Assim como na Indonésia, onde brasileira morreu, trilhas do Rio oferecem riscos e número de resgates em áreas naturais dispara

Salvamentos crescem 66,7% em 2025; especialistas alertam para riscos e falta de mapeamento geológico em pontos turísticos do estado

A crescente procura por atividades de ecoturismo no Rio de Janeiro tem elevado também os riscos para quem se aventura em trilhas, montanhas e cachoeiras. Dados do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio mostram que os salvamentos em áreas naturais aumentaram 66,7% entre janeiro e maio de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado. Foram registradas 90 ocorrências neste ano, contra 54 em 2024.

O salto mais expressivo foi no número de resgates em florestas, matas e trilhas, que mais do que dobraram: subiram de 26 para 60 casos. Já as ocorrências em encostas e montanhas cresceram 26,1%, com 29 acionamentos. Em cachoeiras, o total passou de cinco para nove salvamentos.

A tragédia ocorrida na Indonésia, onde a jovem Juliana Marins morreu após cair em uma trilha e aguardar por horas um socorro que não chegou a tempo, acendeu o alerta para os perigos do turismo em ambientes naturais. O Rio, com suas paisagens exuberantes e trilhas urbanas muito procuradas, enfrenta desafios semelhantes.

O escalador Rodrigo Almeida, de 36 anos, é um exemplo de quem viveu momentos de tensão. Ele precisou ser resgatado três vezes — duas na Pedra da Gávea e uma no Pão de Açúcar — e reconhece a eficácia da atuação dos bombeiros.

— Foi um resgate muito preciso e muito rápido. Os bombeiros foram muito, muito rápidos. Eu fiquei com medo na hora, mas consegui ser resgatado. O susto não me fez desistir da adrenalina de escalar — relembra.

De acordo com o major Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, o crescimento do número de salvamentos está diretamente relacionado à retomada do turismo de aventura no período pós-pandemia.

— Mais pessoas praticando significa mais exposição ao risco e, consequentemente, mais vítimas. Além disso, hoje temos mais registros formais e atuação de grupos especializados em resgate, o que eleva o número de ocorrências notificadas — explica.

Pontos de maior risco na cidade

Na capital fluminense, os locais com maior número de ocorrências incluem a Pedra da Gávea, o Morro do Pontal, o Parque Nacional da Tijuca, o Morro da Urca, o Corcovado e as trilhas de Barra de Guaratiba e do Jardim Botânico. Apesar do risco, o Rio de Janeiro ocupa posição de destaque em rankings internacionais de trilhas urbanas. A plataforma SportsShoes avaliou 180 destinos e classificou a cidade entre as melhores do mundo para esse tipo de atividade, com base em fatores como segurança, avaliação de trilheiros e acessibilidade.

Falta de mapeamento de riscos no Rio

Embora a prática do ecoturismo seja crescente, o planejamento preventivo ainda é incipiente em muitas áreas. O Serviço Geológico do Brasil iniciou há pouco mais de três anos a criação de um sistema de gestão de riscos geológicos em parques naturais e geoparques, mas nenhuma área do estado do Rio foi contemplada até agora.

A professora Joana Paula Sanchez, especialista em riscos geológicos em áreas turísticas, destaca a importância do mapeamento como ferramenta para salvar vidas.

— Esse sistema dá diretrizes cruciais para elaborar o sistema de gestão de segurança, que determina o que pode ser feito quando acontece uma emergência. O Brasil é um dos países pioneiros nessa implantação, ao lado apenas da Austrália e dos Estados Unidos, que têm um sistema parecido — explica.

Diretrizes e segurança

No Brasil, as atividades de turismo de aventura são regidas por mais de 40 diretrizes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), estabelecidas com o apoio do Ministério do Turismo, Sebrae e outras instituições. O Sistema de Gestão da Segurança é regulamentado pela norma ABNT NBR ISO 21101, que define padrões mínimos para operação de atividades em ambientes naturais.

Acidente e superação

Para o eletrotécnico William Antunes de Camargo, de 42 anos, o que era para ser uma experiência de lazer virou uma longa jornada de recuperação. Em 2023, ele caiu de mais de 20 metros durante um rapel improvisado oferecido por uma agência em Resende, no Sul Fluminense.

— Caí direto nas pedras. Fraturei o tornozelo esquerdo e a coluna. Não tinha visibilidade suficiente para um helicóptero pousar. Em alguns trechos, tive que ficar de pé, mesmo com fratura exposta. Eles refizeram a trilha comigo até a base. Hoje estou com mobilidade reduzida e pinos no pé. Subir escada virou um desafio, mas sobrevivi — relata.

William foi resgatado pelo grupo voluntário Anjos da Montanha, que realizava um treinamento na região. O fundador da equipe, Levy Cardozo da Silva, enfatiza que os resgates seguem protocolos rigorosos.

— Todo resgate segue o Procedimento Operacional Padrão (POP), que determina desde o plano de chamada para emergências até a designação dos coordenadores de campo e de base — afirma.

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