham a prática da captura. Mariana explica que o início da parceria acabou marcado por resistência e necessidade de adaptação.

“A maioria das espécies são consideradas ameaçadas e, especificamente, o tubarão-martelo é criticamente ameaçado… se o pescador trouxer para a terra um tubarão desse, ele vai preso”, explica a pesquisadora.
“Então, o nosso trabalho foi dois, sensibilizar e educar os pescadores. Primeiro, por que não pode matar mais tubarão? Porque a vida inteira eles, o vô deles, bisavô deles, todo mundo matou. O tubarão tem de 12 a 20 bebês […] e eles demoram dois, três anos para atingir maturidade sexual. Se você mata um tubarão, demora muito mais para ter outros no lugar dele.”
Mariana Batha, coordenadora do projeto
A segunda etapa do projeto ampliou o escopo da pesquisa para animais vivos, permitindo não apenas análises pontuais, mas também o acompanhamento de indivíduos na natureza. Essa frente começou em 2021, em áreas como a Baía da Ilha Grande e Marambaia.
“É super complexo. Fomos os primeiros, aqui do Rio de Janeiro, a capturar tubarões de grande porte vivos. Fomos para o mar aberto junto com pescadores. Ensinamos eles a não matar, e eles ensinaram a gente a capturar”, relata.
O procedimento inclui a captura controlada, coleta de sangue e a instalação de rastreadores satelitais, permitindo o monitoramento dos animais após a soltura. A pesquisa busca integrar os dados de animais mortos e vivos para avaliar a saúde das populações de tubarões-martelo na costa do Rio.
O que a ciência já sabe, e o que ainda não sabe
Apesar da detecção da sertralina em tubarões, os efeitos diretos dessa exposição ainda não são conhecidos.
O que a equipe da professora sabe é que, em estudos de laboratório com peixes-zebra, já foram observadas alterações como redução da locomoção, comportamento mais letárgico, neurotoxicidade e impacto no aprendizado. No entanto, tubarões têm neuroquímica distinta dos peixes ósseos, mais parecida com a dos mamíferos.

“Todo mundo quer saber o que a sertralina causa no tubarão. A gente também. Ainda não temos a resposta. Porém, nos peixes menores, que são peixes de laboratório, os estudos mostraram a alteração”, diz.
Segundo o psiquiatra e presidente da Academia Nacional de Medicina, Antônio Egídio, a medicação tem, sim, capacidade de alterar o comportamento do animal.
“Em qualquer animal o antidepressivo, seja a sertralina ou outro, pode ocasionar uma alteração do comportamento. Em alguns causa sedação, principalmente se a dose for muito alta. Em outros pode causar uma agitação. E isso também ocorre no animal humano. Ao tomarmos o antidepressivo, podemos ter um quadro ou mais de sedação, ou mais de agitação, vai depender muito da nossa interação com a medicação”, avalia.
O aumento do uso de antidepressivos
As vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor aumentaram 11% entre 2022 e 2023, de acordo com o do Conselho Federal de Farmácia. Entre eles está a sertralina, um dos mais prescritos no país.
“É um dos antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina, que é um grupo muito utilizado como antidepressivo. E a sertralina tem algumas vantagens. É muito eficaz, é segura, tem pouca interação medicamentosa. Por isso que ela é muito prescrita”
Antônio Egídio, psiquiatra e presidente da Academia Nacional de Medicina
Segundo o médico, ela é prescrita principalmente para depressão, mas pode ser utilizada também para transtorno de pânico, fobia social e algumas outras indicações menos frequentes.

O professor aponta que o aumento no consumo dessas medicações ganhou relevância principalmente no contexto pós-pandemia de Covid-19, mas os fatores são múltiplos.
“Esse aumento do uso de antidepressivo não significa que aumentou a depressão. Muitas pessoas recebem antidepressivo sem ter uma indicação precisa. Porque o diagnóstico de depressão pode ser feito por um médico especializado, mas nós sabemos que muitas pessoas tomam antidepressivos porque estão tristes, de luto… Não tem uma indicação precisa”, pontua.
Como esse medicamento consegue chegar no mar?
A presença de resíduos farmacêuticos em ambientes marinhos não é exclusiva do Brasil.
“Há pesquisas fora do Brasil, EUA principalmente, que já detectaram cocaína, cafeína e anti-inflamatórios em animais de topo de cadeia, como tubarões”, diz Leonardo Vazquez.

Segundo o professor do departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF), Julio Wasserman, uma ampla variedade de compostos, incluindo medicamentos, antibióticos e drogas lícitas e ilícitas, já faz parte do fluxo contínuo que sai das cidades e chega aos corpos d’água.
“Há uma infinidade de substâncias, disruptores endócrinos, antibióticos, drogas lícitas e ilícitas, que são eliminados em pequenas concentrações pelo homem, principalmente através da urina, e que vão para os sistemas de tratamento de esgotos, mas não são eliminados. Inclusive, prejudicam os processos biológicos de tratamento do esgoto”, afirma.
Esses compostos não são totalmente retidos nas estações de tratamento convencionais e podem alcançar rios, lagos e o oceano. Embora cheguem ao ambiente em concentrações muito baixas, sua presença contínua levanta preocupações sobre efeitos acumulativos ao longo da cadeia alimentar.
“O que acontece é que existe um processo chamado de biomagnificação. Os organismos na base da cadeia acumulam baixíssimas concentrações da água. Os herbívoros acumulam mais e, quando chega nos tubarões, que vivem mais e comem muitos peixes ao longo da vida, há essa bioacumulação em altas concentrações”, explica.
Nesse processo, pequenos resíduos presentes no ambiente são amplificados à medida que passam de um nível trófico a outro, resultando em maiores concentrações nos predadores de topo da cadeia. As tecnologias atuais de tratamento de esgoto, segundo o pesquisador, ainda não são capazes de eliminar completamente esses compostos.
“Seria possível tratar estes poluentes emergentes, mas o custo seria extremamente elevado. A aplicação de colunas de carvão ativado e outros processos de oxidação avançada são capazes de remover parte destes contaminantes. Não obstante, o resultado das concentrações em organismos de topo de cadeia não reduziria muito.”
Julio Wasserman, professor do departamento de Análise Geoambiental da UFF
No caso do Rio de Janeiro, o cenário é agravado pela escala urbana e pelo volume de esgoto gerado diariamente, especialmente na região da Baía de Guanabara.
“Quando atingimos o oceano as concentrações são ínfimas na água. O enriquecimento ocorre principalmente pela biomagnificação. No Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara, que tem fontes muitíssimo significativas oriundas de uma população de mais de 10 milhões de pessoas, é claro que a situação é mais crítica. Ainda assim não esperamos encontrar concentrações elevadíssimas destes poluentes na água. Ela é importante quando acumulada ao longo da cadeia trófica”, conclui.

Quais são os próximos passos da pesquisa?
Apesar dos resultados iniciais e da repercussão do tema, os pesquisadores envolvidos no estudo ressaltam que o trabalho ainda depende de uma série de etapas estruturais para avançar.
Entre os principais desafios está a continuidade do financiamento, considerado essencial para viabilizar a logística das expedições e as análises laboratoriais.
“Um financiamento que seja constante, uma vez que a ciência brasileira trabalha grande parte com financiamento público. Cada saída que a professora faz há um dispêndio de manutenção de barco, de equipe de apoio, de coleta, de análise do material, cada análise dessa é extremamente cara”, ressalta Vazquez.
Ele acrescenta que o avanço da pesquisa depende também da formação de equipes especializadas e da manutenção de infraestrutura adequada para análises químicas complexas.
“O segundo desafio é técnica e o terceiro é capacitação acadêmica. A gente ter materiais de laboratório suficientes para poder fazer essas análises… porque são diversas análises e cada uma requer gente especializada, tempo de máquina e tudo isso”, completa.
Segundo Mariana Bath, o estudo ainda está em fase de publicação internacional. A expectativa da equipe é submeter o artigo a uma revista indexada nos próximos meses, após a consolidação dos dados e revisão final do material.
“A pesquisa ainda não foi publicada como artigo científico internacional, porém ela não deixa de ser publicada. Foi publicada na The Conversation, e o artigo científico em si está sendo finalizado”, explica.
“A ciência é vagarosa por isso. Você tem que escrever detalhe por detalhe, o método está lá, para ter uma comprovação e ficar disponível para a ciência internacional.”
Professora Mariana Batha
Segundo a coordenadora, a publicação final não apenas valida os resultados, mas também permite que outros pesquisadores reproduzam o estudo em diferentes regiões do mundo, ampliando o alcance da investigação sobre contaminantes emergentes em ambientes marinhos.
Para os pesquisadores e especialistas, a presença de antidepressivos em animais de topo de cadeia não é um fenômeno isolado, mas o reflexo de três pressões que se cruzam: o aumento do consumo de medicamentos, as limitações do saneamento básico e a vulnerabilidade da biodiversidade marinha.
O que dizem as concessionárias e órgãos ambientais
Inea
“O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mantém um programa sistemático de monitoramento da qualidade das águas em rios, baías e áreas costeiras do estado, contemplando parâmetros físico-químicos, biológicos, compostos orgânicos e inorgânicos, metais e sedimentos, em conformidade com a legislação ambiental vigente. No caso dos resíduos farmacêuticos, ainda não há, no Brasil, protocolos ou normas específicas que estabeleçam seu monitoramento sistemático pelos órgãos ambientais.
Com o avanço das pesquisas nessa área, o Inea vem articulando parcerias com instituições acadêmicas e comitês de bacias hidrográficas para desenvolver estudos sobre contaminantes emergentes em áreas estratégicas, como o Sistema Guandu, a Baía de Guanabara e seus principais rios contribuintes. Essas iniciativas têm como objetivo gerar conhecimento técnico-científico que subsidie a elaboração de uma Norma Operacional Padrão ou de regulamentação específica para incorporar esses parâmetros ao monitoramento oficial da qualidade das águas”.
Iguá
“A Iguá Rio informa que a Estação de Tratamento de Esgoto da Barra da Tijuca (ETE Barra), operada pela concessionária, realiza os tratamentos preliminar e primário do esgoto, além do monitoramento contínuo na saída da estação e na área de dispersão do emissário submarino no mar, em conformidade com os critérios estabelecidos pela Norma Operacional (NOP) 45 do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), conforme previsto nas condicionantes da licença de operação da unidade. Cabe ressaltar que o sistema de tratamento é dimensionado e monitorado para o recebimento e tratamento de efluentes domésticos”.


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