Atlas da Violência: 62 jovens foram assassinados por dia no Brasil em 2022, a maioria por armas de fogo

Estudo aponta que, desde 2012, pessoas entre 15 e 29 anos perderam, somadas, mais de 15 milhões de anos potenciais de vida

Sessenta e dois jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados por dia no Brasil, de acordo com o mais recente relatório do Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública nesta terça-feira. Dos 46,4 mil homicídios registrados em todo o país, 22,8 mil — 49% deles — foram praticados contra pessoas desta faixa etária. A grande maioria das vítimas — 94% — eram do sexo masculino. Os números são referentes ao ano de 2022.

Os dados indicam que houve uma queda de 5,6% no número de jovens assassinados em todo o país em relação à pesquisa anterior, referente ao ano de 2021. Em relação à taxa de homicídios praticados contra esses jovens de 15 e 29 anos por 100 mil habitantes, o número teve um pequeno recuo, de 49 para 46,6, de um ano para o outro. Um recorte de cinco anos, entre 2017 e 2022, mostra uma redução de 33,5% da violência letal contra a juventude. Os números, no entanto, ainda são considerados altos.

A Bahia é o estado brasileiro onde há mais jovens vítimas de homicídio: 4 mil registrados em 2022. O número é 6% menor que o registrado em 2021, mas 10% maior que o registrado desde 2012, quando teve início a série histórica. Também chamam atenção os números registrados no mesmo período no Rio de Janeiro (2.005 mortos), Pernambuco (1.733 mortos), Ceará (1.644 mortos), Pará (1.454 mortos) e Minas Gerais (1.224 mortos).

Taxa em queda

A pesquisa aponta que, em 10 anos, 18 estados apresentaram redução na taxa de homicídios de jovens a cada 100 mil habitantes, com destaque para Distrito Federal (-72%), com taxa de 19,3, São Paulo (-59%), com taxa de 10,8, e Goiás (-49%), com taxa de 44,9, enquanto houve aumento significativo em outros, como Piauí (64,6%), com taxa de 50,2, Bahia (23,5%), com taxa de 117,7, e Amazonas (19,5%), com taxa de 86,9%.

15 milhões de anos de vida perdidos

O Atlas também apresenta um recorte sobre os anos potenciais de vida perdidos por essas vítimas de homicídio entre 15 e 29 anos, uma forma diferente de mensurar o tamanho do impacto dessas perdas prematuras no país. De acordo com o relatório, 321,4 mil pessoas nessa faixa etária morreram no Brasil entre 2012 e 2022; levando em consideração uma expectativa de vida de 70 anos, isso representaria a perda de 15,2 milhões de anos potenciais de vida.

O relatório estima que só as armas de fogo tenham tirado 12,3 milhões de anos de vida de jovens brasileiros que foram mortos em 10 anos — 81% do total. Segunda maior incidência nos homicídios, os objetos cortantes teriam encurtado 1,6 milhão de anos. Atrás dos homicídios nesse “ranking”, os acidentes como causa da morte, por exemplo, totalizam 7,5 milhões de anos perdidos — 50% menos que os assassinatos.

Crianças a adolescentes

O Atlas da Violência aponta ainda que, em 2022, o Brasil registrou o homicídio de 147 bebês entre 0 e 4 anos (com uma queda de 3,3% em relação ao ano anterior e de 26% em relação a 2012); de 348 crianças entre 5 e 14 anos (com uma queda de 6,5% em relação ao ano anterior e de 59,6% em relação a 2012); e 5.220 assassinatos de adolescentes entre 15 e 19 anos (com queda de 13% em relação ao ano anterior e de 44% em relação a 2012).

Em relação às vítimas de homicídio na primeira infância (0 a 4 anos), a pesquisa analisa que o agregado nacional da taxa de homicídios por 100 mil infantes indica, em 2022, estabilidade em relação ao período anterior, ao registrar o valor de um homicídio a cada 100 mil infantes. No entanto, a comparação entre 2012 e 2022 (assim como entre 2017 e 2022) revela redução na taxa de homicídios de 28,6%. Foram 2.153 bebê mortos em 10 anos.

Nos homicídios praticados contra crianças, de 5 a 14 anos, a pesquisa aponta que houve uma redução de 7,7% na taxa por 100 mil habitantes de 2021 para 2022. Comparando com 2012, a taxa de homicídios de crianças apresenta redução de 55,6%. Nessa métrica, houve registro de crescimento na taxa de homicídios contra crianças, neste período, apenas no Maranhão (+38,5%), Piauí (+112,5%) e Roraima (+80%). Sete mil crianças foram mortas em dez anos.

Os adolescentes (15 a 19 anos) são as vítimas mais frequentes deste recorte. Correspondem a uma taxa de 34,1 homicídios registrados para cada grupo de 100 mil. O estudo analisa que, em dez anos, 21 estados demonstraram redução na taxa de homicídio de adolescentes. Considerando a variação entre 2017 e 2022, 24 estados reduziram a violência letal contra adolescente. “No entanto, essa onda de redução de letalidade parece estar recuando, uma vez que, entre 2021 e 2022, 18 estados tiveram queda nessas taxas de homicídio”, observa o estudo.

Quando observado o objeto usado para matar, a arma de fogo aparece como principal instrumento em quase todas essas faixas etárias nestes últimos 10 anos de pesquisa: 83,8% dos adolescentes e 70% das crianças. Chama atenção, no entanto, que entre os bebês, as chamadas “vítimas infantes”, o instrumento desconhecido apareceu com maior frequência, segundo o estudo, “sinalizando ausência de preenchimento dessa informação nas declarações de óbito”.

Violências ‘não letais’

O estudo mostra que, diferente do que acontece em relação aos homicídios, as notificações de violências não letais envolvendo crianças e adolescentes têm apresentado uma tendência de crescimento entre 2012 e 2022. Nas quatro categorias analisadas — negligência, violência física, violência psicológica e violência sexual — houve aumento de registros.

A pesquisa observa que há predominância diferente de cada tipo de violência para cada faixa de idade. Nos onze anos analisados, os infantes são as principais vítimas de negligência (61,7%), enquanto as crianças são a maioria das vítimas de violências psicológica (53,5%) e sexual (65,1%), e adolescentes são as principais vítimas de violência física (59,3%).

Há diferenças, também, quando analisado o sexo das vítimas. De acordo com os dados colhidos entre 2012 e 2022, 60% desses crimes letais são praticados contra meninas. Elas são a maioria das vítimas de violência sexual (86,7%), psicológica (64,7%) e física (52%), enquanto os meninos aparecem como maioria nos casos de negligência (53%).

Com informações do GLOBO.

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