Exonerado no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Unha e Carne, Márcio Bruno Carvalho voltou a ocupar um cargo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em meio à maior reestruturação administrativa da Casa nas últimas três décadas, marcada por demissões em massa, investigações em curso e a consolidação do comando interino de Guilherme Delaroli (PL).
A nomeação publicada no Diário Oficial desta quinta-feira (08) e acontece semanas após a canetada de Delaroli, que exonerou 206 servidores. O movimento teve início após o afastamento do deputado Rodrigo Bacellar (União) do comando da Casa e o aprofundamento das apurações que atingem seu entorno político. Bacellar agora retorna com um dos seu aliados, uma vez que mesmo afastado ainda possui a prerrogativa das nomeações junto ao seu gabinete.
Exoneração no dia da operação
Márcio Bruno ocupava o cargo de assessor especial de plenário. Ele foi exonerado em 16 de dezembro, poucas horas depois do início da operação da Polícia Federal, por meio de um Diário Oficial extra publicado por Delaroli.
Bacellar havia sido afastado da presidência após se tornar alvo de investigação, sob suspeita de vazamento de informações de uma operação policial contra o TH Jóias e integrantes do Comando Vermelho.
À época, a exoneração de Márcio Bruno foi interpretada como parte de um movimento preventivo para reduzir o impacto político das investigações sobre a estrutura administrativa da Assembleia.

Nova função no gabinete
Agora, Bruno retorna à Alerj como chefe de gabinete de Rodrigo Bacellar, substituindo Igor Gomes de Azevedo, filiado ao União Brasil e ex-vereador suplente de Campos dos Goytacazes, principal reduto eleitoral do deputado afastado da presidência.
Em sua nova função, ele passa a receber um salário de R$ 10.208,22. Além da remuneração base, o valor pode ser acrescido de até R$ 2.940 em auxílio-alimentação e, para dependentes em idade escolar, um auxílio-educação de R$ 1.500 por criança.
O nomeado já havia ocupado a chefia de gabinete no início do mandato de Bacellar como deputado estadual, mas deixou a função para atuar diretamente nos trabalhos de plenário, quando assumiu o cargo de assessor especial. Na ocasião, Rui Carvalho Bulhões Júnior passou a ocupar a chefia do gabinete.
Bulhões, considerado braço-direito de Bacellar, também foi exonerado no mesmo dia da operação da Polícia Federal. Ele era apontado como principal articulador político do deputado junto aos parlamentares e mantinha vínculo societário com Bacellar na RB Entretenimento, empresa de organização de eventos sediada em Campos dos Goytacazes, responsável por trazer à cidade atrações como o rapper Matuê e eventos como a Oktober Fest.
Exonerações e nomes atingidos
Na mesma edição do Diário Oficial extra de dezembro, Delaroli exonerou o diretor-geral da Alerj, Marcos André Riscado de Brito, um dos primeiros nomes indicados por Bacellar após sua eleição para a presidência do Legislativo.
Sob a gestão de Brito, trabalharam na Casa a esposa do desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, Macário Ramos Judice Neto, preso na operação da PF, e o procurador-geral da Alerj, Robson Maciel.
Outro ponto que chamou atenção nos bastidores foi o fato de Brito ter sido nomeado diretor-geral em fevereiro de 2023, três dias depois de Marcos Vieira Bacellar, pai de Rodrigo Bacellar, apresentar recurso à Justiça para tentar reverter uma condenação por improbidade administrativa. Nesse processo, segundo o Ministério Público, Brito figura como testemunha.
Histórico e investigações anteriores
Márcio Bruno Carvalho de Oliveira também integrou a formação original da banda Os Mulekes, historicamente ligada a Bacellar. Além disso, seu nome aparece citado em investigações envolvendo a Prefeitura de Cambuci, onde chegou a ser nomeado na Secretaria de Trabalho e Renda.
Nesse inquérito, o Ministério Público do Rio apurou um suposto esquema descrito como “aluguel da prefeitura”, no qual Rodrigo Bacellar e seu pai teriam pago cerca de R$ 160 mil mensais ao então prefeito Oswaldo Botelho, conhecido como Vavado, para controlar a administração municipal. Segundo delações e depoimentos, o grupo atuaria nos bastidores, com a infiltração de aliados em cargos estratégicos da máquina pública.
Interlocutores da presidência da Alerj afirmam que a exoneração de Márcio Bruno, à época da operação, integrou um movimento mais amplo de antecipação de mudanças administrativas decidido por Delaroli diante do avanço das investigações da Polícia Federal.

Demissões em massa e reposicionamento político
A volta de Márcio Bruno ao gabinete de Bacellar ocorre em meio a um cenário de endurecimento administrativo. No último dia 6 de janeiro, Delaroli publicou novo Diário Oficial extra exonerando 206 servidores comissionados. Entre os desligados estão indicados de ex-presidentes da Assembleia, como Paulo Melo e Sérgio Cabral, além de Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, respectivamente filho e ex-esposa do ex-governador.
Levantamento interno aponta que a lista inclui 47 indicações atribuídas a Paulo Melo, 17 ligadas a Sérgio Cabral e cerca de 50 nomes associados a André Ceciliano, ex-presidente da Alerj e atual secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal. Nos corredores da Casa, a avaliação é de que a revisão ainda não terminou, com a expectativa de que cerca de mil cargos estejam sob análise.
Movimentos da presidência interina
Paralelamente às exonerações, Delaroli tem promovido mudanças graduais e preenchido cargos estratégicos com aliados de seu reduto político, estratégia semelhante à adotada por Bacellar no passado. Parte dos nomeados mantém vínculos diretos com Itaboraí, município governado por Marcelo Delaroli, irmão do presidente em exercício.
Nesta semana, Delaroli nomeou o ex-secretário municipal de Ciência e Inovação de Itaboraí, Guilherme Ferreira Delphim Pereira, para o cargo de subdiretor de Assuntos Legislativos da Alerj.
Em dezembro, já havia substituído o diretor-geral da Casa por Luciano Martins Abreu, então secretário municipal de Serviços Públicos de Itaboraí, e nomeado o vice-prefeito do município, Elber Corrêa da Silva, para a chefia de gabinete da presidência.
Nos bastidores, parlamentares e servidores também especulam que o movimento de exonerações e rearranjos administrativos possa estar ligado à construção de respaldo político para uma eventual renúncia de Rodrigo Bacellar à presidência da Assembleia.






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