Em editorial o jornal O Globo analisa como sinal de “maioridade institucional” “a aprovação pelo Senado de Gabriel Galípolo como próximo presidente do Banco Central (BC) é bem-vinda.
Prossegue o editorial, “Como diretor de Política Monetária do BC, o nome escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para substituir Roberto Campos Neto a partir de janeiro provou ter capacidade de exercer o novo mandato de forma técnica e independente, como esperam o Congresso e os brasileiros preocupados com as pressões inflacionárias.
Antes de integrar a diretoria do BC, Galípolo foi secretário executivo do ministro Fernando Haddad no início da atual gestão petista. Os senadores questionaram sua proximidade de Lula e sua autonomia em relação ao Planalto durante a sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos. Em resposta, ele afirmou que Lula lhe garantiu liberdade para tomar decisões e prometeu seguir à risca o objetivo de perseguir as metas de inflação. Foi a resposta certa. Mas não cabe ao presidente da República garantir nada ao do BC. A liberdade está assegurada na lei que concedeu autonomia à autoridade monetária — e essa é a maior das garantias.
A primeira missão de Galípolo, em marcha desde que seu nome começou a ser aventado para o cargo, consiste justamente em afastar o fantasma da intervenção do Executivo na condução da política monetária, de consequência desastrosa na última passagem petista pela Presidência da República. Seu maior desafio, contudo, será outro: o cenário inflacionário para 2025 e 2026 é turvo. “A desancoragem nas expectativas de inflação nos incomoda”, disse na sabatina. A dúvida não é se o juro básico da economia, a Selic, subirá nos próximos meses, mas a que patamar chegará.
A decisão da agência de classificação de risco Moody’s de elevar a nota de risco soberano do Brasil para o nível imediatamente abaixo ao de bom pagador não dissipou no mercado a desconfiança sobre os compromissos fiscais deste governo. A dívida pública subirá em todos os anos do terceiro mandato de Lula, e ninguém sabe ao certo quando estacionará ou voltará a cair. Para completar, a credibilidade do governo está em baixa, devido à resistência de Lula em controlar as despesas do governo. Os gastos da União também pressionam a demanda e os preços. Galípolo não terá vida fácil.
Na última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, aumentou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 10,75% ao ano. A decisão, primeira alta desde agosto de 2022, foi unânime. Não passou despercebida a coesão entre diretores indicados nas gestões de Lula, Jair Bolsonaro e nas anteriores. A unanimidade ajudou a dissipar dúvidas sobre o comprometimento do BC com o controle de preços. O próprio Galípolo parece consciente de que a política monetária não deve ser contaminada por ideologia.
A aprovação de seu nome pelo Senado dois dias depois do primeiro turno das eleições municipais é sinal de maturidade institucional. O Legislativo faz bem em retomar a agenda prioritária para o país. Ainda há vários outros projetos na fila, a começar pela regulamentação, sem mais atraso, da reforma tributária. Os senadores precisam virar essa página histórica para a economia brasileira. É esperado que a Câmara dos Deputados adote postura semelhante e volte ao ritmo normal de atividades. O Congresso não pode ficar parado à espera do segundo turno com tantos desafios urgentes.”





