Apesar do tarifaço, déficit comercial dos EUA em 2025 foi de US$ 901 bi, um dos maiores desde 1960

Enquanto Washington amplia barreiras, China registra superávit histórico superior a US$ 1 trilhão e redireciona exportações

Os Estados Unidos encerraram 2025 com um déficit comercial de US$ 901,5 bilhões, o maior já registrado na série histórica, mesmo após um ano marcado por forte política tarifária do presidente Donald Trump. Em dezembro, o saldo negativo na balança de bens e serviços chegou a US$ 70,3 bilhões, ampliando-se em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento de Comércio divulgados nesta quinta-feira e reportados pelo New York Times.

O resultado consolida um período de elevada volatilidade nas trocas comerciais, influenciado por sucessivos anúncios de tarifas e por ajustes estratégicos de empresas que tentaram antecipar custos mais elevados.

China amplia superávit e redireciona comércio

No mesmo período, a China, principal alvo da ofensiva comercial de Trump, fechou o ano com um superávit superior a US$ 1 trilhão — a maior marca já alcançada por um país na história. Embora as exportações chinesas diretamente para os Estados Unidos tenham recuado, Pequim encontrou novas rotas para escoar sua produção, especialmente por meio de mercados asiáticos, mantendo o fluxo indireto para a maior economia do mundo.

Para Oren Klachkin, economista de mercados financeiros da Nationwide, o saldo estadunidense pouco se alterou apesar do ambiente turbulento.

“Depois de todas as manchetes sobre tarifas e das oscilações nos dados, o déficit comercial praticamente não se alterou em 2025”, afirmou. “Com o impacto máximo das tarifas provavelmente já tendo ficado para trás, esperamos que o comércio entre em um ritmo mais previsível”.

Oscilações ao longo do ano

Os números mensais de 2025 foram particularmente instáveis. Importadores dos EUA reagiram ao “bombardeio” de anúncios tarifários do governo Trump, antecipando compras para evitar custos mais altos. As importações de ouro e de produtos farmacêuticos foram especialmente voláteis, refletindo esse movimento.

O déficit de dezembro superou praticamente todas as estimativas de economistas consultados pela Bloomberg. O resultado foi impulsionado por uma alta de 3,6% nas importações, com destaque para acessórios de informática e veículos automotores. Ao mesmo tempo, as exportações de bens e serviços recuaram 1,7%, influenciadas sobretudo por menores embarques de ouro.

Antes da divulgação dos dados, o indicador GDPNow, do Federal Reserve Bank de Atlanta, estimava que as exportações líquidas contribuiriam com cerca de 0,6 ponto percentual para o crescimento do quarto trimestre, projetado em 3,6%. Após o relatório, analistas passaram a revisar as projeções, indicando possível contribuição menor — ou até negativa — do comércio no resultado final do Produto Interno Bruto.

Após o ajuste pelas variações de preços, o déficit comercial de mercadorias alcançou US$ 97,1 bilhões em dezembro, o maior patamar desde julho. O comércio de ouro, exceto quando destinado a usos industriais como a fabricação de joias, é excluído do cálculo oficial do PIB.

“Com o relatório comercial de dezembro em mãos, podemos estimar que as exportações líquidas contribuíram pouco para o crescimento real do PIB no quarto trimestre. Em linha com outros dados recentes, as importações de bens de capital — lideradas por produtos relacionados à IA — continuaram a sinalizar um forte investimento doméstico no fim do ano”, afirmou Troy Durie, analista da Bloomberg Economics.

Tarifas, investimento e indústria

Trump tem defendido o uso de tarifas como instrumento para reduzir a dependência de bens estrangeiros, estimular a produção doméstica e reverter décadas de perda de empregos industriais. A equipe econômica do presidente contesta pesquisas que apontam que os consumidores dos EUA arcaram com parte relevante dos custos adicionais.

Uma das principais incertezas agora é se a Suprema Corte confirmará a autoridade do presidente para impor tarifas abrangentes com base em uma lei de emergência. A decisão pode ser anunciada já na sexta-feira, embora o tribunal não divulgue previamente quais julgamentos serão publicados.

Em meio ao cenário comercial, as empresas estadunidenses importaram quase US$ 145 bilhões a mais em computadores e acessórios do que no ano anterior. O aumento reflete o avanço dos investimentos em inteligência artificial, que impulsionaram a demanda por equipamentos de alta tecnologia.

Mudança nos parceiros comerciais

O déficit dos EUA com a China caiu de forma significativa, atingindo cerca de US$ 202 bilhões — o menor nível em mais de duas décadas — como reflexo direto das tarifas mais elevadas impostas por Trump. No entanto, parte do comércio foi redirecionada para outros países, como México e Vietnã, onde os déficits atingiram níveis recordes.

O saldo negativo com Taiwan também alcançou um recorde de US$ 146,8 bilhões no ano passado, enquanto o déficit anual com o Canadá apresentou redução.

Dados separados divulgados nesta quinta-feira mostraram que os pedidos iniciais de auxílio-desemprego caíram na última semana, registrando a maior queda desde novembro, sinalizando resiliência do mercado de trabalho em meio às turbulências comerciais.

O cenário de 2025 revela que, apesar da estratégia protecionista, o déficit comercial dos EUA atingiu novo recorde, enquanto a reorganização das cadeias globais de suprimento e a expansão do comércio asiático redesenham o mapa das trocas internacionais.

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