Centenas de idosos enfrentaram horas de espera, calor e falta de estrutura no posto de cadastramento do Jaé em Botafogo, Zona Sul do Rio, na terça-feira (8), primeiro dia útil após a entrada em vigor da obrigatoriedade do novo cartão nos transportes municipais para beneficiários de gratuidade. O local, que é o único ponto de atendimento da região sul da cidade, se transformou em um cenário de aglomeração, gritos, queixas e indignação, segundo reportagem do jornal O GLOBO.
Em meio ao tumulto, idosos com dificuldades de locomoção aguardavam sentados em calçadas, degraus ou onde fosse possível. Era o caso da aposentada Vicentina Silva, de 77 anos, que aguardava desde o fim da manhã, com a perna direita enfaixada devido a uma cirurgia recente. Após três horas, ainda restavam cem pessoas na sua frente:
— Já passou da hora de tomar remédio e me alimentar, mas sigo aqui. Nem água para beber tem. Vim só buscar meu cartão. Acho que só vou embora lá para as 15h. Sinto que é muita falta de respeito, falta de humanidade — desabafou.
Desorganização e descaso
A confusão já começava na entrada do posto, com uma fila única para retirada de senhas, divididas por faixas etárias e perfis de beneficiários. Havia filas para maiores de 65, 70, 80 anos e outros grupos, mas poucas cadeiras para os que aguardavam. A espera era longa e desconfortável: alguns usaram árvores e meio-fio como assento improvisado.
Somente após as 13h, um funcionário com uniforme da prefeitura apareceu distribuindo copos d’água aos presentes. Para muitos, a situação beirava o desrespeito. A costureira Maria Pereira, de 72 anos, moradora do Catete, resumiu sua revolta:
— Dá vontade de mandar todo mundo para aquele lugar. Estou até com dor de cabeça, a gente fica revoltado.
Outro usuário, o porteiro aposentado Manoel Pedro Filho, de 75 anos, que usava duas muletas, só conseguiu se sentar porque uma senhora cedeu seu lugar:
— Ficar sentado é ruim, mas em pé não tem como. Infelizmente, isso é Brasil. Fazer o quê? — lamentou.
Secretaria reconhece falhas e promete melhorias
A secretária municipal de Transportes, Maína Celidonio, reconheceu que houve um “movimento atípico” no posto de Botafogo e afirmou que sete funcionários extras foram enviados ao local na parte da tarde para reforçar o atendimento. Ela admitiu que a demanda tem sido monitorada e que ajustes estão sendo feitos:
— Vamos dar uma atenção especial a Botafogo. Ficou confuso hoje (ontem) à tarde, mas esperamos que a situação se normalize e todas as pessoas sejam atendidas. Vamos aumentar a capacidade de atendimento, para receber mais pessoas no mesmo espaço de tempo, de forma mais organizada — declarou.
Desde 13 de junho, quando a prefeitura anunciou os novos prazos para a obrigatoriedade do Jaé, as filas vêm sendo uma constante nos postos. A prefeitura já abriu novas unidades e agora avalia implantar mais um ponto na Zona Sul para desafogar Botafogo.
Aplicativo ainda é alternativa, mas alvo de críticas
A prefeitura segue recomendando o cadastro pelo aplicativo do Jaé, mas a ferramenta tem gerado queixas de usuários que enfrentam dificuldades técnicas ou não têm familiaridade com tecnologia. Maína defendeu a digitalização, mas reconheceu limitações:
— Todo sistema tem problemas pontuais. As lojas servem justamente para resolvê-los.
Segundo dados da prefeitura, 2,8 milhões de usuários já foram cadastrados no Jaé, sendo 42% deles beneficiários de gratuidades. O cartão passou a ser obrigatório para idosos, pessoas com deficiência, doentes crônicos e estudantes da rede pública nos transportes municipais — ônibus, BRT, VLT, vans e “cabritinhos” — desde o último sábado.
Direitos violados
Para o professor de Direito Civil da PUC-Rio Vitor Almeida, a forma como o novo sistema está sendo implementado pode configurar violação de direitos dos idosos:
— É uma situação lamentável e desumana, uma violação de direitos da pessoa idosa inaceitável — afirmou, ao comentar as imagens registradas no posto de Botafogo. — A simples adoção de um novo serviço de bilhetagem por si só não é uma violação. Mas a forma de implementação e a ofensa aos direitos básicos e à garantia de prioridade são, sim, exemplos de violações ao comando constitucional e ao Estatuto da Pessoa Idosa.
Apesar da obrigatoriedade, idosos que ainda não possuem o Jaé podem continuar apresentando a carteira de identidade ao embarcar. Ainda assim, relatos de desinformação persistem. O padeiro Antônio Henrique Bento, de 75 anos, relatou constrangimento ao tentar embarcar sem o novo cartão:
— Hoje de manhã, pedi para entrar no ônibus com a identidade e o motorista disse: “Tem que ter o Jaé”, mas avisei que estava vindo buscar — contou, após ser atendido no superposto da Cidade Nova.
O sindicato Rio Ônibus informou que os motoristas estão orientados a liberar o embarque de idosos pela porta traseira dos coletivos, mesmo sem o Jaé.
Com o prazo final para uso obrigatório do cartão se aproximando — 2 de agosto —, o desafio da prefeitura será garantir que os idosos tenham acesso ao benefício sem que para isso enfrentem filas humilhantes ou esperas de horas.





