Após anos cobrando taxas de comércio e serviços, agora a milícia de Rio das Pedras bate nas portas das casas para extorquir moradores

Relato chega ao Disque Denúncia; valor mensal deve ser pago a partir desta segunda-feira

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Há muito tempo que quem explora o comércio e os serviços de Rio das Pedras tem que se submeter a pagamentos quinzenais ou semanais — dependendo da atividade e do porte — aos milicianos locais. Só que, agora, os controladores da favela decidiram estender a chamada taxa de segurança aos moradores. Segundo narrativa que chegou ao serviço Disque-Denúncia (2253 1177), um miliciano avisou que as casas terão que pagar R$ 50 por mês. A cobrança será a partir desta segunda-feira, informa à reportagem o aposentado Z., que vive na favela há mais de 30 anos.

— Eles batem na porta, abordam o morador e avisam que vão cobrar. — conta Z. — Tenho relato de pessoas conhecidas de várias localidades de Rio das Pedras: Pinheiro, Rua Velha, Rio das Flores, Casinhas, Areal e Areínha. Areal e Areínha são as áreas mais carentes de Rio das Pedras, que sofrem com afundamento do solo e inundações. Lá, é que os aluguéis são os mais baratos da comunidade, entre R$ 300 e R$ 600. Não estão poupando nem os mais pobres. Estamos pedindo socorro.

Pelo Censo de 2022, Rio das Pedras é a segunda favela do Rio em número de domicílios. Foram contabilizadas na comunidade 23.846 moradias. Caso todos paguem os R$ 50 que passarão a ser exigidos pelos bandidos, a nova cobrança representará um incremento de R$ 1,19 milhão por mês na arrecadação dos paramilitares.

O objetivo da ampliação da extorsão, conta Z., seria arrecadar mais para comprar armas — para enfrentar o Comando Vermelho (CV), facção que tenta invadir a favela —, custear advogados que defendem milicianos presos e pagar propina para agentes públicos. Os comerciantes, acrescenta ele, também estão sendo obrigados a pagar um valor extra, além das taxas que já recolhem:

— Estão indo no comércio e cobrando de R$ 5 mil a R$ 30 mil, dependendo do tamanho. Se não pagarem têm que fechar. Alguns fecharam, outros estão negociando o valor, podendo até parcelar. Vivemos momentos muito difíceis.

“Enfrentar impopularidade”

O sociólogo José Cláudio Souza Alves, professor do Departamento de Ciência Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), lembra que a prática de cobrar taxa de moradores acontece em lugares onde a milícia consegue controlar com facilidade a entrada e a saída, como é o caso de condomínios do Minha Casa, Minha Vida.

— Rio das Pedras é um dos lugares mais consolidados e mais antigos que a milícia controla. Ela tem tudo bem mapeado ali. Onde estão as pessoas, quem são. Estão no local há muito tempo, organizando e estabelecendo a lógica de controle territorial, de grana, dos negócios e dos votos. Isso torna mais fácil para eles praticarem o controle de cada unidade familiar.

O professor acredita que por trás da decisão da milícia de Rio das Pedras recorrer à nova fonte de arrecadação está o confronto com o CV, que há três anos disputa o território:

— A milícia de lá tem gastos e vai lançar mão dessa dimensão familiar de cobrança, que estavam retardando. É uma medida muito impopular extrair grana de famílias. Eles sempre se colocaram como benfeitores da comunidade, e, com isso, faturavam econômica e politicamente. Agora, podem começar a enfrentar impopularidade, mesmo que a taxa seja baixa. O próprio Comando Vermelho vai se contrapor e dizem: ‘Estão vendo, os caras estão achacando vocês’. Isso pode até virar uma bandeira do CV lá dentro.

Considerada o berço da milícia — nos anos 1980, comerciantes locais começaram a pagar policiais para evitar a invasão do local por traficantes —. Rio das Pedras é uma das poucas comunidades do Itanhangá e Jacarepaguá que ainda continuam com o território dominado por paramilitares. Mas, em novembro do ano passado, foi palco de mais uma tentativa de invasão por bandidos do CV, que já controlam favelas vizinhas como Tijuquinha, Morro do Banco, Sítio do Pai João e parte da Muzema, onde um pedaço ainda estaria sob influência da milícia. Em Jacarepaguá, áreas como Gardênia Azul e Anil, que dão acesso pela mata a Rio das Pedras, também estão com territórios controlados pela maior facção criminosa do estado.

No dia da tentativa de invasão de Rio das Pedras em novembro, a Polícia Militar prendeu nove suspeitos. Durante um tiroteio, uma pessoa morreu e outra ficou ferida. Na mesma ação, homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) apreenderam oito fuzis, duas pistolas, 21 granadas, 51 carregadores e munição, além de quatro rádios de comunicação. Vinte e quatro horas após o confronto, um homem foi morto a tiros na favela.

“Arsenal da milícia”

O relato ao Disque Denúncia sobre a ampliação da taxa de segurança em Rio das Pedras dá conta de que o aviso da milícia começou a ser feito no dia 29 de janeiro. Este ano, até 20 de fevereiro, outras oito denúncias anônimas sobre a favela foram feitas ao serviço. Além da ampliação da taxa, há relatos de que milicianos invadem e expulsam de seus imóveis aqueles que são inadimplentes. “Para ter direito a retornar, são obrigados a pagar entre R$ 30 mil e R$ 50 mil”, diz um denunciante.

“Nos finais de semana ocorrem bailes funk, com a presença de vários milicianos armados com fuzis e granadas”, conta outro. “Parte do arsenal da milícia é escondido na mata que tem acesso pela Rua José Carlos da Silva, na altura do número 250”, revela mais um. Mais relatos informam que “milicianos emprestam dinheiro e cobram juros extorsivos” e que “também cobram taxas para fazer instalações de gatos de energia elétrica e cobram mensalmente pelo fornecimento”.

Em todo o ano passado, o Disque Denúncia recebeu 32 relatos sobre Rio das Pedras, mesma quantidade de 2023. Em 2022, foram 29.

Taxas variadas

Estimativas feitas por policiais, em 2023, apontavam uma arrecadação da milícia de Rio das Pedras de cerca de R$ 2 milhões mensais com a exploração de serviços clandestinos e com a cobrança de taxas de quem explora atividades comerciais e de serviço no local.

Os valores variam muito, informam comerciantes. Um salão de beleza, por exemplo, paga R$ 50 por quinzena. Bar tem que contribuir com R$ 100, restaurante com R$ 300, e loja com R$ 80, todos semanalmente. Para supermercado, a taxa semanal varia de R$ 500 a R$ 800. E um vendedor de caldo de cana, que trabalha em cima da calçada, precisa desembolsar R$ 250 por semana.

Para se livrar da taxa, as vans que vão para a Rocinha alegam que têm que pagar propina à polícia, mas as que vão até o BarraShopping desembolsam entre R$ 300 e R$ 400 semanais para a milícia. Por sua vez, os mototáxis são controlados Mauricinho, filho de Maurício Silva da Costa, o Maurição, miliciano preso na penitenciária federal de Mossoró (Rio Grande do Norte). Cada mototaxista deve pagar entre R$ 50 e R$ 60 semanais.

Questionadas as polícias Civil e Militar não informaram se investigam a nova denúncia de Rio das Pedras. A PM diz, em nota, que “o combate aos grupos paramilitares conhecidos como milícias é uma das principais metas do atual comando da corporação”. Acrescenta que a Secretaria Estadual de Polícia Militar “atua ostensivamente e, identificando flagrante delito, os envolvidos são presos” e que “também atua em apoio aos órgãos fiscalizadores dentro desse contexto”.

Já a Polícia Civil afirma que “ por meio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) e de unidades especializadas e distritais, investiga a ação de organização criminosa na região e monitora suas atividades delituosas”. “Agentes realizam diligências para identificar e responsabilizar criminalmente todos os envolvido”, conclui.

Com informações de O GLOBO.

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