O cantor, compositor e instrumentista Arlindo Cruz, um dos maiores nomes da história do samba, morreu nesta sexta-feira, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. A informação é de Babi Cruz, esposa do artista. Ele sofria com complicações ligadas ao acidente vascular cerebral hemorrágico sofrido em 2017. Desde então, o artista enfrentava uma série de internações, cirurgias e tratamentos intensivos, além de outras doenças.
Ainda não há informações sobre o velório e sepultamento de Arlindo Cruz.
Figura central da renovação do samba nos anos 1980, Arlindo Cruz ficou conhecido ainda no início da carreira como um dos pilares do Fundo de Quintal — grupo fundado pelo Bira Presidente no Cacique de Ramos e que revolucionou o estilo —, além de construir uma carreira solo vitoriosa, com centenas de músicas gravadas, prêmios, homenagens e uma legião de admiradores.
Nascido em Piedade, na Zona Norte, em 1958, Arlindo começou a tocar cavaquinho aos sete anos, influenciado pelo pai e pelo tio. Aos 12, já tirava canções de ouvido. Na juventude, estudou teoria e solfejo na Escola Flor do Méier e frequentou a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Minas Gerais, sem nunca se afastar das rodas de samba.
Internação
Em março de 2017, Arlindo sofreu um AVC hemorrágico em casa, enquanto se preparava para um show com o filho, Arlindinho. O sambista ficou internado por mais de um ano na Casa de Saúde São José, no Humaitá, na Zona Sul, enfrentando diversas cirurgias — pelo menos cinco delas na cabeça —, além de complicações como embolia pulmonar. Com sequelas neurológicas graves, teve a fala e a mobilidade afetadas.
Apesar do tratamento intensivo com antibióticos e do uso de óleo de cannabis desde 2022, que trouxe melhorias ao sambista, o quadro de Arlindo era delicado. Babi, companheira de quase 40 anos, e os filhos Arlindinho e Flora mantiveram a esperança, usando música e fé para se conectar com ele, enquanto desmentiam boatos sobre sua saúde e pediam respeito nas redes sociais. Flora, recentemente, foi à público reforçar que o pai seguia vivo e destacando a força da família diante da luta de oito anos contra as sequelas do AVC.
Arlindo estava internado no Hospital Barra D’Or desde o dia 25 de março, em tratamento contra um quadro de pneumonia agravado por uma bactéria resistente. Em julho, Babi afirmou que o marido já não respondia a estímulos, vivendo, segundo ela, “bem distante, no mundinho dele”, como revelou em trechos da biografia “O Sambista Perfeito”, de Marcos Salles, lançada este ano. A obra trouxe bastidores inéditos da vida do artista.
Do Fundo de Quintal ao Arlindinho
Sempre presente nas rodas, nos anos 1980 Arlindo se tornou figurinha certa nas lendárias quartas-feiras do Cacique de Ramos, berço de toda uma geração de bambas. Foi ali que se juntou a Jorge Aragão, Beth Carvalho, Beto Sem Braço, Ubirany, Almir Guineto e Zeca Pagodinho. Em 1981, entrou para o Fundo de Quintal, onde ficou por 12 anos, assinando clássicos como “Seja Sambista Também”, “Castelo de Cera” e “O Show Tem Que Continuar”.
Com formação que reuniu Arlindo, Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Sombrinha e Cleber, o grupo gravou uma sequência de discos fundamentais para o samba, incluindo “Nos Pagodes da Vida”, “Divina Luz” e “O Mapa da Mina”, que aproximaram o ritmo das rádios, da TV e de uma nova geração de fãs para além do território fluminense.
Além de compor e cantar, Arlindo foi um dos responsáveis por abrir espaço para sambistas do Cacique, gravando músicas de Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Beto Sem Braço, Nei Lopes, Wilson Moreira e Noca da Portela. Com essa força coletiva, o Fundo de Quintal virou referência e alcançou marcas históricas — inclusive com um disco de platina por O Mapa da Mina e shows lotados pelo país.
Na saída, em 1993, abriu caminho para uma carreira solo, com a estreia de seu primeiro álbum, “Arlindinho”, e emplacou sucessos e turnês pelo Brasil. Entre dezenas de troféus, levou o Prêmio da Música Brasileira por quatro vezes, de 1994 a 2015, tendo sido eleito melhor cantor sambista em duas edições, além de ter sido indicado cinco vezes ao Grammy Latino.
Reconhecido pelo samba e pelo Rio
Arlindo Cruz também foi um dos grandes nomes das disputas de samba-enredo no Império Serrano, sua escola do coração, onde venceu sambas históricos e foi homenageado em 2023, saindo como destaque no último carro da escola, personalizado com uma escultura do sambista tocando cavaquinho. Foi homenageado também como enredo pela X-9 Paulistana em 2019, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, em que também subiu num carro alegórico e desfilou, nas suas condições de saúde, para uma plateia lotada.
Fora dos palcos e passarelas, Arlindo também recebeu diversas condecorações, entre elas o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro, concedido pela Câmara dos Vereadores, há seis anos. Devoto do candomblé e generoso, como descrevia amigos, Arlindo era visto como um mestre — não só da música, mas do modo de viver o samba como filosofia popular, religiosidade, roda de conversa e alegria, deixando transparecer em suas letras.
O velório e o sepultamento devem ocorrer no Rio de Janeiro. Detalhes ainda não foram divulgados pela família.






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