Os iranianos voltaram às ruas de Teerã e de outras cidades do país na noite de sábado (10) para protestar contra o governo, mesmo após mais de dois dias de bloqueio quase total das comunicações. A nova onda de manifestações ocorre em meio a uma repressão crescente e amplia a crise enfrentada pela Irã, que vive uma das maiores mobilizações populares dos últimos anos.
Segundo a organização de monitoramento NetBlocks, especializada em acompanhar restrições à internet, o bloqueio já ultrapassa 60 horas. Em comunicado, a entidade afirmou que os “níveis de conectividade nacional continuam estagnados em torno de 1% dos níveis normais”, o que dificulta a circulação de informações dentro e fora do país.
Mortes e repressão
Organizações de direitos humanos relatam que a repressão já deixou quase 200 mortos desde o início dos protestos, há cerca de duas semanas. A ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega, confirmou a morte de pelo menos 192 manifestantes em confrontos com forças de segurança e ações repressivas do Estado.
A República Islâmica enfrenta um dos momentos mais delicados desde sua fundação, em 1979. As atuais mobilizações já são consideradas as mais intensas desde os protestos de 2022 e 2023 e figuram entre os maiores desafios ao regime ao longo de sua história.
Manifestações noturnas em Teerã
Na noite de sábado, uma manifestação teve início em um bairro da zona norte de Teerã. Vídeos do protesto foram analisados e confirmados pela agência de notícias AFP. As imagens mostram fogos de artifício lançados sobre a Praça Punak, enquanto moradores batiam panelas e entoavam slogans em apoio à dinastia Pahlavi, deposta pela Revolução Islâmica de 1979.
A circulação de informações segue limitada, já que a população está sem acesso à internet desde quinta-feira. O governo iraniano acusa os Estados Unidos e Israel de estimularem os protestos e de atuarem para desestabilizar o país.
Pressão internacional e falas de Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a comentar a crise iraniana. Em uma publicação recente, afirmou que o Irã “anseia por liberdade” e que os estadunidenses “estão prontos para ajudar”. “O Irã está olhando para a liberdade, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar”, escreveu o republicano, sem detalhar que tipo de apoio poderia ser oferecido.
Em declarações anteriores, Trump havia ameaçado “atingir o país com força” caso o governo iraniano promovesse uma repressão violenta contra os manifestantes, o que elevou ainda mais a tensão diplomática em torno da crise.
Origem dos protestos
Os protestos começaram em 28 de dezembro, inicialmente liderados por comerciantes do tradicional bazar de Teerã. A mobilização surgiu como reação à inflação elevada e ao colapso do rial, a moeda iraniana, mas rapidamente ganhou contornos políticos e se espalhou por diversas cidades do interior do país.
Com o passar dos dias, as reivindicações passaram a questionar diretamente o regime e sua condução econômica e política, ampliando a adesão popular e a resposta repressiva das autoridades.
Comparação com 2022
A atual onda de manifestações é a maior desde o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, que sacudiu o país entre 2022 e 2023. Naquela ocasião, os protestos foram desencadeados pela morte da estudante Mahsa Amini sob custódia policial, após ter sido detida pela polícia da moralidade por usar um véu considerado inadequado.
Assim como naquele período, o governo responde com repressão, restrições às comunicações e acusações de interferência estrangeira. A persistência dos protestos, apesar do bloqueio da internet e do número crescente de mortos, indica que a crise pode se prolongar e seguir desafiando o regime iraniano nos próximos dias.





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